INTRODUZ OS POBRES, OS ESTROPIADOS, OS CEGOS E OS COXOS

Jesus assume o rosto da mulher adúltera para que o rosto dela se tornasse o rosto de Jesus

Jesus assume o rosto da mulher adúltera para que o rosto dela se tornasse o rosto de Jesus

“Não há pecado ou crime que possa cancelar um homem do coração de Deus”, afirmou Francisco, ao Angelus de 3 de novembro de 2013, porque o coração de Deus, abismo de santidade, é uma casa de doentes e pecadores, uma casa de filhos.

Nós, quando tomados por um estreito moralismo, fazemos seleção dos que podem se salvar como se fôssemos agentes de salvação, revelando a insignificância a que reduzimos o amor do Pai e a fé cristã. Deus é apresentado num retrato muito mesquinho: um deus frustrado que cria com abundância para, em seguida, condenar também com abundância, e se contentar com bem poucos em seu Reino. Um deus assim cruel não é o Deus revelado por Jesus. Não existe: somos ateus achando-nos grandes devotos.

Por que temos essa preocupação em condenar o comportamento das pessoas? Um dos motivos, arrisco dizer, é nossa frustração diante da vida que lutamos para conservar, em outras palavras, levamos uma vida pretensamente correta, mas estéril, pesada, que se mantém pelo contínuo medo do inferno e pelo desejo de que os outros sejam condenados. Uma vida triste e entristecedora, porque excludente. Uma vida de amor próprio, não uma vida amorosa, acolhedora.

Temos nojo dos pecadores, dos viciados que batem à nossa porta, pelo caminho evitamos o encontro com as pessoas tomadas pela doença, pela deformidade física. Nosso higienismo físico e espiritual evita os contatos com as almas “sujas” para não nos sujarmos, mas, esquecemo-nos que estamos sujos e os iguais se repelem. Com uma diferença: eles são “sujos” por tantos motivos que levam alguém a comprometer a existência, e nós somos “sujos” de tanta limpeza produzida pelo nosso narcisismo.

Jesus é muito diferente e revelou-nos o Pai carinhoso e ciumento por cada filho. Na parábola do banquete (Lucas 14, 5-24) encontramos essa demonstração: num primeiro grupo, os convidados “sérios” encontram desculpas para não participarem: casamento, negócios, compromissos. O dono da festa envia os empregados a chamarem os pobres, os estropiados, os cegos e os coxos, todos. E ainda sobra lugar, e exige que procurem mais convidados “para que minha casa fique completa”. A festa é a vida, o dono é o Pai, os convidados são os filhos dispersos pelo mundo e pela história. A sala do banquete é seu coração misericordioso.

Não quebrar o caniço machucado

“Não quebrará o caniço rachado, não extinguirá a mecha que ainda fumega”, proclama o profeta sobre a missão do Servo Sofredor (Isaías 42, 3). Um caniço tratado com cuidado pode tornar a crescer, uma chama fraca, com algum sopro delicado ganha força e um bom fogo é aceso. O Pai não enviou o Filho para queimar e apagar, mas para fazer reviver e renascer. O Filho não veio até nós e deu a vida para selecionar os bons e expulsar os maus, pois a humildade do Crucificado é o sinal do rebaixamento para que nós sejamos elevados.

A história revelada é História da Salvação, a palavra proferida é Palavra de Salvação.

Foi-nos confiada a missão de reanimar os debilitados, e a Igreja é a casa dos enfraquecidos que nela devem encontrar novas forças para viver o caminho, forças brotadas do amor.

A opção cristã e eclesial pelos pobres não leva em conta sua situação moral: é opção pelos pobres da história, sem esquecer que nós também somos pobres e necessitamos de quem opte por nos acolher, salvar. A opção pelos pobres não inclui adjetivos: são acolhidos e incluídos porque são pobres.

Do modo como reavivamos a chama da brasa, também tratamos uma pessoa enfraquecida, doente: com delicadeza. Não como truque para convencer, mas como gesto de amor desinteressado, amor por amor. Jesus foi mestre de delicadeza, humildade, bondade e seu poder curativo se manifesta primeiro no toque, no afago. Não intimida. Lembremos sua atitude diante da mulher adúltera que os escribas e fariseus lhe apresentaram para o apedrejamento, conforme mandava a Lei (João 8, 1-11). Jesus tinha diante de si uma mulher humilhada, fragilizada, destruída, e evitou olhá-la nos olhos, para não envergonhá-la, intimidá-la. Inclinou-se e começou a escrever no chão. Quando todos se retiraram, assumindo que não tinham condições de atirar a primeira pedra, ele se ergueu e, manifestando cumplicidade, perguntou-lhe não o erro cometido, mas sim: “Onde estão eles? ninguém te condenou?”. E seguiu a palavra decisiva, regeneradora: “Eu também não te condeno. Vai, e de agora em diante não peques mais”. O caniço reviveu, a chama transformou-se em fogo. Jesus assumiu o rosto da mulher para que o rosto da mulher se tornasse o rosto dele.

O perdão é a palavra que queremos escutar e que os outros querem também ouvir de nós. Somente assim se descortina o horizonte da vida, dos passos a serem dados. E teremos a certeza de que “se os santos têm um passado, os pecadores têm um futuro” quando lhes apresentamos o Pai das misericórdias.

Pe. José Artulino Besen

  1. #1 por ALUIZIO,BRAND em 11 de novembro de 2013 - 22:19

    Bela lição para refltir, quando o faminto q pede pão, sem ter dinhiro, não e justo que 1° queremos q ele faça um trabalho pra poder receber um pedaço de pão, ora ja esta famimito e sem forças de que maneira podera faser este trabalho, sejamos humildesmatamos a fome deste faminto para q tenha forças para se erguer e voltar aser util sem humilhar, somos egoistas e com muita falta de amor e carinhocom os necessitados

  2. #2 por Alexandre Borges em 12 de novembro de 2013 - 08:25

    Caro amigo, obrigado pelo texto. O Deus que construo dentro de mim também tende ser assim. Se eu pudesse explicar com palavras o que creio a respeito dele teria escrito o que você escreveu.
    Permita-me citar novamente o que me tocou:
    Um deus assim cruel não é o Deus revelado por Jesus. Não existe: somos ateus achando-nos grandes devotos.

    Nós também somos pobres e necessitamos de quem opte por nos acolher, salvar.

    Jesus assumiu o rosto da mulher para que o rosto da mulher se tornasse o rosto dele.

    O perdão é a palavra que queremos escutar e que os outros querem também ouvir de nós.

    Fique com o Pai!
    Abraço,

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