VENHA E VEJA – O DISCIPULADO

«Ser discípulo» (G. Cordiano)

«Ser discípulo» (G. Cordiano)

Confessa o profeta Isaías, em sua intimidade com o Senhor: «De noite meu coração te deseja, de manhã ansioso te procuro, Senhor» (Is 26,9). É o suspiro do amante que, ao anoitecer, deseja a presença amada e, ao amanhecer, continua a procura, com ânsia, e até com receio de não encontrar. O Antigo Testamento é rico na linguagem do amor esponsal entre o homem e a mulher aplicado ao nosso amor por Deus: de um lado, Deus sente as vísceras se revolverem ao pensar em nós, e nós corremos ao seu encontro, um encontro que não se realiza e que aumenta ainda mais o desejo dele por nós e nosso por ele. A inclusão do Cântico dos Cânticos entre os livros inspirados é o sinal mais belo de que o amor divino e humano vivido em plenitude gera a experiência mística dos santos.

É a presença do amor-amigo que nos faz discípulos com os ouvidos abertos, à espreita de alguma palavra que indique a presença, e é nossa procura atenta que torna possível o amigo falar, no silêncio. Comprova-se a verdade do poema de F. Thomson: «Eu sou aquele a quem tu procuras, e foges de mim enquanto me procurares».

O encontro se dá no silêncio. Jesus não nos chamou para sermos agitadores, fazedores de coisas, eficientes, mas para sermos seus amigos. Os barulhos do dia-a-dia impedem-nos de ouvir, e somente a noite dos sentidos, dos desejos humanos, do desapego, da abertura do coração leva nosso coração à procura do Senhor que nos procura.

Seguir a Jesus Mestre – ser Discípulo

A iniciativa de buscá-lo é de Jesus, que nos busca sempre, até descobrirmos que fomos seduzidos, não por uma promessa, honraria, sucesso, mas por uma pessoa. Olhando nossa vida, os passos a serem dados, não desanimamos, porque temos diante de nós o olhar amoroso do Senhor, e as dificuldades nunca serão tão grandes a ponto de nos desviarem da face que buscamos contemplar.

O olhar fixo em Jesus nos ajuda a superar os tropeços no caminho da fé que se concretiza na caridade. Colocamos o Senhor à frente, e desse modo, as dificuldades não enfraquecem nosso ânimo porque, tudo, é por causa de Jesus e o caminho será na normalidade e na perseverança da vida cristã.

Buscamos o Mestre porque ele nos chamou, despertou nossas energias vitais, mas, chamou-nos através de outras pessoas: ninguém encontra Jesus sozinho, alguém nos encaminhou na fé (cf. Jo 1, 35-39). Houve, ao nosso lado, alguém que, como João Batista, nos indicou: «Eis o Cordeiro de Deus». Quem nos indicou já o descobriu e com ele passamos a buscar o Senhor na comunhão, na Igreja. É sinal de gratidão recordar as pessoas que nos encaminharam a Jesus no caminho da fé, os nossos João Batista.

Para cada um que busca o Senhor, se repetirá o mesmo diálogo: «o que procurais?», pergunta Jesus ao perceber nossa busca, e logo respondemos tocados no coração: «Jesus, onde moras?». Nesse momento a resposta do Senhor no introduz no grande caminho: «Venham e vejam». Convida a caminhar com ele, a peregrinar, a ingressar em seu convívio, entre seus amigos. O «venham e vejam» mostra como ele vive, e onde vive e, perseverando sempre, nossa figura humana se transforma em imagem divina e nossa vida, em diálogo contínuo com a vida de Jesus.

Para nossa surpresa, Jesus não nos diz o que fazer – pois basta contemplá-lo, mas como viver. Ele é nosso evangelho e nós passamos a ser evangelhos vivos na história do mundo. Nas horas de dúvida, cansaço, o Espírito Santo dirá palavras de conforto, será força em nossa fraqueza, segundo a promessa do Mestre.

A vida do discípulo se faz no caminho

Jesus alimentava sua intimidade com o Pai retirando-se para o silêncio da oração. As multidões o procuravam, mas, à tarde ou à noite, ele sentia a necessidade do silêncio para conversar com o Pai.

Ser discípulo de Jesus é cultivar a oração pessoal. O trabalho não aplaca a sede de Deus, pois ansiamos pelo encontro com o Deus vivo que não se dá no barulho, mas necessita do silêncio onde se escuta e se fala, onde é possível a contemplação. Os grandes evangelizadores e agentes de transformação cristã foram também místicos como Moisés, Abraão, os Profetas e os Santos que passaram pela experiência do deserto. Movidos ao trabalho pelo amor que não se apaga, alimentam-no no encontro possibilitado na profundidade da oração.

As decisões de Jesus foram tomadas após uma noite de oração. Antes de querer apóstolos, ele quis ter discípulos, antes de enviá-los ao anúncio do Reino, conviveu com eles. Com a melhor das intenções, tantas vezes somos apóstolos dedicados, mas não somos discípulos. Somos impelidos pelo ardor apostólico, mas nosso rosto não mostra ainda o rosto de Jesus, porque não demos tempo ao discipulado. Criamos comunidades ativas e que depois nem sabem o por quê da própria existência. Privamo-las de conhecerem a Jesus e de conhecerem o Pai.

O caminho nunca termina. A peregrinação não tem fim, o importante é o caminho onde Deus está, o importante é caminhar. Necessitamos do retorno diário ao primeiro encontro com Jesus, ao primeiro chamado. Seguiremos com ele pelo caminho, ouvindo as Escrituras, entendendo-as porque ele nos explica, e nosso coração arderá como o dos discípulos de Emaús. E firmaremos nossos passos na casa de Jesus e ouviremos a resposta, após uma vida toda a perguntar: «Onde moras?» E escutaremos com o coração palpitando: «Minha casa é o Pai».

Pe. José Artulino Besen

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