SANTA TERESA DE ÁVILA OU SÓ DEUS BASTA

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Santa Teresa de Jesus aos 61 anos – retrato por Fray Juan de la Miseria tendo-a diante de si.

Teresa de Cepeda d’Ávila y Ahumada, nascida na espanhola Ávila em 1515 entrou na história porque seu avô comprou esses belos sobrenomes. Por que? Era um Sanchez, de origem judia, o que significava, pelas leis da Espanha e da Igreja, que Teresa não poderia ser religiosa. Felizmente, a astúcia do velho “purificou” o sangue, e temos a grande Teresa, padroeira dos escritores de língua espanhola. Alguns de seus livros, como O Livro da Vida; Castelo Interior ou Moradas; O Caminho da Perfeição (1577 – síntese plena de sua doutrina); As Relações (sobre sua experiência mística); As Fundações, relatando sua obra reformadora; Pensamentos sobre o Amor de Deus se incluem nos mais belos retratos da experiência mística cristã.

Teresa era uma menina empolgada com o heroísmo. Querendo ser mártir, aos 7 anos de idade fugiu de casa “para morrer entre os mouros”, ela e o irmãozinho Rodrigo. Um tio os descobriu e devolveu-os aos pais. Tinham mais o que fazer.

Sentindo ser chamada à vida consagrada, ingressou no Carmelo de Ávila em 1533, professando no ano seguinte, aos 19 anos. Teresa, porém, sentiu que o Carmelo não vivia fielmente o espírito carmelita: muita conversa, muita vaidade e, o pior, muita visita de familiares e moços bonitos da cidade. Ela queria mais e teve início seu caminho de conversão. Teve a imerecida graça de ter encontrado grandes diretores espirituais, do porte de São Francisco de Borja, São Pedro de Alcântara e São Luiz de Beltrão, além de outros teólogos. Muitos anos depois, Teresa afirmou: “Ai daquele que pretender seguir sozinho um caminho espiritual”. O demônio é sempre muito esperto e convence o ingênuo de que é, de fato, um grande sábio, afogado em dons espirituais. Teresa, com seu bom humor, acrescentou: “confundem arroubamento com abobamento”. Papa Francisco diria que “não é preciso viver a fé cristã aos gritos e gemidos”…

A reforma da vida carmelitana

Após 21 anos de vida carmelita, apoiada por seus diretores espirituais, em 1555 iniciou a reforma da vida carmelitana e, em 1561, sua aventura de retorno à estrita observância. Em 24 de agosto de 1562 fundou, em Ávila, o Carmelo de São José da Ordem das Carmelitas Descalças: ela e quatro noviças assumiram o compromisso de austeridade, pobreza e clausura na obediência e na castidade. Teresa queria que cada carmelita fosse introduzida na pedagogia da oração, tivesse a condição para um caminho de encontro e intimidade sempre mais profundos com Deus. Para Teresa, cada Carmelo deve ser como um jardim onde se vive a amizade com as irmãs e com o Senhor. Crescer na amizade para ela significava penetrar na riqueza da oração que é “uma conversa de amigos”.

Na sua perspicácia humana e psicológica, Teresa sabia que um convento imenso, cheio, não possibilitaria a amizade, donde ter decidido que o ideal é 12 irmãs, no máximo 14, por carmelo. Dali em diante Teresa percorreu as cidades vizinhas fundando novos carmelos : fundou 16 ao todo. E, é claro, teve de enfrentar a oposição dos antigos carmelos e carmelitas, dos nobres que gostavam de freqüentar carmelos e, o mais pesado: a sagrada Inquisição espanhola.

Acusada injustamente, difamada, teve escritos censurados, sua “Minha Vida” foi destruída. Para os inquisidores não era bom sinal uma mulher andar por aí fundando obras religiosas, especialmente falando de vida mística, pois achavam que mística feminina era sinônimo de neurose. O Núncio na Espanha definiu Teresa como “mulher inquieta e andarilha”. Querendo diminuí-la, acertou: ela, de fato, era inquieta em seu grito reformador: “Todos los que militais debajo de esta bandera ya no durmais… pues que no hay paz en la tierra”. Não era uma neurótica, aventureira, insubmissa. Quando pediram, muitos anos depois, uma autodefinição, Teresa foi direta: “Sou filha da Igreja e eternamente cantarei as misericórdias do Senhor”. Nada mais.

Teresa não estava nem aí com as perseguições e com os sofrimentos físicos: continuou seu trabalho, seu caminho espiritual. As andanças, procura de dinheiro para novas fundações, oposições não lhe tiravam a paz interior. Nela o amor de Deus era tão sensível e forte, portador de tanta felicidade que sofrer um pouco era até necessário. Creio que ela poderia rezar como São Francisco Xavier: “Basta, Senhor, de tanta felicidade, pois acabarei explodindo!”.

No meio do caminho, aconteceu um grande encontro: em 1567 estava em Medina para fundar novo convento das Descalças e participou da Primeira Missa de um jovem carmelita de 25 anos: João da Cruz. Impressionada, convidou-o a reformar também o ramo masculino do Carmelo. E assim aconteceu, e o jovem passou pelas mesmas tribulações, ainda piores: por sete meses esteve preso nas masmorras da Inquisição, uma prisão cuja finalidade era enlouquecê-lo numa sala subterrânea em completa escuridão. João resistiu, deu um jeito de fugir e escreveu em seguida um grande hino de alegria, o Cântico Espiritual. Estava melhor do que antes.

Teresa e João alimentaram belíssima amizade, a ponto de as irmãs acharem um despropósito sua experiente Madre Superiora aconselhar-se com um “gurizote”. A diferença de idade era de 27 anos e Teresa, madura nos seus 52 anos chamava-o de “Meu Mestre”, “Pai de minha alma” a um jovem de menos de 30.

Teresa, Mestra da oração

Santa Teresa de Jesus, a andarilha - Fernando Mayoral

Santa Teresa de Jesus, a andarilha – Fernando Mayoral

Há um consenso em afirmar que Santa Teresa foi a mais profunda pedagoga da oração na Igreja católica. Com sua perspicácia psicológica, capacidade pedagógica ensinou-nos a centralizar a vida de fé na oração, fazer da oração o caminho da amizade com Deus e, nesse caminho, prevenir contra vaidades, desvios e neuroses.

A palavra “amizade” é fundamental nesse método. Pedro aceitou olhar-se com o olhar de Jesus, e se arrependeu. Judas não o fez, e se matou. Não podemos achar que Deus nos procura por sermos bons: Deus nos procura exatamente em nossa fraqueza. Deus quer que lhe ofereçamos o que temos, nossa miséria e ele entra sempre com a misericórdia. Não são nossos pecados que impedem a graça divina, a não ser que não queiramos nos abrir ao diálogo.

No caminho espiritual, Teresa nos admoesta quanto ao perigo de cairmos na psicologia da tentação: – não rezo porque não tenho tempo, estou ocupado em ensinar os outros a rezarem; não rezo porque estou doente; autojustificação: sei que devo fazer, mas minha situação é especial. Para Teresa, são esses os pecados: resistência ao amor de Deus; risco de perder a Deus pela tepidez cínica, fazer tudo mais ou menos; áurea mediocridade (faço assim porque todos fazem – così fan tutti), para que ser diferente?

O realismo teresiano: se já começaste a rezar, não pares. Se ainda não começaste, começa. Ninguém tomou a Deus por amigo e se arrependeu. A oração é um “tratar de amistad”: relacionar-se com Deus como amigo. É o conceito central na pedagogia da oração teresiana: o fundamental não é saber rezar, mas ser amigo, pois a oração é a porta da relação personalizada com Deus. Deus é amigo: a oração é um diálogo de amizade. Temos medo de rezar porque temos medo de mudar a vida. Se rezamos, Deus vem e o amor nos arrasta.

Encarnação e Igreja

A amizade supõe a paridade de parceiros: ou já estão, ou estarão em igualdade de condições. Em nossa pobre condição humana, não temos condições de ser amigos de Deus. Para que a oração seja possível, Teresa afirma a necessidade da Encarnação: assumindo a natureza humana, Deus está em pé de igualdade conosco. No instante da comunhão com Deus, último estágio da oração, a união é tão plena que Deus e o homem são uma só realidade, cada um conservando suas propriedades.

E mais, Teresa ensina que não há oração verdadeira sem vida eclesial: quando rezamos, nossa oração se enche de pessoas. Não são pessoas que nos distraem, mas que rezam conosco ou precisam de nossa oração. Pe. Paulo Bratti (+1982) nos falava de “solidão povoada”.

Quanto mais se ama a Deus, mais se sente a falta da presença dos amigos de Deus, isto é, a oração leva à comunidade. E então, sua afirmação “Deixar a Deus por Deus” que significa deixar a oração para o serviço do próximo. A oração não é legítima se não leva ao amor do próximo.

Santa Teresa de Jesus de Ávila foi chamada por Deus aos 67 anos, em 4 de outubro de 1582. Aconteceu que nesse dia passou a vigorar o calendário gregoriano que suprimiu 10 dias: desse modo a grande Mestra espiritual é celebrada em 15 de outubro. Seu mestre a amigo, São João da Cruz, patrono dos poetas espanhóis, faleceu nove anos depois, aos 49 anos, em 14 de dezembro de 1591. Recebem o título de Doutores da Igreja.

Pe. José Artulino Besen

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