SÃO FRANCISCO DE ASSIS, A MAIS PERFEITA CRIATURA

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Francisco de Assis – verdadeira imagem do Santo, pintada por Cimabue.

Há 800 anos Francisco impele o Cristianismo a retornar às fontes: ao Jesus em Belém e a Jesus no Calvário. E deixou-nos, para lembrança contínua, o Presépio e a Via-sacra.

Sua herança não é uma doutrina, mas um espírito, um jeito de ser. A melhor palavra que expressa a mensagem vital de Francisco foi dada pelo primeiro biógrafo, Tomás de Celano: “Francisco foi enviado por Deus num momento em que a doutrina evangélica estava quase esquecida por toda a parte, para mostrar a loucura da sabedoria humana e, com a sua loucura, reconduzir os homens à sabedoria de Deus”.

Este jovem filho de dona Pica e do negociante Pedro Bernardone, nascido em Assis em 1182, irradiava o seu ser filho de Deus. Isso formou seu caráter até o íntimo, mediante a liberdade do cristão, que não é dono de todas as coisas e sim servidor e irmão de tudo, também dos animais, das plantas, das rochas, da água, do sol e da lua. Suas atitudes mostram uma face comovente de sua personalidade e vida, a ponto de parecer incompreensível que quisesse ser um doido neste e por este mundo, pois compreendeu que não pode existir um Cristianismo que ao mesmo tempo não seja um escândalo.

Ele é um milagre: não existiu na história cristã – nem em toda a história humana – uma personalidade cuja rica vida espiritual seja construída até o último sobre uma experiência pessoal de tal modo interior. Nunca existiu tal gênio humano em que, em sequer um instante ou setor, o “eu” tenha prevalecido sobre o puro serviço.

Era dotado de enorme bom senso, sabedoria e bom humor. Era um homem livre, e isso desde a juventude. Não era de convenções. Era tão livre que podia se dar ao direito de ser criança, falar com os passarinhos, com o fogo, tomar atitudes que pareciam tolice, mas eram fruto dessa liberdade interior que se irradiava pelo exterior.

As conversões de Francisco

Criado numa família rica, cercado de amigos bem de vida, Francisco deixou-se consumir pela vaidade, pelas farras, jogos, serenatas, danças, músicas. Era de simpatia e generosidade incomuns. Devido a seu estilo original de viver, estava sempre cercado de amigos ou aproveitadores.

Todo jovem medieval sonhava em ser cavaleiro, cortejado pelas moças que suspiravam ao vê-lo retornar do campo de batalha. Em 1204, com armadura cara e um vistoso uniforme pôs-se a caminho para um combate mas, a caminho, ao avistar um cavaleiro muito mal vestido, reduzido à pobreza; compadeceu-se dele e com ele trocou as vestes. Em Espoleto caiu doente e, acamado, ouviu uma voz pedindo que retornasse, pois seu caminho era “servir ao seu Mestre, e não ao homem”.

Francisco obedeceu e retornou ao lar. Estava mudado. Começou a apreciar o silêncio e gostava de se retirar para lugares afastados a fim de pensar, meditar, rezar, conversar com Deus. Com dor no coração, passou a analisar sua vida passada, a vaidade, o pecado. Depois foi tocado pela misericórdia divina e teve a certeza do perdão. Uma alegria imensa tomou conta de seus sentimentos. Queria se controlar, para que ninguém percebesse a felicidade, mas não conseguia. Feliz, cantava e dançava pelas ruas de Assis.

Certo dia, ao cavalgar pelas planícies ao redor de Assis, deparou-se com um doente, cujas úlceras lhe pareceram tão repugnantes, que ficou horrorizado. Tinha verdadeiro horror pelos leprosos. Mas desceu do animal, e quando o doente lhe estendeu a mão para pedir uma esmola, Francisco, ao apresentá-la, beijou-lhe a mão. A partir dali, passou a visitar os hospitais e a servir os doentes, distribuindo entre os pobres ora as vestes, ora o dinheiro.

Em 1205, enquanto estava rezando na igreja de São Damião, fora dos muros de Assis, pareceu-lhe ouvir uma voz vinda de um crucifixo pendurado atrás do altar. A voz lhe falou três vezes seguidas: “Francisco, vai e reconstrói a minha casa que, como vês, está ruindo”. Olhando o estado lastimável da capela, pensou que a voz pedisse uma restauração material.

Entra em cena o pai, em 1206. Ficou furioso por ele estar gastando tudo com os pobres. Foi atrás dele, deu-lhe uns socos na cabeça e exigiu: ou voltasse para casa, ou renunciasse à herança e devolvesse o dinheiro. Quanto à herança, Francisco concordou logo. Quanto ao dinheiro, Pedro Bernardone levou-o à presença de Guido II, bispo de  Assis, para convencê-lo a devolver o dinheiro. Francisco obedeceu e acrescentou: “Pai, minhas roupas também lhe pertencem. Pegue-as de volta”. Ato contínuo, para susto de todos os presentes, despojou-se das vestes, ficando completamente nu, e disse a Bernardone: “Pai, até agora o tenho chamado de meu pai aqui na terra, mas doravante direi: ‘Pai nosso que estais no céu’. Renuncio a ser seu filho”. O bispo cobriu-o com seu manto.

Passou a primavera deste ano em Gúbio, cuidando dos leprosos e outros doentes. Em julho, voltou a Assis. Vestiu-se de eremita (uma túnica, cinto, sandálias e um cajado) e começou a reconstrução da capela de São Damião. Para isso, saiu pelas ruas de Assis pedindo esmolas. Aqueles que o tinham conhecido como pessoa rica, dele zombavam e mostravam-lhe total desprezo, mas Francisco tudo aceitava com alegria.

Anunciador do Evangelho

Em 24 de fevereiro (entre 1206 e 1208), festa de São Matias, ouviu o Evangelho sobre a missão apostólica (Mt 10, 7-19): “E por onde passardes, pregai: Está próximo o Reino dos Céus… Dai gratuitamente o que de graça recebestes… Não busqueis ouro… não carregueis duas túnicas, nem sandálias, nem cajado… Vede que eu vos envio como ovelhas no meio de lobos”. Francisco entendeu que Jesus o queria como pregador ambulante, e não como eremita. Tinha tomado a decisão de viver o Evangelho sem comentários e aplicou o texto a si próprio, ao pé da letra: dispensou as sandálias, o cajado e o cinto, ficando apenas com uma pobre túnica que ele amarrou com uma corda em torno do corpo.

A personalidade cativante de Francisco, a força de suas palavras e o testemunho de vida, passaram a atrair jovens que pediam para serem companheiros e discípulos. Em 1208, recebeu a companhia do rico mercador Bernardo de Quintavalle e de Pedro Cattani. Tomaram a decisão de viver a essência do Cristianismo e pregar a penitência. O número cresceu e seus Frades andaram por vários países e Francisco chegou ao Egito.

Gostava de ver as igrejas limpas e varridas. Muitas vezes levava uma vassoura consigo, para esse serviço. Quando passavam diante de uma igreja ou dum crucifixo, ou mesmo avistando de longe uma torre, se ajoelhavam e recitavam a pequena oração que Francisco lhes ensinara: “Nós vos adoramos e bendizemos, Senhor Jesus Cristo, presente aqui e em todas as igrejas do mundo”.

A finalidade concreta que Francisco deu à sua Ordem não era o mendigar, e sim a pregação e o trabalho. O pedir esmolas era apenas o último recurso, quando faltava trabalho. Defendia os pobres: “Quando vês um pobre, irmão, é a imagem do Senhor e de sua pobre Mãe que tens diante dos olhos!”.

Francisco, o adorador do Pai Criador

A piedade de Francisco era, sobretudo, adoração. Por horas e horas, de dia ou de noite, seus lábios pronunciavam “Meu Deus e meu tudo!” Quando rezava, toda a sua pessoa era oração. Foi contemplando a Cristo despojado de suas vestes e crucificado, e novamente crucificado na pessoa dos pobres sofredores, que Francisco chegou a amar a pobreza como sua Senhora.

Seu amor por todas as criaturas, seu carinho pelos animais, pelas aves, por todos os elementos da natureza, fizeram dele o patrono da ecologia. Uma ecologia não teórica, mas de louvor, de respeito pela obra do Criador. Francisco afirmava que toda criatura diz e clama: “Foi Deus que me criou por causa de ti, ó homem”. Acariciava e contemplava com afeto a todas as criaturas. Todas existiam para lembrar ao homem de louvar o Criador. É difícil imaginar Francisco dentro de uma igreja: é fácil imaginá-lo na grande catedral que é o universo.

São Francisco abraça o Leproso

A espiritualidade de Francisco torna-se acessível a todos

Vendo aumentar desse modo o número de companheiros, em 1209 Francisco escreveu breve Regra de vida para a Ordem, e vai a Roma com os 11 irmãos. Causava impressão aqueles frades pobres, esfarrapados, brincalhões, descalços se dirigirem ao Papa. Inocêncio III estava sentado em seu trono, e os 11 frades mal vestidos e sorridentes o contemplavam como crianças maravilhadas: estavam diante do Papa!. Francisco explicou-lhe seu programa. Depois de ouvi-lo, o Papa  concedeu aprovação à Regra, mas só oralmente

Pelo ano de 1209, Francisco e seus irmãos estavam pregando em Alviano. Ali, como em outros lugares, tinha percebido que sacerdotes seculares, homens casados, profissionais, militares, queriam viver o Evangelho como os frades viviam, mas sem deixar suas ocupações. Para impedir que deixassem o mundo, Francisco indicou-lhes um caminho. Surgia uma revolucionária espiritualidade evangélica penetrando em todas as esferas do mundo medieval, também nos altos escalões da hierarquia. Primeiramente chamada de Ordem dos Irmãos e das Irmãs da Penitência, depois recebeu o nome de Ordem Terceira Secular. Assumiam estes compromissos: fazer a paz com os inimigos, não carregar armas, restituir riquezas mal adquiridas, pagar os dízimos, escrever um testamento que não trouxesse confusão entre os herdeiros, evitar juramentos e não aceitar honras públicas. Com Clara, fundou a Segunda Ordem, das Clarissas.

Nos últimos tempos a Irmã Dor o visitou e deixou-o desfigurado: ferida purulenta nos olhos, inchaço no fígado e nas pernas. O Pobrezinho era o retrato de Jesus e dele recebeu os estigmas da Paixão em 1224 e assim sofreu junto com ele.

Com a proximidade da morte, pediu que o deitassem nu, no chão, unido à irmã Terra. Depois aceitou emprestado o hábito que o guardião lhe dá. Agradeceu mais esta esmola.

Francisco pediu que lhe trouxessem um pão, partiu-o e deu um pedaço a cada um dos presentes, em sinal de amor mútuo e de paz, dizendo: “Eu fiz a minha parte. Que Cristo vos ensine a fazer a vossa”. Fez ler o Evangelho da Última Ceia e abençoou os filhos seus, presentes e futuros.

Na tarde de 3 de outubro de 1226, o mundo perdia seu filho mais original, mais santo. Francisco morreu, morreu cantando. Conforme o historiador David Knowles, por sua obra, Francisco fez mais do que qualquer outra pessoa para salvar da decadência e da revolução a Igreja dos tempos medievais. Em 13 de março de 2013 um Papa escolhe o nome de Francisco, e aceita a missão de tornar a Igreja pobre para ser livre, partindo sempre das periferias e dos pobres.

Pe. José Artulino Besen

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