MADRE TERESA DE CALCUTÁ E O SILÊNCIO DE DEUS

Madre Teresa de Calcutá - bico de pena de Dylan Gill

Madre Teresa de Calcutá – bico de pena de Dylan Gill

Madre Teresa de Calcutá (1910-1999) é incluída no número das pessoas prediletas de Deus, por ele muito amadas e provadas nos gestos de amor. Quanto mais o Senhor a provava nos caminhos de Calcutá, mais Teresa o procurava e amava, e mais o Senhor se escondia.

Nascida na Albânia, preparou-se para a vida religiosa e missionária na Irlanda, dedicou-se ao magistério em Calcutá, na Índia e, numa viagem de trem para participar de um retiro, o Senhor lhe apareceu e confidenciou amorosamente: “Teresa, tenho um pedido a lhe fazer: deixe tudo, o convento, a congregação religiosa, e mergulhe nas ruas, no meio dos pobres”, como a prometer: “verás como eu amo quem me ama”.

Teresa aceitou o convite: deixou tudo e, com uma muda do sári, traje das mulheres indianas e uma maleta, perdeu-se nas ruas de Calcutá no meio da multidão de pobres. Naquele 16 de agosto de 1948, quando as portas do convento se fecharam às suas costas, estavam encerradas todas as suas seguranças humanas, agora sozinha com os pobres.

E teve início sua aventura espiritual: o Senhor escondeu-se dela. Quanto mais o procurava menos ouvia sua voz. Quanto mais o amava, mais profunda era sua procura por aquele que a seduzira e continuava os jogos de sedução. Mais gritava por ele e mais silenciosa era a música que a atraía tanto: a viver a experiência de “um bloco de gelo”, abandonada em uma “terrível escuridão”, na “aridez espiritual”, no meio das “torturas da solidão”, maior ainda era seu amor pelos pobres, abandonados, os malditos das ruas indianas.

Crescia seu amor pelos pobres, nesse amor mostrando a seu Amado o quanto o amava. Mas, nada, nada além da escuridão interior: “Jesus tem um amor muito especial por mim. Mas, para mim o silêncio e o vazio é tão imenso que o procuro e não o acho, procuro escutá-lo, mas não o ouço”.

Algumas jovens, depois dezenas, centenas, ingressam no mesmo caminho de consagração, seu nome se espalha pela Índia, pela Ásia, pela Europa, por onde andam os pobres é escutada a voz de Madre Teresa e ela, pobrezinha, não escuta mais a voz daquele por cujo amor faz tudo: “na minha alma experimento o terrível sofrimento da ausência de Deus, experimento que Deus não me quer mais, que Deus não seja Deus, que, na verdade, Deus na verdade não existe”.

Recebida pelos Papas, reis e chefes de Estado, por multidões que lotam estádios para contemplá-la e ouvi-la, em 1979 recebe o Prêmio Nobel da Paz e, ao chegar a Estocolmo, do aeroporto segue direto para as ruas em busca de pobres. No seu coração, porém, escreve: “Quero amar Jesus como nunca foi amado por ninguém até agora”, ou “se me tornar uma santa, seguramente serei a santa da escuridão. Continuarei a estar ausente do Paraíso, para iluminar aqueles que na terra estão na escuridão. Quero sofrer por toda a eternidade, se for possível”.

Essa mulher de 1,58m, frágil, magérrima era o símbolo da própria fortaleza. Sentindo sua fragilidade e o vasto mundo de seus pobres, fundou duas congregações religiosas, as Missionárias e os Missionários da Caridade para o trabalho ativo, fundou uma congregação de monjas contemplativas, fundou a associação dos doentes terminais, dos deficientes, dos sofredores que ofereciam suas vidas pelos que trabalhavam junto aos pobres e miseráveis. Era a Madre vitoriosa, arrebanhando seguidores, alimentando milhões de conversões em defesa da vida, da justiça. O sorriso marcava cada músculo de sua face. Ela, porém, escreveu: “O sorriso é uma máscara, um manto que cobre o resto. Falei como se meu coração fosse enamorado de Jesus, um amor terno, pessoal; mas se o senhor (o padre diretor espiritual) tivesse estado aqui, teria dito: que hipocrisia!”. “Há uma escuridão terrível em mim, como se tudo estivesse morto. E assim é praticamente desde que iniciei o meu trabalho”; “estou no túnel…”; “murmuro as orações da Comunidade e me esforço para arrancar de cada palavra a doçura que ela deve oferecer, mas a minha oração de união não existe mais”. “Diga-me, padre, porque existe tanto castigo e tanta escuridão em meu coração?”; “quando busco elevar meu pensamento ao céu, o vazio é de tal modo terrível que aqueles mesmos pensamentos retornam como punhais afiados e ferem a minha alma. Diz-se que Deus me ama; e, contudo, a realidade da escuridão, e do frio e do vazio, é tamanha que nada toca minha alma. Teria cometido um erro ao entregar-me tão cegamente à Chamada do Sagrado Coração?”.

Deus prova porque é provado

Pobrezinha de Madre Teresa! Experimento a dúvida: será que sua saída do convento ao ouvir a voz do Senhor não passara de alucinação? Eram 10 anos sem ele, sem o Amor. Num dia teve coragem e pediu um sinal de confirmação do Chamado. Em outubro de 1958, por ocasião dos funerais do papa Pio XII, Jesus se aproximou dela e, durante um mês encheu-a de luz, de felicidade. Teresa vivia o céu. Mas, Jesus foi embora e não voltou mais: os próximos 41 anos serão vividos na “Noite escura”, no frio das mais espessas trevas, sentindo como seu o grito de Jesus na cruz, abandonado pelo Pai: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”.

Sozinha encontrará a resposta: “Consegui amar a escuridão – pois agora creio que seja uma parte, uma parte mínima, da escuridão e do sofrimento de Jesus na terra… Hoje sinto de fato uma alegria profunda – que Jesus não pode sofrer mais além de sua agonia – mas que quer sofrê-la através de mim”.

Teresa descobriu Jesus em cada pobre de Calcutá, seres humanos que viviam as trevas mais profundas da fome, do abandono, do anonimato, nascendo, crescendo e morrendo em plena rua, nus, como animais, e cujos corpos  a prefeitura recolhia pelas madrugadas. Jesus era cada deles, alguns cujo único sinal de amor era sentido quando Madre Teresa e suas irmãs tocavam-lhes carinhosamente o rosto e em seguida morriam, amados.

A noite escura de Madre Teresa é a noite escura dos pobres. Ela aceitara amar totalmente a Jesus, viver a solidão de Deus no mundo que o ignora na única forma possível de contemplá-lo: no rosto de uma pessoa, no “Deus escondido” que se revela.

Quando Deus a visitou em 5 de setembro de 1999 e encerrou sua vida terrena, seus restos mortais tiveram funeral de Estado: os grandes e os humildes da terra foram a Calcutá venerar seus restos mortais. Lá, num simples túmulo branco, foi gravada sua vida, que foi a vida de Jesus: “Amai-vos uns aos outros como eu vos tenho amado” (João 15,12).

Sua beatificação ocorreu em 2003 e sua memória litúrgica foi fixada no dia de sua ressurreição: 5 de setembro.

Pe. José Artulino Besen

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  1. #1 por Alexandre Borges em 2 de setembro de 2013 - 21:41

    Caro Pe. José! Como estás? Estou lendo o diário de Madre Tereza. Um relato místico de tirar o fôlego. Uma alma corajosa e de uma vontade firme. Alguém que seguiu a Deus na escuridão dos sentidos, animada pela força da fé e do amor. Adquiri o livro ainda em Roma, mas só agora tirei tempo para ler.Quero ainda lhe pedir uma indicação. Estou relendo os escritos dos santos Padres (livros que tenho comigo). Tem-me despertado o gosto e vontade de aprofundar essa leitura das nossas fontes. Tenho apenas comentários e antologias. O senhor conhece alguma coleção de patrística que me recomendaria? Grande abraço, espero que estejas bem! Na amizade em Cristo.

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