AGOSTINHO E MÔNICA, SANTOS DA ÁFRICA

SANTO AGOSTINHO E SANTA MÔNICA, SUA MÃE - Ary Scheffer (1855)

SANTO AGOSTINHO E SANTA MÔNICA, SUA MÃE – Ary Scheffer (1855)

Numa família fervorosamente católica do norte da África, em Tagaste, nasceu Mônica em 331. Casou-se com o pagão Patrício, funcionário público romano e pequeno proprietário. Mônica tinha 23 anos quando nasceu Agostinho em 13 de novembro de 354, seguido de Navígio e uma filha, de nome ignorado. Após empenho bem sucedido pela conversão do marido, ficou viúva aos 40 anos e dedicou-se inteiramente à educação dos filhos e ao serviço dos “servos de Deus”.

Maior dedicação exigiu Agostinho que, não sendo romano pela origem, pois era númida, pele escura e cabelo crespo, foi inteiramente romano pela língua latina e cultura. Estudou em Tagaste, Madaura e Cartago.

Mônica não conseguiu que pedisse o batismo. Irrequieto, aos 19 anos converteu-se ao amor da sabedoria. Queria a sabedoria, a verdade e, por influência de escritores, desiludiu-se com a Bíblia, que pedia o conhecimento pela fé. À época tinha muito prestígio o movimento maniqueu, pelo qual Agostinho se entusiasmou: sentiu nele a sabedoria buscada somente com a razão, sem a fé e, mesmo assim, os maniqueus se declaravam discípulos de Cristo e tinham resposta para o problema do mal. Mani ensinava o materialismo, o dualismo e o panteísmo. No dualismo, distinguia dois princípios, o do bem e o do mal, nesse incluindo a realidade material, que nada significava e assim podia livremente buscar os prazeres carnais. Em pouco tempo tornou-se feroz anticatólico: “Tornava-me cada vez mais miserável e Deus se aproximava cada vez mais de mim. Sua mão estava próxima, prestes a arrancar-me do pântano dos meus vícios e a lavar-me. Como Deus é excelso nas alturas e profundo nos abismos!”.

Ingressou Agostinho num caminho perigoso, dominado pela busca do prazer. Por diversos anos conviveu com uma mulher que lhe deu um filho, Adeodato, cuja morte na adolescência deixou-o devastado pela dor.

Acima de tudo, Agostinho era o homem da inteligência. Abriu escola de retórica em Tagaste, o que lhe significou pouco. Passou depois a Cartago e, em seguida, a Roma. Informado de que em Milão estavam pedindo um professor imperial, participou de concurso e acabou nomeado para aquela cidade, devendo parte de sua nomeação ao apoio maniqueu. Após 9 anos no maniqueísmo, porém, desiludiu-se com eles, por sua deficiência lógica, e passou a desconfiar da razão.

E assim, aos 32 anos estava em Milão, como professor imperial. Mesmo sem estar de acordo com o filho, Mônica e o irmão o acompanharam nessas viagens e cidades, desejando a conversão do filho à fé católica. Doía-lhe ver Agostinho inimigo da Igreja, dominado pelo orgulho da inteligência: “… enquanto minha mãe, vossa fiel serva, junto de vós chorava por mim, mais do que as outras mães choram sobre os cadáveres dos filhos”, escreveu.

E foi em Milão que iniciou o caminho de retorno. Estava desiludido com os intelectuais pagãos e continuava na busca da Verdade. Ouvindo falar de Ambrósio, foi escutá-lo e o bispo de Milão lhe revelou a noção espiritual da alma e de Deus, superando o materialismo e o dualismo. Reconheceu em Jesus o Mediador da Graça e o Redentor.

Era, agora, outro homem, transformado pela graça. Buscando sentido para a vida, decidiu abandonar qualquer aspiração terrena, inclusive o matrimônio, consagrando-se totalmente ao ideal cristão: “Quanto fel a misericórdia divina espalhou em meu prazer, para me reconduzir a ele!”, recordou mais tarde. Em agosto desse ano de 386 retirou-se para Cassicíaco com seu amigo Alípio e, em março seguinte, retornou a Milão, inscrevendo-se na catequese de Ambrósio.

Cada vez mais tranqüilo, demonstrou aceitação plena da fé católica e foi batizado na noite do Sábado santo de abril de 387: “Tarde te amei, ó beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei! Eis que estavas dentro e eu, fora. Estavas dentro de mim, e eu estava fora. Tocaste-me, e fiquei inflamado da paz que tu dás” (Confissões, Livro 10, 27).

Agostinho decidiu voltar à África com os seus, isto é, Mônica e o irmão Navígio, para lá viverem juntos a serviço do Senhor. Numa parada em Óstia, antes de embarcarem para a África, Mônica adoeceu. “Meu filho, nada mais me atrai nesta vida; não sei o que estou ainda fazendo aqui, nem por que estou ainda aqui. Já se acabou toda esperança terrena”, falou.  A motivação de Mônica era ver o filho católico, e isso alcançara após 18 anos de oração.

Alguns dias depois caiu de cama, com febre. Num êxtase foi-lhe dada a graça de contemplar a glória de Deus. Para dor de Agostinho e Navígio, ordenou: “Enterrareis aqui a vossa mãe”. Navígio desejava sepultá-la na pátria, mas Mônica insistiu: “Enterrai este corpo em qualquer lugar, e não vos preocupeis com ele. Faço-vos apenas um pedido: Lembrai-vos de mim no altar do Senhor, seja qual for o lugar em que estiverdes”. E mais: “Para Deus nada é longe, nem devo temer que no fim dos séculos ele não reconheça o lugar onde me ressuscitará”. A moléstia agravava-se e a fazia sofrer até que pelo nono dia de doença, aos 56 anos de idade, Deus a chamou. Seu corpo foi sepultado em Óstia.

Padre, bispo, teólogo, filósofo e santo

Agostinho retornou a Roma e em meados de 388 estava na África, em Tagaste. Ali, “com os que se haviam reunido junto a ele, vivia para Deus… e instruía os presentes e ausentes de viva voz e com livros”, escreveu Possídio, amigo e biógrafo.

Em 391 desceu para Hipona para “procurar um lugar onde fundar um mosteiro e viver com meus irmãos” e ali foi-lhe imposta a ordenação que depois aceitou, vendo nisso a vontade divina. Fundou um mosteiro e nele viveu como sacerdote e monge, no ascetismo e no estudo.

Por vontade do bispo Valério, exerceu o papel de pregador, no Norte africano reservado aos bispos. Em 395-396 foi consagrado bispo coadjutor de Valério e em 397 já era titular de Hipona. Deixou o mosteiro dos leigos, que será um seminário de sacerdotes e bispos de toda a África e, retirando-se para a Casa episcopal, transformou-a em mosteiro do clero de Hipona, que vivia com ele vida comunitária. Continuou a estudar as Escrituras e os Padres, pois ainda sentia-se despreparado.

Durante os 34 anos de episcopado (396-430) cresceu a atividade intelectual e pastoral. O ministério de um bispo era intenso sendo, ao mesmo tempo, bispo, conselheiro, juiz. Pregava duas vezes por semana – sábado e domingo – às vezes mais dias, e mais vezes no mesmo dia. Atendia no expediente o dia todo, cuidando dos pobres e órfãos, da formação do clero, organizava mosteiros femininos e masculinos, cuidava da administração dos bens eclesiásticos (“A riqueza e o comércio estão longe dos meus ineteresses”), visitava os enfermos e resolvia questões de justiça como brigas de cerca, muro, dívidas, brigas de família por herança: “A caridade é mais importante do que a lei”.

Participava da vida da Igreja africana nos sínodos e concílios e se preocupava com a unidade da Igreja universal nas controvérsias dogmáticas. Enfrentou o problema dos maniqueus, dos donatistas (negavam a validade dos sacramentos administrados por indignos) e do pelagianismo (negava a necessidade da graça). Enviou padres bem formados a toda a África para recuperar a unidade eclesial. Deixou 225 cartas e 113 livros, sendo os mais conhecidos os Sobre a Trindade, Confissões e A Cidade de Deus (“O amor do mundo gera Babilônia, o amor de Deus gera Jerusalém, a graça gera os cidadãos da Cidade de Deus”). A Regra monástica que escreveu para seus mosteiros, conhecida como Regra de Santo Agostinho, continua sendo a regra de vida que, ao lado da Regra de São Bento, é predominante na Igreja ocidental.

Aos 76 anos, morreu em Hipona em 28 de agosto de 430. Possídio relata que ele gastou seus últimos dias em oração e penitência, pedindo que os Salmos penitenciais de Davi fossem pendurados na parede para que pudesse lê-los.

Santo Agostinho foi filósofo, teólogo, místico, poeta, orador, polemista, escritor e pastor. Pela reflexão teológica e dogmática, Santo Agostinho recebe o título de doutor da Graça, acima de tudo por sua experiência pessoal: poucos na história cristã tiveram experiência tão profunda do poder do pecado e do poder da Graça. Um gênio cuja obra é a síntese de toda a sabedoria da Antigüidade e que marcou indelevelmente a Igreja ocidental, a ponto de não haver campo na vida cristã que não tenha recebido sua influência. É festejado em 28 de agosto e Mônica, no dia 27.

Pe. José Artulino Besen

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  1. #1 por Regina em 25 de agosto de 2013 - 09:29

    “Deus é excelso nas alturas e profundo nos abismos!”. DEUS é perfeito, e continua imperceptível para muitos de nós!! Essa recarga de ânimo reafirma o Pai de amor infinito e que jamais desiste do filho, o cercando de todos os cuidados.

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