NOSSO DEUS SE ABAIXA E NÃO NOS REBAIXA

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JOÃO ESCUTA O CORAÇÃO DE JESUS – Ruberval – OSB

Jesus tomou de tal maneira o último lugar que ninguém jamais pode tirá-lo de lá. Essa frase do Pe. Huvelin ficou gravada indelevelmente no coração de Charles de Foucauld e o levou a uma conversão progressiva, até o retiro final e martírio no deserto argelino de Tamanrasset.

A autêntica fé bíblica e cristã não pode se esquivar do verbo “abaixar-se”: a história da salvação tem início com Deus se abaixando para enviar Moisés e a história da nova aliança, com o Filho se abaixando e assumindo a condição humana. Deus se abaixa a fim de que não nos sintamos diminuídos, amedrontados frente à sua grandeza e onipotência.

No Antigo Testamento, encontramos melhor o Deus abaixado nas Teofanias (manifestações divinas), únicas no universo religioso: Deus vai ao encontro de Abraão nos três forasteiros, coisa que ele nunca esperava, pois o caminho seria encontrar Deus, mas é Deus que vai-lhe ao encontro, se abaixa (Gn 18, 1-15).

Nós esperamos que ele manifeste o seu poder, mas Deus nunca faz assim. Deste modo, para encontrarmos o Deus que se abaixa temos que também nos abaixar. No monte Horeb, Deus não se revela a Elias no terremoto, no fogo, mas na brisa suave. No profeta Isaías, temos a revelação de que Deus escolhe um resto de Israel, o escolhido é o Servo sofredor.

Quando o tempo estava maduro, a Palavra se fez Carne e habitou entre nós (Jo 1, 14).

Deus se faz homem, assume a condição humana. Jesus é um Deus abaixado que se abaixa mais ainda: ele se esvaziou, desceu até a morte (Fl 2, 5). Em seu Magnificat, Maria canta a bondade divina que a escolheu, a ela que se fez serva, para fazê-la Mãe dos povos.

O Centurião viu isso quando contemplou Jesus morto na cruz e proclamou: Tu és o Messias! (Mc 8, 29-31). Na extrema miséria contemplou a extrema glória.

 O ministério de Jesus, ministério de abaixamento

Jesus se abaixava, descia e somente desse modo encontrava o pobre que podia se erguer. Levanta-te, toma teu leito e anda, ordenou ao paralítico em Jerusalém (Jo 5, 1-9); Levanta-te e fica de pé no meio de todos, falou ao homem de mão atrofiada (Lc 6, 6-11). Ele desce até o leproso que lhe diz “se queres, podes me curar”; e Jesus, movido de compaixão, estende a mão e tocando-o, diz: Eu quero, sê purificado (Mt 8, 1-4). Se compadece do filho da viúva de Naim: Eu te ordeno, levanta-te! (Lc 7, 11-17). Olha o pecador Zaqueu e não o humilha: Zaqueu, desce depressa, pois hoje devo ficar em tua casa (Lc 19, 1-10. Gesto único, ele pede água à Samaritana: Dá-me de beber! (Jo 4, 4-27).

Inicia seu reinado declarando ao Bom Ladrão: Em verdade te digo: hoje estarás comigo no Paraíso (Lc 23, 39-43). É considerado o patrono dos teólogos, pois foi o primeiro a proclamar iniciada a realeza do Messias.

Os Discípulos aprendem a lição e dizem ao cego de Jericó: Coragem! Ele te chama. Levanta-te (Mc 10, 46-52).

Permanecer junto dos pequenos e simples, foi esse o caminho escolhido por Jesus, não como tática de atração, mas como atitude brotada de seu coração divino. O segredo de sua missão era acolher a ovelha ferida: acolher, e sempre.

Seu Testamento não deixa dúvidas (Jo 13, 1-20): O que eu fiz, façam uns aos outros. Jesus se colocou no lugar do escravo, do servo: o gesto do Lava-pés era gesto de abaixar-se, e Pedro quis rejeitá-lo, mas teve de aprender: Se não te lavo os pés, não terás parte comigo.

É no se rebaixar que se constrói o espaço de encontro. Enquanto sou autoridade, não tenho esse espaço. Ao abaixar-me, permito que a pessoa exista à minha frente, de igual para igual. Abaixar-me provoca a felicidade de encontrar a pessoa como ela é, sem condições. Decido, gratuitamente, oferecer-lhe meu tempo, meu afeto, partilhar a existência. Não o faço para ter proveito, mas porque quero acolhê-la. Como Jesus encontrou e acolheu a Samaritana, a Adúltera, o Bom Ladrão, o Centurião com o filho doente.

Se o gesto de Jesus não for o nosso gesto, isto é, abaixar-nos, não conseguiremos encontrar Deus, pois ele está abaixado. Somente quem se abaixa mergulha no coração da Trindade e pode rezar com toda a confiança: Senhor, presta atenção, responde-me, porque sou pobre e infeliz. Piedade de mim, Senhor, a ti eu clamo o dia todo (Sl 85, 1-3). Fala como a um amigo.

Santa Catarina de Siena entendeu-o plenamente e não se intimidou em revelar o afeto divino: Tu és Trindade criadora e eu sou tua criatura. Tu estás enamorado de tua criatura. Tão pobres nós somos, mas Deus se encanta conosco.

Pe. José Artulino Besen,
a partir de reflexão de Ir. Henrique da Trindade

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  1. #1 por Marcos Rohling em 10 de agosto de 2013 - 14:59

    Bonito e digno de louvor. Fazendo-se homem, Jesus ao mesmo tempo em que traz a divindade para a humanidade eleva a humanidade à divindade. Apenas Deus poderia ser capaz de redimi-la, porque apenas Ele é capaz de revelar a natureza dEle mesmo, o Amor.

  2. #2 por José Maria Brandão em 11 de agosto de 2013 - 12:01

    Eu poderia acrescentar algo ao comentario de Marcos Rohling, acima citado, mas foram palavras tão acertadas que peço licença para fazer delas as minhas. Muito obrigado!

  3. #3 por Gilson Pereira de Melo em 11 de agosto de 2013 - 16:44

    “Deus se faz homem, assume a condição humana. Jesus é um Deus abaixado….”. E os 7 bilhões de pessoas no planeta terra igualmente é Deus abaixado.

    “Seu Testamento não deixa dúvidas (Jo 13, 1-20): O que eu fiz, façam uns aos outros.”. Essa e outras declarações do Evangelho, nos conduz a conclusão, que podemos fazer as mesmas obras que Jesus fez, porque temos a mesma natureza Divina, os mesmos atributos.

  4. #4 por Alexandre Borges em 11 de agosto de 2013 - 21:24

    Caro padre amigo, essa meditação me fez lembrar de Máximo, o Confessor, que defendia as duas naturezas e duas vontades em Cristo (o que foi aceito pela Igreja como dogma). Afirmando que Jesus possuía duas naturezas e vontades estava afirmando que Deus não aniquilou nada do que era humano, mas assumiu tudo o que era humano. Só é redimido o que é assumido. Assim, ninguém deve temer este Deus, já que não destruiu nada do que era nosso para se fazer homem. Se a natureza ou a vontade humanas tivessem sido aniquiladas, poderíamos estar à mercê de um Deus manipulador e autoritário, mas não, não devemos temê-lo. Fez-se em tudo homem, para que em tudo pudéssemos nos tornar divinos. Protágoras diz que o homem é a medida de todas as coisas, mas Cristo revela que Deus é a medida de todo homem. Ele (Deus) é nosso alfa e nosso ômega! Grande abraço,

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