PAULO VI – CANTOR DA FÉ E DA BELEZA

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Bento XVI recordou Paulo VI como homem de vida “profundamente sacerdotal e rica de profunda humanidade”. Para nós, brasileiros, é o homem da CNBB, de Medellín, de Dom Helder Câmara, o homem que nos deu os Cardeais Dom Aloísio Lorscheider e Dom Paulo Evaristo Arns. Para a Igreja, é o papa do Concílio Vaticano II, do ecumenismo, da reconciliação com o mundo moderno. O que João XXIII anunciou preparando os caminhos do Senhor, um outro João, que assumiu o nome de Paulo, edificou com a história de vida, sabedoria, diálogo, escritos e – acima de tudo – a Cruz, que ele teve bem pesada.

Por mais que se fale em evangelização e doutrina social de Igreja, sempre será necessário citar com abundância sua encíclica Populorum Progressio (1967) sobre a justiça social cristã, e a Exortação apostólica Evangelii Nuntiandi (1975) sobre a evangelização no mundo contemporâneo. Sua obra foi prosseguir o Concílio que tinha realizado apenas uma sessão, concluí-lo e, o mais delicado, aplicá-lo na vida de uma instituição bi-milenar, presente nas mais díspares culturas de quase duas centenas de nações, e numa sociedade que trilhava os caminhos da secularização. Alguns achavam que ia muito depressa, outros que muito devagar. Como fazer para abraçar a todos a não ser aceitando a cruz, a paciência no diálogo frente às incompreensões e na santidade da vida já marcada por tantas dores físicas que o deixavam fragilizado? Aceitou ser o Pai dos cristãos.

Um presente para a Igreja

Santa Teresinha de Lixieux tinha anunciado que no dia de sua morte a Igreja receberia um presente: pois naquele dia de sua morte, 30 de setembro de 1897, em Concesio, era batizado Giovanni Battista Montini. Na vida eterna ingressava a Santa das Missões, na vida divina ingressava o futuro papa da missão no mundo contemporâneo, o hoje Servo de Deus Paulo VI.

Era filho de um deputado socialista de Brescia, teve a vida marcada pela sensibilidade aos dramas humanos em todos os seus aspectos de pobreza e riqueza. Em seu tempo de seminarista duvidaram se poderia ser padre, pois estava sempre ou doente ou fraco. Depois, percebeu-se que tinha “uma péssima saúde de ferro”, que lhe deu forças para viver 81 anos.

Era arcebispo de Milão quando foi eleito Papa em 21 de junho de 1963, cinqüenta anos atrás, uma eleição esperada pelos Cardeais desde o Conclave de 1958 mas, naquela ocasião, não era cardeal. As surpresas de Deus ofereceram o Papa Bom para colocar a bondade no coração do mundo, e agora, um santo intelectual para oferecer ao mundo o coração da Igreja.

Paulo VI “inventou” as grandes viagens papais: Filipinas, Uganda, Índia, Palestina, Nova Iorque, Portugal, Colômbia (onde inaugurou a Conferência de Medellín em 1968). Apresentou-se humildemente no Parlamento mundial, a ONU, em 4 de outubro de 1965: “Meu nome é Pedro. … Nós não temos nada para pedir; nenhuma questão a levantar; unicamente um desejo a formular, apenas solicitar a permissão de servir-vos naquilo que é de nossa competência, com desinteresse, humildade e amor”.

Tinha uma sensibilidade humana tão marcante que prestava atenção a cada gesto, a cada pessoa, e isso desde padre. Numa viagem pastoral no sul da Itália viu uma criança que desejava entregar-lhe um bilhete: apanhou-o e prometeu lê-lo. No Vaticano viu o que a criança pedia e enviou-lhe regularmente um auxílio. E com freqüência enviava algum dinheiro para os pobres que lhe pediam. Noutra ocasião, já paramentado para a celebração num dia de muitas tarefas, aparece um homem na sacristia e pede a confissão. Como se já o estivesse esperando, senta-se e o atende.

Na Índia, um país de religião hindu, pobre, cheio de problemas, poucos perceberam um homem que dele se aproximou e apunhalou-o. Paulo VI pediu que ninguém ficasse sabendo, para não se pensar mal da Índia, agüentou as dores e somente depois aceitou curativos. Também em Portugal um padre fanático tentou feri-lo.

Essa sensibilidade foi moldada pelo coração mariano: “ninguém é tão mariano como o Papa”, afirmou seu secretário. Publicou a exortação apostólica Marialis Cultus, em 2 de fevereiro de 1974, um documento de doutrina, piedade e clareza excepcionais, onde dedica 13 números ao Rosário, que recitava diariamente e sobre o qual se abre em poesia: “É uma oração ordenada; não irregular, intermitente, desordenada; não, pois segue um fio, uma linha. É uma oração coletiva. Não é uma voz solitária, mas é um coro, é uma harmonia, é um concerto, é um rosário não só de Ave Maria, mas de almas frescas e inocentes” (10 de maio de 1964).

Gestos de pura beleza da fé

Tendo bebido na cultura francesa, Paulo VI era universal e ecumênico: foi a Jerusalém da Paixão e da Páscoa, em Nazaré inaugurou a imensa basílica mariana, levantou a excomunhão de 1054 contra a Igreja ortodoxa, abraçou e beijou o patriarca de Constantinopla, Atenágoras (1964), abraçou e beijou os pés de Arthur M.. Ramsey, primaz da Igreja anglicana, dando-lhe seu anel episcopal.(1966). Quando de sua viagem à Uganda, para a canonização dos mártires africanos, foi profético e pioneiro acolhendo o martírio de outras Igrejas: “…E não querendo também esquecer os outros que, professando a religião anglicana, sofreram a morte pelo nome de Cristo”. Buscou derrubar os muros que isolavam a Igreja dos dramas da sociedade, defendeu a liberdade de consciência e a dignidade humana.

Era um Papa de grandes amigos e que prezava a amizade de intelectuais como Jean Guitton, de políticos como Aldo Moro, vítima de seqüestro pelas Brigadas Vermelhas que infernizaram a sociedade italiana. De público pediu sua libertação, mas não foi atendido. E, 55 dias depois, em 9 de maio de 1978 os terroristas deixaram seu cadáver numa rua romana. Transido pela dor, foi rezar nas exéquias na Basílica lateranense, num derradeiro esforço para mostrar seu afeto ao amigo em quem depositava a esperança de da purificação na política italiana.

Amava Santo Agostinho, a literatura, as artes em geral, criou os Concertos musicais no Vaticano, trazendo maestros do porte de Von Karajan, Zubin Mehta, Carlo M. Giulini. Acreditava que as estradas do belo conduzem o homem à fé. Inaugurou nos Museus do Vaticano a seção de Arte Moderna e Contemporânea, em 1964. Foi o projeto para relançar o diálogo interrompido entre a Igreja e a arte, desejando encorajar a histórica amizade entre a fé e o artista. Era amante e grande conhecedor da arte e, na ocasião, pediu todos os artistas para “mergulharem novamente no sagrado e darem a justa visibilidade à Palavra de Deus e à ação da Igreja de Roma”. A coleção é formada somente por doação e já inclui os grandes nomes como Van Gogh, Gauguin, Degas, Renoir, Manet, Delacroix, Utrillo, Rouault, Matisse, Bonnard, Dufy, Derain, Vlaminck, Braque, Chagall.

Encomendou ao escultor e amigo Giacomo Manzù um monumento a João XXIII na Basílica de São Pedro, e recebemos o magnífico bronze “Porta da Morte”, para escândalo da Cúria, pois Manzù era ateu e comunista, mas, para o Papa, um homem divinamente inspirado. Foi chamado de “Cantor dos Santos”, pela beleza plástica nas homilias de canonização, o “Cantor da Vida”, pela defesa que dela fez.

A década de 70 coincidiu com minha permanência em Roma, para estudos. Eu tinha devoção pelo Papa frágil, apoiado para não cair, que se ajoelhava com as dores de artrites e artroses, rezando com voz fraca, intermitente, um fio de voz. Ingressava na basílica de São Pedro tão concentrado em Cristo que não percebia a multidão que o saudava. Uma imagem nunca me deixou: na hora da Consagração eucarística ele se transformava: seu rosto resplandecia, sua voz transformava-se num sussurro, ficava a sós com o Senhor. Transfigurado pela potência do Ressuscitado!

E morreu em 6 de agosto de 1978, dia da Transfiguração do Senhor. Nas últimas horas de vida pediu a Unção e repetia continuamente Pater noster, Pai nosso!

Pe. José Artulino Besen

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  1. #1 por ALUIZIO,BRAND em 20 de junho de 2013 - 14:22

    Sempre leio medito e faço comentários em certas rodas de amigos pela leitura de esclarecimentos de atuação deste e daquele papa, e datas histórias de pessaoas e da Igreja, tambem dos dirigentes para cardeais. Tenho tio Padre ja “in memoria” tambem bispo Dom Orlando Brandes, primo em 2° grau, nossos avós eram irmãos.

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