DEUS É AMOR, O AMOR É DIVINO

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Santíssima Trindade com São Jerônimo e duas Santas – Andrea Del Castagno – ca. 1453 – Florença

A fé cristã tem como fundamento a revelação de que nosso Deus é Trindade, Uno e Trino, e que o Filho se encarnou, morreu e ressuscitou por nós e por nossa salvação.

Não nos é dado entender o mistério trinitário, do mesmo modo que não entendemos o mistério de uma pessoa, mas, podemos nos achegar de modo muito mais belo e profundo: contemplar e adorar o Deus Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo a partir da Palavra. Quando entendemos, a realidade diminui porque é dominada, empobrece e, quando contemplamos e adoramos, Deus vem ao nosso encontro e nos fala como a amigos, mas, permanece o mistério até o dia quando o que “os olhos não viram, os ouvidos não ouviram e nem suspeitou a mente humana, o que Deus preparou para aqueles que o amam” (1 Coríntios 2, 9).

Sirvo-me da palavra de Bento XVI na festa da Santíssima Trindade de 2009[1]: “Três Pessoas que são um só Deus porque o Pai é amor, o Filho é amor, o Espírito Santo é amor. Deus é totalmente e somente amor, amor puríssimo, infinito e eterno. Não vive numa esplêndida solidão, mas é antes de tudo fonte inesgotável de vida que se doa e se comunica incessantemente” (Angelus de 7 de junho de 2009).

Cristo veio ao mundo para que tivéssemos acesso ao amor de Deus e para que esse amor seja aceso como fogo em nossos corações: “Eu vim lançar fogo sobre a terra, e como gostaria que já estivesse aceso!” (Lucas 12, 49). Do mesmo modo que a essência de Deus é o amor, a natureza íntima da Igreja exprime-se num tríplice dever: anúncio da Palavra de Deus (kerygma-martyria), celebração dos Sacramentos (leiturgia), serviço da Caridade (diakonia). Com uma palavra densa, Bento XVI sintetizou o programa da evangelização e da vida cristã: anúncio, liturgia, caridade. São deveres que se reclamam mutuamente, não podendo um ser separado dos outros, e que nos conduzem no caminho do amor divino. Pela continuidade temática de seu ministério, no tempo certo, ele será recordado como o Papa do amor divino.

A presença de Cristo, Deus e Homem, é a força que movimenta todo o universo até que Deus seja tudo em todos na potência da ressurreição (1 Coríntios 15, 28). A Encarnação trouxe o Filho para o centro da criação e a Ressurreição conduz a criação ao centro do Deus Trindade.

“É o amor divino, encarnado em Cristo, a lei fundamental e universal da criação”. (Bento XVI, 10 de janeiro de 2009). “A força da caridade é irresistível: é o amor que, verdadeiramente, faz progredir o mundo” (Bento XVI, em Pompei, 19 de outubro de 2008).

Somos o centro da Trindade

Três Pessoas que são um só Deus, porque Deus é amor, isto é, a essência da divindade é o amor, a caridade que une sem negar as diferenças. À medida que formos mais capazes de amar verdadeiramente, mais seremos capazes de penetrar o mistério de nosso Deus. Quando Lucas afirma que “a multidão dos fiéis era um só coração e uma só alma” (Atos 4, 32) estava retratando o fruto do amor divino nos primeiros cristãos: eram muitos, mas um só coração e uma só alma, pois mergulhados no amor trinitário. Enquanto nós, humanidade, estivermos divididos em tribos, nações inimigas, em pobres e ricos, comprovamos como ainda é distante a vivência do amor cristão.

Com perseverança, o exemplo pessoal e a palavra, Papa Francisco retoma o tema da Igreja dos pobres e da Igreja pobre, comunidade de amor. Não é necessário muito discurso para reconhecer os pobres: são as pessoas que sofrem, os doentes, os idosos sozinhos, os jovens em dificuldade, os dependentes químicos, os violentos, os prisioneiros, os desabrigados, aqueles que vivem em graves condições de pobreza e de dificuldade social e econômica.

É da natureza do amor expandir-se, ir ao encontro: assim, Deus Pai cria o mundo, cria a vida, cria o homem e a mulher para poder amar. Deus Filho vem ao mundo para renovar a criação e a humanidade decaída, fazendo novas todas as coisas (Apocalipse 21, 5). Deus Espírito Santo é fogo de amor, paz, santidade e renova tudo e todos.

Há imensa dignidade em cada um de nós, sem nenhum merecimento: somos o centro aonde converge o amor divino e recebemos o dom inestimável de poder amar, de sermos divinos pelo ato de amar.

Deus é amor, o amor é divino: nós somos feitos à imagem e semelhança de Deus e recuperamos nossa semelhança pela conversão ao amor. E isso não é pesado, não é um mandamento duro: somos amados primeiro. Nosso amor é somente resposta.

Não necessitamos ficar abismados pelos santos que deram a vida pelo próximo, pelos jovens que se consagram à missão, por aqueles que empenham toda a vida no serviço ao próximo, à família: sentem-se amados e não conseguem se fechar em si, também se dilatam no amor. Tudo se faz amor quando meditamos no amor pessoal de Deus por cada um de nós: “Tu és Trindade criadora e eu sou tua criatura. Tu estás enamorado de tua criatura”, declarava, cheia de encanto e maravilha, Santa Catarina de Siena (1347-1380). Ela, a analfabeta doutora da Igreja, sentia que Deus estava apaixonado por ela, caso contrário, não a procuraria sem lhe dar sossego.

Pe. José Artulino Besen


[1] Bento XVI iniciou o pontificado com a Encíclica Deus caritas est, Deus é amor, publicada no Natal de 2005, marcando a força de seu ministério no anúncio do amor divino. Poucos nos apercebemos, mas seu último documento doutrinal e disciplinar foi sobre o amor, a Carta apostólica Sobre o serviço da Caridade, de 11 de novembro de 2012.

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