O BOM COMBATE DA FÉ

Escada de Jacó, nossa ponte para Deus (G. Cordiano).

Escada de Jacó, nossa ponte para Deus (G. Cordiano).

Se nosso tempo é marcado pelo “eclipse de sentido do sagrado”, nas palavras de Bento XVI, nós cristãos somos marcado pelo eclipse do sentido da fé cristã. Em outras palavras, a sociedade secularista quer retirar a autoridade de Deus da vida civil e muitos cristãos, espantados com o fenômeno, buscam esterilizar o poder transformador da fé num mórbido sentimentalismo. Compreende-se que a voz do mundo secular se incomode com qualquer referência religiosa, pois tem como ideal final a satisfação de todas as necessidades, a paz que vem do abandono de um ideal de vida humana, substituída pelo ideal puramente hedonista do cada um por si e para si.

Mas, não se compreende que os cristãos, especificamente os freqüentadores das igrejas, busquem a mesma coisa ao preço da castração da fé redentora trocada pela fé “a baixo preço” vivida na planície, sem obstáculos, sem a subida ao monte onde se contempla a majestade e o amor divinos.

Quando Paulo escreve “combati o bom combate, terminei a corrida, guardei a fé” (2Timóteo 4,7), ele sabe que apenas terminou uma corrida, pois lhe estava reservado outro combate, em Roma, o martírio. Então sim, poderá se apresentar diante do Senhor e ainda ter de dizer “nada sou, recebe-me”, sabendo que no esvaziamento total Deus pode nos encher completamente.

Albert Camus, autor de A PESTE, diante da impossibilidade de aceitar o sofrimento de uma criança inocente, o que lhe parece negar a possibilidade de um Deus justo, vive ainda o dilema de não ser possível viver sem procurá-lo, mesmo sabendo que não existe, e exclama: “Como ser santos sem Deus? É este o único problema concreto que eu conheço”.  Podemos empobrecer nossa humanidade pela autosatisfação, mas, encarando-a com seriedade não conseguimos suprimir a tensão à transcendência: Deus nos deixa inquietos, sempre. Abdicando de “ser santos” desmorona o edifício construído a partir da fé.

Por que a dificuldade de crer como cristãos, de levar a sério a fé cristã? É importante lembrar que a fé cristã não se reduz à aceitação de doutrina, dogmas, sacramentos, Bíblia, tudo relativamente fácil. Ter fé cristã é aceitar uma pessoa, o Filho de Deus, a Ponte entre nós e Deus, entre o mundo e os céus, inseparáveis: Jesus se oferece como caminho até Deus e Deus se oferece a Jesus como caminho até nós. No individualismo não é possível o encontro com o Outro, pois pretendemos apenas nos encontrarmos conosco mesmos e, deste modo, torna-se impossível a fé. O individualismo produz o sentimentalismo religioso, a eterna adolescência de quem acha que tudo começa e termina em si. Fazemos perguntas sem buscar repostas, rezamos sem encetar um diálogo de amigos.

A fé será sempre fruto do diálogo e da comunhão e, quem ama o próximo, também ama a Deus, e quem ama a Deus, também ama o próximo. Viveremos o bom combate da fé se, ao mesmo tempo, formos amantes de Deus e do próximo, o que torna realidade a comunhão/comunidade: na proporção com que nos damos as mãos, sentimos o Deus vizinho e, na proporção com que amamos a Deus, sentimos o próximo vizinho.  No distante século VI, em pleno deserto de Gaza, o santo monge Doroteu afirmava isso quando, traçando na areia um círculo com raios que se dirigiam a seu centro, explicava: “o círculo é o mundo, o centro dele é Deus. Os raios são os caminhos dos homens: quanto mais eles avançam, tanto mais se aproximam de Deus e quanto mais Deus avança, mais se aproxima de nós”.

O Espírito Santo, causa e artista da vida de fé

O bom combate inclui o árduo caminho do êxodo, ingressar no deserto em busca do horizonte sem saber quando encontrá-lo. O peregrino da fé sabe que o deserto é extremamente quente durante o dia, e extremamente frio à noite. Não desanima, pois está acompanhado do artista da santidade, escultor de cristãos, o Espírito Santo que aquece o frio, refresca o calor, rega o seco, lava o sujo, cura o doente, dobra o que é duro, guia no escuro, porque é nosso hóspede e nós nos hospedamos nele (cf. Seqüência de Pentecostes).

Na busca de Deus é significativa a imagem do poço onde buscamos água e quanto mais a tiramos, mais precisamos tirar. Uma jovem holandesa, enquanto viajava com os pais e um irmão no trem que os levaria à morte no campo de concentração de Auschwitz, não se deixou levar pelo desespero de Camus. Tinha consciência de que tudo é um milagre, em tudo há força e fraqueza, mas em tudo pode ser descoberto o bem, mesmo no trem que a conduzia à tragédia final. Etty Hillesum, esse era seu nome, que morreria em 30 de novembro de 1943, assim escreveu: “Existe dentro de mim um poço muito profundo. E Deus está nesse poço. Às vezes me acontece de encontrá-lo, porém, as mais das vezes pedra e areia o cobrem: nesta hora Deus está sepultado. É necessário que novamente eu o desenterre”.

O poço é nossa interioridade, é o abismo profundo donde gritamos “a vós eu clamo, Senhor, ouvi a minha prece” (Salmo 129, 1-2). Sem avançarmos em águas mais profundas, permanecermos nas planícies, não combateremos o bom combate, o único combate verdadeiro. Teremos os ouvidos fechados ao Espírito que geme dentro de nós e não faremos experiência da comunhão total com Deus e com o próximo. Querendo ou não, nas ruas e nos templos, nas casas e nos shoppings, no silêncio e no barulho, o Senhor está gritando: “Se alguém tem sede, venha a mim, e beba. Aquele que crê em mim, conforme diz a Escritura, rios de água viva jorrarão do seu interior” (Jo 7, 37-38).

Pe. José Artulino Besen

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