O PROFETA JONAS PRECISA DE CONVERSÃO

Jonas expelido pela baleia

Jonas expelido pela baleia

O livro do profeta Jonas é uma parábola que retrata o povo de Israel após o exílio (século IV-III AC) quando, tendo recuperado a identidade religiosa e nacional, buscava reforçar a consciência do próprio valor e o desprezo pelos outros povos. Alimentava a convicção de que somente ele, Israel, era amado por Deus, somente ele tinha salvação: para os judeus, a misericórdia divina, para os pecadores, uma justiça implacável. Na verdade, Deus “é lento para a ira e rico em misericórdia e bondade” (Ex 34, 5-6): esse é o resumo da parábola de Jonas.

O profeta estava tranqüilo, desocupado, pois seu povo estava salvo, não necessitava de profetas, bastava-lhe seguir as leis. Surge a voz divina que o inquieta e irrita: “Levanta-te! Vai a Nínive, aquela grande cidade, e denuncia suas injustiças, que chegaram à minha presença” (Jn 1,2). Jonas se levanta, faz que vai a Nínive, mas toma o caminho contrário, rumo ao Ocidente, embarca num navio para fugir de Deus.

Jonas, que conhecia Deus, procurou fugir da missão porque sabia que Deus é misericordioso, lento na ira e pronto para anular as ameaças (cf. Jn 4,2). Ele não queria ser visto como profeta humilhado, desmentido, o que lhe parecia mais importante que realizar a missão que Deus lhe confiara. Estava aborrecido com Deus: o que adianta ameaçar um povo pagão com castigos se depois Deus muda a decisão e o salva? Profeta desmentido perde a fama.

Deus, porém, topou dar uma lição ao Jonas fugitivo: provocou uma grande tempestade, o navio parecia afundar e buscava-se o responsável pelo perigo. Escondido, o profeta tomou consciência de que ele era o responsável, pois estava fugindo de Deus. Apresentou-se ao comandante e pediu que o atirassem ao mar. Assim foi feito, o mar se acalmou, mas Jonas foi engolido por um enorme peixe, uma baleia. Preso por três dias e três noites no ventre do peixe, lembrou-se do Senhor, reconheceu seu pecado e recuperou a esperança da salvação e pediu perdão.

Deus ouviu sua prece e ordenou à baleia que o vomitasse em terra firme. Jonas ficou muito feliz, tudo estava resolvido, achou que Deus o deixaria em paz. O que não aconteceu, pois ouviu novamente a voz: “Levanta-te! Vai a Nínive, aquela grande cidade, e anuncia o que vou te dizer” (Jn 3,2). A mesma voz, a mesma ordem. Vendo que não tinha outro jeito, Jonas se levantou e tomou o caminho de Nínive. Acabou aprontando: Deus ordenara que anunciasse o que ele diria, mas Jonas falou por conta própria: “Dentro de quarenta dias Nínive será destruída!” (Jn 3, 4). Não queria a salvação da cidade, mas sua destruição e assim livraria a cara de profeta que acerta.

Nínive era uma grande cidade e eram necessários três dias para atravessá-la. Construída por Senaquerib, chegou a quase 150 mil habitantes, quatro vezes maior do que Babilônia.

Jonas deveria ter anunciado: “Se não vos converterdes morrereis do mesmo modo”, mas preferiu falar secamente “Daqui a 40 dias Nínive será destruída”. Para seu espanto, os ninivitas não se deixaram desanimar pela profecia e se colocaram em penitência e jejum desde o rei até o último dos animais: acreditaram que Deus poderia voltar atrás.

Seu arrependimento é correspondido pela misericórdia divina que parece desmentir o profeta. É a dialética da misericórdia, que supõe exatamente que a profecia não se cumpra, para que se realize seu sentido mais profundo, o convite à conversão.

Jonas ficou profundamente magoado, pois Deus não lhe obedecera. A conversão dos ninivitas gerou a conversão de Deus e o único a resistir é exatamente o profeta, preocupado com seu posto, em livrar a cara. Chega à conclusão de que com Deus não dá para trabalhar pois “é bondoso demais, sentimental, lerdo para ficar com raiva, de muita misericórdia e tolerante com a injustiça” (Jn 4, 2-4). Pediu a morte, e Deus lhe perguntou: “Será que está correto ficares tão irritado?”. O profeta achou que sim, retirou-se fez um abrigo e ficou observando o que iria acontecer com a cidade.

Para refrescar-lhe a cabeça raivosa, o Senhor fez crescer uma mamoneira que ofereceu sombra. Ficou contente mas, no dia seguinte a planta secou e ao nascer do sol Deus mandou vento muito quente e Jonas sentiu-se mal. Deprimido novamente pediu a morte e Deus lhe perguntou: “Será que está correto tu ficares tão irritado por causa da mamoneira?”. Cabeçudo, Jonas respondeu secamente: “Está certo, sim, eu ficar com raiva e até pedir a morte” (Jn 4, 9). O Senhor aceita nossas malcriações.

O livro de Jonas termina com uma pergunta, não respondida, feita por Deus: Se tu tens pena de uma mamoneira que nem plantaste, não terei pena de Nínive, onde mora tanta gente que nem sabe distinguir entre direita e esquerda? (cf. Jn 4, 10-11).

O profeta Jonas se achava dono de Deus e lhe dá conselhos. Deus dá a lição de que cuida de todos os povos, também dos pagãos, não está reduzido aos muros de Jerusalém. São os ninivitas que anunciam a misericórdia do Senhor e não o profeta cheio de razão. Jonas é o oposto de Abraão: o patriarca intercedeu por Sodoma e Gomorra (cf. Gn 18, 20-33) e Jonas se contenta em anunciar a destruição. O fruto também é oposto: Sodoma destruída, Nínive salva.

A verdadeira alegria de um profeta

Um profeta anuncia castigos, é verdade, mas alimenta a esperança de que eles não aconteçam.

O autor do livro de Jonas quis abrir os olhos e o coração dos israelitas para que não ficassem fechados em si, numa orgulhosa certeza da salvação, mas tivessem a alegria de uma salvação universal, pois Deus tem a todos como filhos. Para narrar a parábola escolheu uma grande cidade, Nínive, que nem existia mais, pois fora destruída pelos babilônios em 612AC, séculos antes de nosso profeta.

Escolhi escrever sobre Jonas tendo diante de mim a figura de papa Francisco, grande presente de Deus à Igreja, um papa que veio do futuro, de um magnetismo irresistível pois retrato do Senhor servo e pobre, puro instrumento da paz. Ainda cardeal Jorge Bergoglio, em 2007 afirmou numa entrevista à revista 30 Giorni, entrevista essa republicada pelo jornal Corriere della Sera em 14 de março de 2013. É uma chamada de atenção a nós, cristãos, que olhamos para o próprio umbigo, fechados em orgulhosas seguranças pseudo-históricas e canônicas, mas que manipulam o Evangelho. Se não formos ao encontro dos pobres, Cristo irá. Como Jonas, ficaremos reclamando dos outros que não são católicos ou cristãos, mas aceitam Jesus como seu Senhor e Salvador.

Jonas deve se converter, afirmou o Card. Bergoglio: “Jonas tinha idéias claras sobre Deus, idéias muito claras sobre o bem e sobre o mal. Sobre aquilo que Deus faz e aquilo que Deus quer, sobre aqueles que eram fiéis à Aliança. Tinha a receita para ser um bom profeta. Mas, Deus irrompe em sua vida e o envia a Nínive, símbolo dos separados, dos perdidos, das periferias da humanidade. O que o fez fugir não era tanto Nínive, mas a rejeição do amor de Deus, amor sem limites por aqueles homens”.

Pe. José Artulino Besen

Anúncios
  1. #1 por Roberto Rosa em 1 de maio de 2013 - 12:20

    Como aconteceu com Israel e Profeta Jonas, clamemos ao nosso Papa Francisco para que não olhemos somente para nós, mas para o que Deus determinou a todos. Parabéns mais uma vez Pe. José

%d blogueiros gostam disto: