VATICANO II – O OLHAR DE JESUS, O OLHAR DA IGREJA

Todos são convidados ao Banquete da Vida - Ana Graça Bessan

Todos são convidados ao Banquete da Vida – Ana Graça Bessan

No dia 11 de outubro de 2012 a Igreja fez memória dos 50 anos de inauguração do Concílio Ecumênico do Vaticano II (1962-1965), convocado pelo Papa João XXIII em 1959.

Para os saudosistas, o Concílio foi um horror: tirou as certezas da Igreja, secularizou as vestes históricas, acabou com os símbolos de instituição triunfante no meio de um mundo decadente. Para os revolucionários, o Concílio foi traído: reentramos na velha disciplina eclesiástica, o clericalismo torna a dar suas piscadinhas sedutoras, após anos de primavera ingressamos num longo e tenebroso inverno onde o Espírito Santo parece ter perdido a criatividade.

Cada um desses grupos extremos tem suas razões, mas, o que não se pode esquecer é que a aplicação concreta de um acontecimento de tal envergadura ultrapassa gerações. É bom até lembrar que decorridos 40 anos do encerramento do Concílio de Trento, ocorrido em 1563, o Cardeal São Roberto Belarmino escrevia ao Papa pedindo-lhe que aplicasse o Concílio!

Um novo olhar

A Sagrada Escritura é rica na citação dos olhares de Deus. Na criação do mundo, Deus viu que tudo era muito bom. Olhando os sofrimentos do povo no Egito, Deus desce e chama Moisés para libertá-lo. Olhando a desolação de Jerusalém, Jeremias chora suas ruínas. O olhar de Jesus fascina Pedro, André, Tiago, João. O olhar de Jesus cativa Zaqueu. O olhar compassivo de Jesus redime a mulher pecadora. Vendo as lágrimas de Marta e Maria, Jesus chora Lázaro morto. Contemplando a Luz do Senhor, o perseguidor Saulo transforma-se no apóstolo Paulo. Vendo o mundo com o olhar de Maria, a Igreja contempla as mulheres da terra e sente sua disponibilidade ao anúncio do Evangelho. Abrindo os olhos para o mundo,  ela sai de si e faz-se missionária.

A Igreja, Corpo de Cristo, Esposa do Espírito, Povo de Deus necessita da capacidade de olhar para entender o mundo e os homens, e dizer-lhes uma palavra convincente.

Nos tempos da Cristandade (Igreja poderosa unida a reis poderosos e Estados) a Igreja queria ser olhada e temida. Nos primeiros séculos o caminho tinha sido diferente: os cristãos sentiam-se “estrangeiros e peregrinos” no mundo (cf. 1Pd 2,11). Apresentavam-se humildemente e seu testemunho de vida formou as primeiras comunidades. Com a reviravolta constantiniana (século IV), livre e unida ao Império, a Igreja passou a ver os outros como estrangeiros e peregrinos e seguiu o caminho de obrigar todos a nela entrarem. Mudara seu olhar: de mãe misericordiosa passou ao patriarcalismo triunfante.

O Concílio, um novo olhar

O Concílio do Vaticano II foi a imagem plástica do Papa Bom, João XXIII (1958-1963), homem que em tudo via a bondade de Deus, que criticava aqueles que no mundo moderno viam apenas males, como se o passado fosse um jardim. Em seu Testamento, João XXIII declarou: “A bondade fez serena a minha vida!”.

Ele quis um Concílio realmente ecumênico: convidou protestantes, anglicanos e ortodoxos como observadores ativos, chamou representantes dos leigos, mulheres, convocou observadores de outras religiões. Observando desse ângulo, foi o único Concílio que mereceria o título de “ecumênico”, pois nos seus convidados toda a humanidade estava representada.

Foi o primeiro Concílio convocado sem nenhum inimigo ou heresia a serem condenados. O papa Bom queria uma Igreja mãe, mestra e filha.

E assim, o Concílio legou-nos muito mais o milagre do olhar do que textos revolucionários (que não faltaram, é claro). O olhar da Igreja tornou-se jovem, sem preconceito.

A Igreja passou a olhar os judeus e chama-os de irmãos prediletos, irmãos mais velhos.

Olha o Oriente cristão-ortodoxo como o grande pulmão ortodoxo espiritual e teológico, que muita falta faz à espiritualidade cristã ocidental.

Olha os evangélicos-protestantes como irmãos separados, mas irmãos, com os quais partilhamos o tesouro das Escrituras, o mistério do Deus Uno e Trino e da Redenção.

Olha as outras religiões como sinais da presença do Espírito em todos os povos. Isso tornou possível as Jornadas Mundiais de Oração pela Paz em Assis, em 1986. Ao invés de julgar que anunciar o Evangelho é oferecer o primeiro contato com Deus, fazemos a pergunta verdadeira: o que Deus revelou e fez nesses povos antes de chegar o Evangelho?

Olha os ateus como um desafio, talvez sinal de um falso deus que lhes apresentamos.

Olha a humanidade e aprende com ela a ser especialista em humanidade. Aprendemos com força que a raça humana forma a família humana.

Olha o mundo e vê nele uma tarefa, um desafio. Ela não compete com os poderes da terra: oferece as mãos para o trabalho comum. Não pensa somente na salvação da alma, mas na salvação do homem todo e de toda a criação.

Olha seu passado e pede perdão, como o fez num gesto grandioso e humilde João Paulo II, no ano 2000.

O Concílio marcou o fim de uma posição defensiva frente ao mundo considerado inimigo perigoso: a Igreja retomou o diálogo com ele, e os cristãos se vêm na sociedade em companhia de todos os homens: Igreja solidária que olha a todos com o olhar compassivo do bom Pastor. Uma Igreja que não tem medo de ser pobre, mas que crê na força do Evangelho e permanece na escuta das alegrias, angústias e sofrimentos da humanidade inteira.

Somente uma Igreja misericordiosa é capaz de narrar o rosto verdadeiro do Senhor Jesus e assim ser escutada pela humanidade.

Um olhar que liberta

Duas expressões marcaram a estação pós-conciliar e são retomadas com força pelo papa Francisco: Igreja pobre e Igreja de pobres, e Igreja Povo de Deus, não uma ONG, uma superestrutura. Na catequese pós-conciliar definia-se, com muita beleza, a Igreja como “povo de Deus peregrino em marcha para a casa do Pai”. Igreja a caminho, peregrina, leve como Davi frente ao complicado Filisteu, livre de muitas amarras que faziam identificar tradições historicamente situadas e ultrapassadas com a grande Tradição da Palavra de Deus vivida na história. A Bíblia passou a resplandecer em cada lar, cada igreja, comunidade, cada liturgia.

Quanto mais a Igreja se faz pobre, tendo como única riqueza o Pão da Palavra e da Eucaristia, mais sua palavra gera vida santa e fraterna, dá testemunho de seu Senhor.

Com papa Francisco não temos medo da Cruz, mas contemplamos aquele que crucificamos, purificamos nosso olhar e aprendemos a vê-lo em todos os peregrinos da história. O mundo é até pequeno para receber a força do amor cristão.

Pe. José Artulino Besen

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