NA EUCARISTIA CELEBRAMOS O MISTÉRIO PASCAL

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A Eucaristia celebra a Vida nova da ressurreição – Giuseppe Cordiano.

“Tudo está consumado” (Jo 19,30): estava completa a criação do mundo ao se revelar o Cordeiro imolado desde a criação do mundo! (Apc 13,8). Horas antes, o Senhor oferecera o pão e o vinho como palavra decisiva, a fim de que a história humana tivesse alimento no caminhar: “Tomai e comei, isto é o meu Corpo; bebei dele todos, este é o cálice da aliança no meu Sangue que é derramado por vós” (cf. Lc 22, 14-20). Quando o Senhor proclamou que tudo estava consumado tornou possível a Eucaristia da Igreja, com o alimento do seu Corpo oferecido como Pão e seu Sangue derramado como Vida, até a Parusia.

A Eucaristia é afirmação da dignidade e beleza da criação sintetizada no pão e no vinho, do amor do Senhor pela criatura, pois tudo ele assumiu em sua encarnação e em tudo penetrou sua divindade, com a humanidade sendo elevada à divindade. Pela Eucaristia, o Senhor restaura a integridade da criação, pois o pão e o vinho ofertados são fruto da terra e do trabalho humano, representam toda a realidade que, no Espírito, é transfigurada.

A consumação proclamada por Cristo gera a Igreja, Carne e Sangue vivificados pelo Espírito na ressurreição. No Cristo ressuscitado, toda a criação recebeu a semente da ressurreição, não só o ser humano, pois toda a realidade que geme em dores de parto (Rm 8,22).

Ensina Olivier Clément (1921-2009), convertido, teólogo ortodoxo francês: “A Igreja é o sacramento do Cristo Ressuscitado e o núcleo, o sol dessa sacramentalidade é a Eucaristia. A Eucaristia faz a Igreja, faz da Igreja o Corpo de Cristo do qual jorra a potência da vida, da ressurreição”.

A Eucaristia é o sacramento “da” Igreja, não “na” Igreja. Não é um dos sete sacramentos, mas é “o” Sacramento, pois, sem ela não há ressurreição, não há sinal sacramental, não há a Igreja. Quando Paulo fala em reunir-se num mesmo lugar, dirige-se à Igreja que está aqui ou ali, refere-se à Eucaristia, à Assembléia que celebra o Ressuscitado: “O cálice que bebemos é comunhão com o sangue de Cristo; o pão que repartimos é comunhão com o corpo de Cristo. Há um só pão e nós, sendo muitos, somos um só corpo, pois participamos do único pão” (cf. 1Cor 10,16-17). Desse modo, a Igreja faz-se realidade como comunidade.

Mistério pascal – Páscoa eterna

Na Liturgia eucarística, após o hino do Santo, o presidente da celebração, em nome do povo, pede ao Pai que envie o Espírito Santo para tornar o pão e o vinho Corpo e Sangue de Cristo e, através deles, incluir-nos no Corpo de Cristo. A palavra da epíclese é “tornar-se” Corpo e Sangue, mas, o uso patrístico se serve do verbo “integrar” para o mesmo mistério e expressa com muita intensidade a realidade sacramental, pois o pão permanece pão, mas está oculto dentro do Corpo do Senhor, e o Corpo do Senhor se oculta no pão. Ao comermos o Pão e bebermos do Cálice penetramos na vida divina e a vida divina penetra em nós: nasce a Igreja, Corpo de Cristo, forma-se o Povo “de” Deus. Os fiéis participantes, incorporados a Cristo, se tornam consangüíneos com Cristo, raça divina (cf. At 17,28), participantes da natureza divina (cf. 2Pd 1,4).

A Eucaristia é a consumação da Carne e do Sangue do Filho do Homem e, quem não o consome, não terá a vida (cf. Jo 6,53). O capítulo 6º de João – multiplicação dos pães – é claro ao afirmar que quem come desse pão permanece para a vida eterna, pois o pão verdadeiro descido do céu é o Filho do Homem.

Após a Consagração, o presidente da Celebração proclama: “Eis o mistério da fé!”, e a comunidade concelebrante responde: “Anunciamos, Senhor, a vossa morte, e proclamamos a vossa ressurreição! Vinde, Senhor Jesus”. Todas as variantes dessa proclamação incluem o mistério pascal da Paixão e Morte do Senhor, da sua gloriosa Ressurreição e Ascensão, do Pentecostes e a súplica final, a mais antiga oração cristã: “Maranathá! Vem, Senhor Jesus!”. Alguns intérpretes julgaram inconveniente a proclamação “Eis o Mistério da Fé”, porque entenderam-na como profissão de fé na Eucaristia, enquanto que o sentido é mais profundo: todos os mistérios da fé bíblica, o Credo cristão estão presentes na Eucaristia que é o Mistério, o Símbolo da ação divina. Pelo anúncio da Palavra, faz-se vida a Criação (pão e vinho) e a Redenção.

A Eucaristia é memória da Paixão do Senhor: sua humanidade crucificada inclui também as misérias, os sofrimentos da história humana; nela ressoa o grito na cruz “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (Mt 27,46) como grito de desespero da humanidade. Na Eucaristia o fogo do Espírito Santo preenche o abismo do abandono criado pelo pecado, e Jesus pode dizer: “Tudo está consumado”, o Espírito uniu o Filho ao Pai, e nós ao Pai.

Com a Ressurreição-Ascensão, a humanidade do Senhor tecida de nossa carne e de toda a carne da terra se encontra presente no seio da Trindade, com as feridas do Senhor. Dessas feridas luminosas vem-nos a vida.

Com o Pentecostes, nossa humanidade divinizada e divinizante se enche do fogo do Espírito que dá-nos a graça da Eucaristia: “A Eucaristia transforma em si mesma, de modo que os fiéis podem ser chamados deuses, pois Deus todo inteiro os enche inteiramente” (Máximo o Confessor, Mistagogia 21). Sem o Espírito que realiza a Eucaristia, a Igreja é um corpo social, o cristão um agente religioso. Com ela, somos Povo de Deus, existimos em Deus.

Pe. José Artulino Besen

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  1. #1 por Ivone Maria Koerich Coelho em 16 de abril de 2013 - 22:08

    Pe. José! Que texto emocionante o Senhor escreveu. O Mistério de Jesus na Sagrada Eucaristia! O grande Mistério de nossa Fé.
    Jesus em nós e nós em Jesus… Mistério de amor de imenso amor, Amor de Deus. Que alegria acreditar neste Mistério de amor…

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