PAPA FRANCISCO – O RETORNO AO ESSENCIAL

A imagem mostra o Papa Francisco sorridente e ao seu lado o cardeal brasileiro Dom Raymundo Damasceno (Foto: Monsenhor Antônio Luiz Catelan)

A imagem mostra o Papa Francisco sorridente e ao seu lado o cardeal brasileiro Dom Raymundo Damasceno (Foto: Monsenhor Antônio Luiz Catelan)

Se o grão de trigo que cai na terra morre, produzirá muito fruto (João 12, 24). A eleição do papa Francisco me faz lembrar a renúncia de Bento XVI, e a renúncia de um papa significa a morte para o poder, o prestígio de seu Sucessor de Pedro e o coloca no silêncio da vida cristã, no serviço da oração e do aconselhamento. Foi essa morte que trouxe à Igreja e ao mundo a alegria de receber o fruto de um papa do Sul do mundo e, não por isso, mas por ser identificado com os pobres da terra, tão numerosos. O grande dado que emerge da vida do então arcebispo de Buenos Aires é a simplicidade e o amor aos pobres, residir num apartamento, fazer as refeições em bares ou ele próprio cozinhar, servir-se do transporte coletivo, acompanhar seus padres nas paróquias necessitadas.

Deve ter tido muitas responsabilidades, entre elas a presidência da Conferência episcopal argentina, merecendo a confiança de seus irmãos no episcopado. O principal, porém, é a lembrança da bondade e da misericórdia. “A bondade tornou feliz minha vida”, afirmava o Papa Bom, João XXIII.

Imagem mostra o Papa Francisco no ônibus conversando com um religioso. A marcação, feita pelo missionário brasileiro Frederico Oliveira, mostra o pontífice (de branco) sentado e do seu lado esquerdo está o cardeal brasileiro Dom Raymundo Damasceno (Foto: Frederico Henrique de Oliveira/Canção Nova)

Imagem mostra o Papa Francisco no ônibus conversando com um religioso. A marcação, feita pelo missionário brasileiro Frederico Oliveira, mostra o pontífice (de branco) sentado e do seu lado esquerdo está o cardeal brasileiro Dom Raymundo Damasceno (Foto: Frederico Henrique de Oliveira/Canção Nova)

Foi muito bom, para nós católicos, escutar a palavra “misericórdia”, a principal bem-aventurança cristã e a essência de Cristo e de seu Pai. A revelação cristã encontra seu apogeu no Pai do Filho pródigo e no Senhor cercado de pobres, doentes, pecadores.

Papa Francisco pedia – e pede-nos – que sejamos misericordiosos e isso faz-nos recordar a Carta de Bento XVI “Deus é amor”.

Ao aceitar o ministério de Bispo de Roma e de presidir as Igrejas na caridade o Cardeal Bergoglio logo anunciou seu nome: quero ser chamado de Francisco. Um nome luminoso, transparente, que recorda a figura amada do Santo de Assis, o Pobre. Francisco não criticou a Igreja de seu tempo, rica e poderosa, ele quis viver a pobreza e a penitência, anunciando o amor de Jesus e cantando o esplendor da criação.

Nova foto mostra o Papa Francisco (de branco) sentado no ônibus em meio a cardeais e religiosos (Foto: Monsenhor Antônio Luiz Catelan)

Nova foto mostra o Papa Francisco (de branco) sentado no ônibus em meio a cardeais e religiosos (Foto: Monsenhor Antônio Luiz Catelan)

Sendo da Ordem dos Jesuítas, papa Francisco nos recorda um outro nome luminoso e intrépido, São Francisco Xavier, o apóstolo da Índia, do Japão, do Extremo Oriente, padroeiro das Missões. A Nova Evangelização é o impulso renovado da missão, do Ide pelo mundo anunciar o nome daquele que salva, Jesus Cristo. Dois Santos protegem o nome do Papa e Santos que viveram tão pouco para a grande obra que realizaram: o de Assis viveu 44 anos, o Xavier, 46 anos.

Quando o Papa se apresentou no balcão de São Pedro passou duas imagens: firmeza e doçura. Não estava feliz ou embaraçado pela missão que tinha aceito: estava seguro e em casa. Ao dar o “boa tarde” mostrou-se um conhecido entre conhecidos, pois essa saudação nós reservamos para encontros informais, amigos, fraternos. Sentiu-se em casa por ser o novo Bispo de Roma, da Igreja que preside as outras na caridade. Tão em casa que já anunciou o primeiro compromisso: na manhã seguinte foi à basílica de Santa Maria Maior rezar diante do ícone Salus Populi romani – Maria, salvação dos romanos, tão amado pela Cidade eterna e reproduzido em centenas de esquinas.

Francisco é o 266º bispo de Roma e, assim se apresentando, mostrou que o bispo tem de ter sua diocese, que a história do bispo de Roma ser chamado de Papa-papai tem origem em sua paternidade espiritual e material para com aquele povo no decorrer da história. Paternidade não é prestígio, arrogância: é amor e responsabilidade. Não se referiu aos títulos de Vigário de Cristo na Terra, Sumo Pontífice. Bispo.

Na sua saudação ao povo, escolheu para estar a seu lado dois nomes: um dileto amigo, o Cardeal brasileiro e franciscano Dom Cláudio Hummes, e o Cardeal Vallini, seu vigário para a diocese de Roma.

Papa Francisco, inclinou-se perante a multidão que o celebrou na Praça de São Pedro. Gesto que não passou despercebido

Papa Francisco, inclinou-se perante a multidão que o celebrou na Praça de São Pedro. Gesto que não passou despercebido.

Irmãos e irmãs, vamos nos abençoar

A beleza cristã se manifestou quando Francisco pediu que o povo invocasse a bênção sobre ele, porque depois abençoaria o povo. Gesto inusitado, o Papa abaixou a cabeça para que invocassem a bênção sobre ele, e a multidão calou-se imediatamente, e a TV mostrou-a séria, invocando a bênção, sentindo-se responsável pelo Papa..

A bênção não é um gesto ritual neutro: traz, de fato, a graça de Deus a quem a pede. Um cristão pode abençoar um pagão, um muçulmano pode abençoar um cristão, um pecador pode abençoar o virtuoso, pois a bênção não é propriedade humana, mas força divina invocada. Podemos imaginar o poder que os pais têm de abençoar os filhos, o povo de abençoar o padre, e os padrinhos, abençoarem os afilhados. Ao respondermos “Deus te abençoe” estamos mediando a força de Deus a quem pediu para ser abençoado.

Iniciando o ministério petrino rezando com a multidão os tradicionais Pai nosso-Ave Maria-Glória ao Pai, papa Francisco faz-nos retornar ao essencial da fé cristã: o Deus Trindade e nossa Mãe Maria invocados em todo o tempo e lugar pela oração. E a oração opera na caridade, a presença de Deus nos conduz à misericórdia. Não se faz necessário um grande projeto, complicações teológicas quando se retorna ao essencial: a Jesus que se retirava para a oração ao Pai depois de um dia cercado de pobres, aleijados, pecadores, os miseráveis da história. E a eles retornava depois de rezar ao Pai.

Tudo indica que chega ao fim a era do papa rei, da corte pontifícia. E de bispos príncipes e cortes episcopais.

O Espírito que fala às Igrejas nos surpreende e, através do Papa argentino que veio do fim do mundo – segundo suas palavras – nos faz retornar à simplicidade, a beber no poço do Evangelho e dos humildes. O “fim do mundo” é o tesouro da Igreja, onde estão escondidas as riquezas cristãs: os pobres que não se deixam abater pelo pessimismo e na simplicidade vivem a fé cristã e abastecem a Igreja pela força de sua confiança em Deus. Não é por acaso que o Catolicismo cresce na América latina e na África. Terras de pobres e excluídos.

Pe. José Artulino Besen 

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  1. #1 por Ademar Arcângelo Cirimbelli em 15 de março de 2013 - 13:05

    Excelente matéria, Padre Besen! Temos, agora, o Papa da Esperança e da Humildade.

  2. #2 por osnildo maçaneiro em 15 de março de 2013 - 16:09

    Bonito comentário, gostei, e viva o PAPA FRANCISCO!!!

  3. #3 por Aluizio Brand em 15 de março de 2013 - 18:51

    Aluizio Brand
    Não tenho comentario a respeito do novo lider da Igreja catolica. Concordo com as suas palavras muito bem colocadas e respeito esse novo lider de nome até agora jamais usado por um pontifice. Confio plenamente em S.S. Francisco

  4. #4 por Celso Loraschi em 15 de março de 2013 - 19:19

    Caro Pe. Besen!
    Os sinais de Deus no meio de nós são bem evidentes. Seus apelos são claros. A esperança que ele desperta em todos nós, no jeito de ser do novo papa, é motivo de alegria e de louvor… Podemos, sim, retornar ao essencial, viver fraternalmente e, em mutirão, construir um mundo de justiça e paz.
    Obrigado por este e por todos os seus artigos. Indica-nos o caminho do seguimento de Jesus pobre e servidor.
    Um grande abraço.
    Celso Loraschi

    • #5 por José Artulino Besen em 17 de março de 2013 - 10:24

      Celso, é bom ler sua mensagem: o jeito do papa Francisco suscita alegria e louvor. Na verdade, a fé cristã deve ser, sempre, fonte de alegria. Não se constrói fraternidade sem a alegria de vivermos todos como irmãos. Muito obrigado.

  5. #6 por Gilson Pereira de Melo em 15 de março de 2013 - 22:10

    Duas palavras e gestos me fizeram entrar no estado de muita emoção e religiosidade: o pedido de benção para o Bento XVI e para ele próprio. Achei em tudo que inclui nessa atitude, a própria vibração de Deus. Emocionado eu senti que esse veio com a mesma Luz do iluminado João Paulo II, que é a Luz de Deus, que vai inspirar os filhos de Deus , a subirem mais um degrau na escala infinita da evolução humana.
    Não poderia deixar de repetir também suas palavras Pe. Besen quando afirma:
    “A bênção não é um gesto ritual neutro: traz, de fato, a graça de Deus a quem a pede. Um cristão pode abençoar um pagão, um muçulmano pode abençoar um cristão, um pecador pode abençoar o virtuoso, pois a bênção não é propriedade humana, mas força divina invocada. Podemos imaginar o poder que os pais têm de abençoar os filhos, o povo de abençoar o padre, e os padrinhos, abençoarem os afilhados. Ao respondermos “Deus te abençoe” estamos mediando a força de Deus a quem pediu para ser abençoado.”
    Além de revelar uma realidade Divina tão pouca conhecida, as palavras ficou como um poema gracioso.

    • #7 por José Artulino Besen em 17 de março de 2013 - 10:28

      Gilson, lembro não só João Paulo II, mas, de modo particular Bento XVI, cuja humildade e sabedoria demonstradas ao renunciar, abriu caminho para um tempo de bênção e simplicidade na Igreja. Grandes homens que se completam e revelam novas faces do único Evangelho.

  6. #8 por Alexandre Borges em 16 de março de 2013 - 10:56

    O outro Francisco sonhou que Deus lhe pedia para “construir a sua Igreja”, neste Francisco a Igreja deposita o seu sonho de que ela seja novamente reconstruída. A imagem de Deus vai se refazendo nas figuras que o conhecem mais profundamente e estes nos levam a conhecer as mais variadas e humanizantes faces do Deus Amor revelado em Jesus. Obrigado pelo texto, padre amigo! Sempre um prazer ler!

  7. #9 por José Artulino Besen em 17 de março de 2013 - 10:21

    Alexandre, “reconstruir novamente” parece repetitivo, mas é verdadeiro: nunca a Igreja estará pronta, nunca os cristãos vivenciarão plenamente o Evangelho, pois a imagem e semelhança de Deus que habita nós e o mundo busca a perfeição. Podemos lembrar a palavra de São Francisco: “irmãos, pouco o nada fizemos. Vamos recomeçar!”.

  8. #10 por Brandão em 18 de março de 2013 - 21:23

    `Pe, Besen, o senhor sempre brilhante em suas reflexões, parabéns!. Quanto ao novo Papa, cada dia me encanto ainda mais por sua simplicidade, e de fato mostra-se claro a importância de se viver o que é essencial especialmente no que se refere a fé e a prática da obra Cristã. Estou repleto de esperança e confiança com os novos rumos da Igreja sob a orientação do Papa Francisco. Pois percebo que a Igreja engatinhou durante quase dois mil anos,no que se refere a uma vivencia segundo o espírito. A riqueza e o poder afastou muitos pastores da comunhão com Cristo.Está na hora de buscar uma reconciliação!! Que Deus nos abençoe e nos conduza para sua companhia nas moradas celestiais! amém.

    • #11 por José Artulino Besen em 19 de março de 2013 - 08:15

      Brandão, a Igreja sempre está em estado de reforma, de conversão. Quando se sente satisfeita consigo e se esquece de suas fraquezas cai na tentação do poder.

  9. #12 por Jaqueline Emmendorfer em 21 de março de 2013 - 16:21

    Padre José, o fim da era do papa rei, da corte pontifícia, de bispos príncipes e cortes episcopais, já acabou! Lembra!?! Paulo VI já fez isso no C.V. II. Ou nós estamos falando se subjetividades, ligadas geralmente a obediência da liturgia e vestes?! Ou carreirismos, paroquiais, curiais e acadêmicos? Paróquias ricas, o senhor bem sabe como é, já foi pároco de algumas delas. Ou cargos acadêmicos, de não perder certas cadeiras?
    Cuidado, sobre o pretexto da humildade pode se estar na verdade escondendo carência afetiva de chamar a atenção sobre si. De abdicar da obediência. Querendo trazer um velho sonho ver o “Dom Helder de branco” firmado pelo pacto das catacumbas como “pobre para os pobres”. Mas ele era obediente, pobre de veras na sua surrada batininha cinza ondulada pelos ventos de misera Olinda. Não pelas roupas caras, de marcas chiques cintiladas pela maresia da beira-mar norte, patrocinadas pelo esbanjamento dos altos salários de esportulas.
    O senhor mesmo nos lembra sobre o saudoso Dom Joaquim, nobre na sua batina que escondia meias furadas, camisas velhas e calças remendadas. Era príncipe de Deus, pastor dos pobres de espírito e conde duma corte que reunia seus filhos sacerdotes. Cuidado, vemos o que queremos ver e queremos que os outros (Papa Francisco) ajam como como bem queremos. E no final seria bom mesmo! Mas a pergunta na prática é? Como fica o príncipe da Ilha? O palácio da Esteves Júnior? A corte curial e pastoral? E os párocos imperadores, que mandam mas não obedecem? Aí sim, queria ver acabar a era do papa rei, da corte pontifícia. E de bispos príncipes e cortes episcopais.

  10. #13 por Luiz Heleno Castro em 22 de março de 2013 - 16:18

    Pe. Besen, show de bola esse texto, estava na torcida não por um brasileiro, italiano, um europeu do leste, no caso da Hungria seu bispo Peter Erdõ, mas ja que foi obra do Espirito Santo legal. Foi, pela primeira vez, um Papa fora da Europa, um sul-americano. Gostei já do seu jeito simples, do povo, ou seja, sem muita firula. Acho que ele vai reerguer a Igreja tirando os corruptos cardeiais infiéis .
    que DEUS ILUMINE O NOSSO PAPA FRANCISCO! AMEM

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