OS CARDEAIS EM BUSCA DA VERDADE E DA LIBERDADE CRISTÃS

O Papa é Pedro e Paulo a serviço do Evangelho - Rembrandt

O Papa é Pedro e Paulo a serviço do Evangelho – Rembrandt

Há exatamente 1.700 anos, no ano 313, o imperador romano Constantino publicava o Edito de Milão, pelo qual a todos os habitantes do Império era facultado seguir a religião que seguissem ou escolhessem. Com isso, o Cristianismo recebeu o dom de existir em paz e livre no território imperial. Terminava o tempo das perseguições. O Imperador, animado por sua mãe Helena, doou para moradia do bispo de Roma, o Papa, o Palácio lateranense, e multiplicou a construção de grandes basílicas em Roma e na Palestina.

Nessa hora, a Igreja recebeu o enorme dom da liberdade e recebeu, também, o enorme perigo do poder e da riqueza. A história nos mostra que todas as instituições, ao receberem o poder, dão valor menor à liberdade. O mesmo Cristianismo que lutou pela liberdade religiosa no Império, oitenta anos depois conseguiu de Teodósio que o paganismo fosse banido e todos fossem obrigados a professar a fé cristã. Não nos compete, aqui, analisar o significado da assim chamada “igreja constantiniana”, pois a história é mestra e não suporta cirurgias plásticas. Uma coisa, no entanto, podemos afirmar: muitos católicos sonham ainda com o espírito de Constantino, sonham com um mundo que não os questione, que aceite tudo o que vem da Igreja, um mundo que declare: “A Igreja está certa, procuremos nela os caminhos para os desafios da sociedade e do governo global”. Se colocassem em lugar de Igreja a palavra Evangelho, não afirmariam esses desejos, porque o Evangelho é da vida e da liberdade e a Igreja é servidora do mundo e dos homens.

O poder que traz riqueza se sustenta com dois alimentos: a mentira e a desconfiança e suas armas são a chantagem e o medo. É possível alimentar a Igreja desse modo? Alguns acham que sim e, recebendo poder na Igreja, alimentam escândalos de toda ordem e querem ter o direito de serem preservados de uma luz que manifeste ao mundo suas torpezas, se esquecendo que o Senhor é Luz do mundo. A nossa história de católicos, hoje, está revelando ao mundo os frutos do fascínio pelo poder, de nossa auto-suficiência, nossas despesas imensas com aquilo que se refere às aparências, à organização, aos palácios e pompas litúrgicas. Não generalizemos, pois o Corpo da Igreja é o Corpo de Cristo: há feridas, tumores, mas nele resplende a face gloriosa de seu Senhor.

Na Idade moderna os Estados chamados católicos (Itália, França, Espanha, Portugal, Áustria, etc) apoiaram a Igreja, mas o preço foi excessivo: a perda da liberdade, os bispos sendo nomeados pelos governos. Quando o Padre Rosmini (1797-1855) afirmou que “uma instituição que cede a outra o direito de nomear seus ministros cede-lhe a própria existência”, foi condenado por Pio IX e Leão XIII. Achava-se que era sinal de prestígio o rei nomear o bispo.

Como a história é mestra, em 2007 Bento XVI o declarou Bem-aventurado. Acusavam também o Cardeal Newman (1801-1890), um grande convertido inglês, de não ser bem católico e comprometer a verdade da revelação com sua doutrina da consciência. Pois bem: Bento XVI o beatificou em 2010, e na Inglaterra. Creio que num dia Bento XVI será o Santo da liberdade da Igreja.

A busca dolorosa e sem fim da liberdade

Voltemos ao nosso tema. Pelo século VIII, foram-se formando os Estados Pontifícios, que consumiram enormes energias da Igreja, levaram papas a chefiarem exércitos, foram fonte de desmandos, corrupção do poder e terminaram em setembro de 1870 com a conquista de Roma. Pio IX, o último Papa Rei, excomungou os vitoriosos. Um século depois, o papa Paulo VI quis que uma Missa de Ação de Graças fosse celebrada para agradecer a Deus a perda desse poder e o dom da liberdade. Eleito Papa, doou sua tiara-coroa para promoverem uma rifa pelos pobres.

Em 1929 foi constituída a Cidade-Estado do Vaticano. Um pequeno território de 490 hectares, dentro de Roma. Era uma necessidade para que a Igreja fosse livre. Leão XIII declarou que lhe bastaria um metro quadrado, onde pudesse falar livremente. Não se pode negar o benefício desse Estado para a ação do Papa. Mas, não se deve deixar de ter presente que um pequeno país, com burocracia e com um banco, corre sempre o risco inerente ao poder: o carreirismo, a corrupção, a mentira e a ostentação que podem impedir ao Papa de enxergar, com verdade, a verdade do catolicismo.

Os Cardeais que participarão do próximo Conclave (12 de março) terão isso muito presente: olhar a Igreja com os olhos do Senhor Crucificado e Ressuscitado, na sua glória sem fim e na sua dor lancinante, que são a dor e a glória do povo católico e das Igrejas semeadas pelo mundo ao preço da fé, da generosidade, do sangue, da doação da vida.

O Colégio dos Cardeais estará diante da memória de um ancião que permitiu que as feridas fossem abertas, que o pecado fosse publicado de cima dos telhados, que reputações formadas à sombra dos segredos e poderes hierárquicos fossem demolidas, que as finanças do Banco vaticano fossem expostas para serem saneadas: Bento XVI. O Espírito que fala às Igrejas fala agora ao Colégio apostólico.

O mundo fala da Igreja e do Conclave como de um país a escolher seu soberano. Ele foi induzido a pensar e julgar desse modo. Mas podemos ter certeza de que eles estão tendo os olhos transfigurados diante desses homens estranhos, vestidos com púrpuras, mas que não estão se candidatando, não se digladiam, não se derrubam. São 3.600 jornalistas credenciados para acompanhar o Conclave. Difundem por todo o mundo a mais estranha e impotente eleição: de um homem que se vestirá de branco e cuja eleição será confirmada por uma fumaça branca numa chaminé da Capela Sistina. Esse homem vestido de branco, o 265º bispo de Roma, pescador como Pedro, servo dos servos de e Papa da Igreja católica, receberá como missão buscar a pobreza e a liberdade cristãs. Os jornalistas verão um homem que vem da grande tribulação, que procurará alvejar as vestes no sangue do Cordeiro. Tudo isso é tão estranho que é notícia para toda a humanidade.

O mundo espera, e tem direito de esperar, uma Igreja serva da pobreza, da verdade e da liberdade.

Pe. José Artulino Besen

Anúncios
  1. #1 por Regina em 9 de março de 2013 - 22:41

    Cada vez mais vejo o quão importante é ter acesso à informação! Poder partilhar do ponto de vista, de um membro tão atuante como o senhor Padre,

    • #2 por José Artulino Besen em 10 de março de 2013 - 10:59

      Regina, obrigado pelo incentivo. Estamos sempre aprendendo e partilhando.

  2. #3 por Ivone Maria Koerich Coelho em 11 de março de 2013 - 11:14

    Muito importante este seu artigo Padre José. Tenho muita esperança neste homem vestido de branco. E como o Senhor escreveu tão bonito:que verão um homem que vem da grande tribulação,e que procurará alvejar as suas vestes no sangue do Cordeiro.

  3. #4 por José Artulino Besen em 12 de março de 2013 - 06:54

    Ivone, a história sempre nos revela a Igreja como santa e pecadora. Santa em Cristo, pecadora em nós. Nossa resposta sempre será o louvor e o pedido de misericórdia.

%d blogueiros gostam disto: