BENTO XVI – A IGREJA SE RENOVA SEMPRE

Papa Bento XVI com o Evangelho

Papa Bento XVI com o Evangelho

Com a anunciada renúncia de Bento XVI à Sé de Pedro para o dia 28 de fevereiro, abriram-se as comportas para a tempestade de avaliações, profecias, críticas, elogios aos anos de seu Pontificado (2005-2013). A imprensa, escrita, falada e televisionada, tem compromisso com o instante da notícia, e cada vez mais.

A rapidez da comunicação, porém, oferece oportunidade para se destilar o veneno da maledicência, do instinto anti-católico, da ambigüidade, das afirmações categóricas, da alegria frente ao presumido fracasso de Bento XVI.

Bento XVI, no Conclave que o elegeu em 2005, era o homem com o mais profundo conhecimento da Igreja e de suas estruturas, especificamente do Vaticano. Sacerdote, filósofo e teólogo, desde 1981 era o Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, que alguns gostam de recordar “a antiga Inquisição”. Por ela passam os problemas teológicos, éticos e morais da Igreja católica. Por ele passaram as denúncias a respeito de ambigüidades teológicas, desvios de comportamento, movimentos com tendências heréticas ou cismáticas.

Em 19 de abril de 2005, os Cardeais que elegeram Papa o Cardeal Joseph Ratzinger tinham consciência de sua condição única. Queriam que Bento XVI completasse o ciclo pontifício iniciado em 1978 com João Paulo II e que agora é encerrado, em suas linhas principais.

Ratzinger não queria ser Papa: pela idade e por sua tendência à reflexão, ao estudo, não à ação concreta. Queria apenas ser teólogo, e teve de aceitar ser Papa numa hora de turbulência na política internacional, do terrorismo, das primaveras árabes, do secularismo da Europa, de crises na vida católica, no diálogo ecumênico e inter-religioso, do relativismo moral.

Bento XVI e seu irmão, Mons. Georg Ratzinger

Papa Bento XVI e seu irmão, Mons. Georg Ratzinger

O Sucessor de Pedro na Barca de Pedro

Fruto de seu caráter e formação cristã, Bento XVI não ocultou os problemas, pois desejava ter uma radiografia da Igreja católica. Dela surgiu a beleza da Igreja missionária, mártir, testemunha da justiça, da solidariedade, respeitosa das consciências, Igreja de santos; e as conseqüências de sua estrutura visível, ultimamente dando um espetáculo doloroso de maus costumes, calúnias, jogos de poder, ambições sem freio, violências. Bento XVI teve diante dos olhos a grandeza dos discípulos de Cristo espalhados por toda a terra e a pequenez de cristãos que traem o compromisso do discipulado espalhando escuridão ao invés de serem luz do mundo, sal da terra.

O Papa Bento XVI não foi omisso, como gostam de afirmar. Transferiu para a Santa Sé os processos de pedofilia e exigiu dos bispos atitudes firmes e concretas, estabelecendo legislação dura. Por onde andou recebeu vítimas dessa violência, pediu perdão em seu nome. Bispos omissos/envolvidos tiveram de renunciar, fato raríssimo na história. É claro, o Papa não pode prender ninguém. Rompeu as conversações com os Tradicionalistas, ao não ver neles a disposição para aceitarem o Concílio. Trouxe para a administração do Banco do Vaticano homens de comprovada competência internacional. Aceitou as exigências bancárias da União européia para que o banco vaticano recebesse o certificado de isenção de lavagem de dinheiro, o que mexeu com interesses escusos. Sua última nomeação foi exatamente para esse Banco.

O ponto de partida do julgamento da grande imprensa é, também, o pensamento de muitos católicos: a Igreja é uma grande estrutura e o Papa é seu administrador. Bento XVI falou aos padres romanos em seu último encontro: “A Igreja não é uma estrutura. Ela é constituída pelos cristãos que formam o Corpo de Cristo”.

O Vaticano é um país com meio quilômetro quadrado, 960 habitantes, três mil funcionários e com relações diplomáticas com 213 estados e organismos. Uma máquina complicada, pesada, cercada de santidade e de sombras. E o Papa tem de conduzir, como bom pastor, 1,2 bilhão de católicos espalhados pelo mundo. Nessa imensa tarefa não se podem esperar ações unilaterais, correndo-se o risco do cisma, do naufrágio. Evidente que faz sentido a pergunta: é necessário esse envolvimento político e administrativo no coração da Igreja? Não se estaria na hora de uma organização pastoral colegial, de uma Igreja pobre falando com a voz dos leigos, homens e mulheres, dos pobres?

Joseph Ratzinger trabalhou para que a Igreja mostrasse ao mundo a face resplandecente de Cristo e não escondeu sua face sofredora, machucada pelos nossos pecados. “A Igreja de Bento XVI é de fé cristã. Não fé genérica nem abstrata ou ideológica, mas fé numa pessoa concreta e histórica, Jesus de Nazaré, a quem se decide seguir livremente. Ele permanece a síntese perfeita do amor de Deus pelo homem que os crentes devem traduzir em amor real e concreto pelo próximo”, escreveu o Jornal do Vaticano.

No domingo, dia 10, postou no Twitter: “Devemos confiar  na grande potência da misericórdia de Deus. Somos todos pecadores, mas sua graça nos transforma e nos faz novos”. Num encontro com seminaristas, dois dias antes: “A Igreja se renova sempre, renasce sempre. O futuro é nosso”.

Pe. José Artulino Besen

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  1. #1 por Ebrael Shaddai em 18 de fevereiro de 2013 - 09:55

    Confesso que, influenciado pela midia e afastado da Igreja, no inicio do Pontificado de S.S. Bento XVI, eu tinha muitas reservas em relação a ele.

    No entanto, sua ação firme – apesar de ver em seus discursos palavras que jamais poderiam ter sido escritas por suas mãos -, sua catequese reformadora e que clamava pela conversão genuína e sua decência, me fizeram mudar radicalmente de opinião.

    Tenho certeza que não fui o único a quem ele ajudou a trazer de volta à comunhão da Igreja, mas sim a muitos outros milhares ou milhões, por seu exemplo, por sua Luz ao Mundo!

    Oremos por Sua Santidade! 😀

  2. #2 por José Artulino Besen em 18 de fevereiro de 2013 - 15:02

    Ebrael Shaddai, a grande característica de Bento XVI é o tema da fé que opera da caridade. Sua Carta “Deus é amor” retrata seu coração sacerdotal. O fato de ser alvo de tantos ataques é positivo, pois a perseguição por Cristo é uma bem-aventurança.
    Claro que é necessário caminhar muito, retornar a uma Igreja pobre e dos pobres, como preconizou o Concílio Vaticano II.

  3. #3 por Ebrael Shaddai em 18 de fevereiro de 2013 - 17:18

    É preciso enfrentar a “selva” de perigos do submundo em que estão imersos os desfavorecidos, encarar tanto a miséria que os acossa como o ódio que se apossou de muitos deles. Se conseguirmos, então será sinal de que conseguimos domar nossa própria “selva” de vaidades e desobediência a Deus.

    Sim, o Papa Bento XVI me ajudou com seu exemplo (como nessa Carta e em suas Encíclicas), suas palavras ora confortantes ora severas, a voltar a ser mais dócil ao apelo de misericórdia de Deus Pai, sem a qual já teria perdido minha família devido aos meus pecados, já perdoados por nosso Pai.

    A cada Angelus, a cada homilia e catequese, ia me apaixonando pelo estilo educador do Santo Padre. Foi então que me voltei à Igreja como filho pródigo, extremamente grato por toda a misericórdia que Deus que, por meio de seus santos anjos e orações de parentes, me salvou de um abismo sem voltas.

    Sim, dessa vez realmente desejo continuar em comunhão com Bento XVI, mesmo após a renúncia, em oração.

    Um abraço em Cristo e boa semana ao senhor! 😀

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