BENTO XVI – UM DISCÍPULO DE EMAÚS

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No Consistório das 11h da manhã de 11 de fevereiro de 2013, os Cardeais convocados pelo Papa tinham como agenda a aprovação de três canonizações: duas latino-americanas e os Mártires de Otranto, na Itália, vítimas dos turcos. Esses mártires impressionam pela coragem e pelo número: 800 santos, praticamente todos os moradores de Otranto que preferiram a morte cruel a abandonar a fé cristã.

Canonizações aprovadas e a surpresa: Bento XVI anuncia que deixará o ministério petrino às 20h do dia 28 de fevereiro próximo.

Houve renúncias de Papas, a mais significativa sendo a de São Celestino V, papa de 29 de agosto a 13 de dezembro de 1294. Era um velho e santo monge, há mais de 60 anos vivendo nas montanhas como eremita, no silêncio e na oração. O Conclave que o elegeu durava 27 meses, pois os Cardeais não entravam num acordo. Celestino não chegou a Roma, fixando-se em Gênova.  Dentro do palácio construiu uma pequena cela de palha para prosseguir como monge. Isso não poderia continuar, pois os problemas se acumulavam e o Papa não tinha nenhum apetite de governo. Nessa hora o espertíssimo e inteligente Cardeal Caetani foi conversar com ele e convenceu-o à renúncia. Em seguida o próprio Caetani é eleito Papa, com o nome de Bonifácio VIII.

O povo estava felicíssimo com a eleição de um monge espiritual para Papa. Existiam até profecias de que, com um papa espiritual, teria início a Igreja do Espírito, uma Igreja sem instituições visíveis. Celestino V seria esse homem da Providência. Ao renunciar, e indo de volta ao mosteiro, formou-se imensa procissão para acompanhá-lo, procissão que esperava um tempo novo para o cristianismo. Bonifácio VIII, muito esperto, deu um jeito e prendeu Celestino V, que ficou muito feliz podendo viver como monge numa cela. Morreu em 19 de maio de 1296 e foi canonizado 17 anos depois, mas com o nome de São Pedro Morrone.

Bento XVI tomou a decisão de renúncia pelo mesmo motivo: o amor incondicional à Igreja de Jesus Cristo. Suas forças definham visivelmente. João Paulo II decidiu ser Papa até os últimos dias, assumindo o ministério da Cruz pela Igreja. Bento XVI escolheu o caminho da renúncia humilde, silenciosa, no pleno domínio de suas condições humanas e intelectuais. Todos os papas são sucessores de Pedro, cada um a seu modo.

O polonês João Paulo II, em 1978, iniciou o pontificado pedindo que o mundo abrisse as portas a Cristo, que não tivesse medo do Senhor. Era um novo Moisés, cheio de energia e vitalidade, assumindo o encargo de conduzir o Povo cristão ao Terceiro Milênio. O alemão Bento XVI assumiu apresentando-se como humilde servidor da vinha do Senhor. Era um ancião, um grande teólogo, um pastor como Jesus e pescador como Pedro.

O Papa não tomou a decisão da renúncia (um ato pessoal e livre, sem necessidade de aprovação) em meio a tumultos na vida eclesial, a grandes problemas, o que não seria de seu caráter e postura de homem de fé. Enfrentou a questão da pedofilia nas fileiras clericais e religiosas, aceitou logo a renúncia de bispos com problemas, tomou decisões duríssimas no tocante à vida interna da Igreja e de congregações religiosas, sem receio de expor ao mundo as feridas do corpo de Cristo, as fraquezas daqueles que deveriam ter sido fortes. Não deixa em Testamento uma Igreja vitoriosa, mas deixa o testamento da luta pela verdade do Senhor, sempre. Nada nele inspirou o sonho de uma Cristandade revivida, não o impressionavam os números de católicos, e sim, os discípulos de Cristo.

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Fica conosco, Senhor

Seu lema papal foi: Cooperatores veritatis – Colaboradores da Verdade. E a Verdade não é uma teoria, um código moral: é uma pessoa, Jesus Cristo, o Filho de Deus. Essa foi sua missão, e é a missão dos cristãos.

Para quem acompanhou o teólogo, mestre espiritual, sacerdote e cardeal Joseph Ratzinger, leu os textos de Bento XVI, uma imagem aparece como pano de fundo: os Discípulos de Emaús. Muitas vezes escreveu e falou sobre esse encontro entre os dois homens que retornavam a Emaús e se encontraram com o Senhor, mas sem reconhecê-lo (Lucas 24, 13-35). Jesus explicou-lhes as Escrituras e entrou na casa deles. Ao partir o Pão, eles o reconheceram. E Jesus continuou seu caminho.

Bento XVI insistiu – e insiste – na realidade de que as pessoas e comunidades cristãs nascem da audição da Palavra de Deus e da Eucaristia. Ele presidiu a dois Sínodos com esses temas fundantes da fé cristã. Numa entrevista, o então Cardeal Ratzinger afirmava que o Cristianismo não é a fé dos números, das grandes instituições e organizações, mas a fé dos discípulos, daqueles que, após um encontro pessoal com o Senhor, decidem por segui-lo e anunciá-lo.

Naquele dia, na viagem de Jerusalém a Emaús, anoitecia. Os discípulos pediram ao Senhor: “Fica conosco, Senhor, pois já é tarde e a noite vem chegando”.

Em seu último aniversário, o Papa se referiu ao fato de estar chegando ao limiar da existência. Humilde e confiantemente pede ao Senhor que fique com sua Igreja: “Fica conosco, Senhor”, pois percebe que, para ele, a noite vem chegando. Não a noite das trevas, mas a noite que revela a Luz sem ocaso.

Pe. José Artulino Besen

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  1. #1 por Regina em 11 de fevereiro de 2013 - 22:35

    A verdade será sempre o camnho mais longo? Poderão existir meias verdades, nossa vida pode parecer grande engano?

  2. #2 por José Artulino Besen em 12 de fevereiro de 2013 - 13:15

    Regina, a verdade é buscada por toda a vida. O caminho para ela não é mais longo nem mais breve. É o caminho. Se buscarmos a verdade com todas as suas consequências, nunca seremos enganados. Se, pelo contrário, nos contentarmos com meias verdades, o encontro será com o nada.

  3. #3 por Ariel Philippi MAchado em 13 de fevereiro de 2013 - 08:16

    Padre Besen, parabens mais uma vez. Texto magnifico. Bento XVI revela-se sabio, sacerdote do Senhor.

  4. #4 por José Artulino Besen em 13 de fevereiro de 2013 - 20:15

    Ariel, Bento XVI, com seu gesto, deu o exemplo de vivenciar o sacerdócio em seu máximo grau, o da renúncia a qualquer ambição terrena, como consagração total à Igreja, Corpo de Cristo.

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