PARAÍSO CELESTE, PARAÍSO TERRESTRE

A criação, desperdício de Beleza

A criação, desperdício de Beleza

Deus tomou o homem
e o colocou no jardim do Éden
para o cultivar e o guardar (Gn 2,4-17).

O paraíso terrestre, onde Deus colocou o homem e a mulher, obriga-nos a fazer uma pergunta diante do mundo que temos: É esse mundo, cheio de sofrimentos, o mundo que Deus planejou para o ser humano? A Bíblia diz que não: para o homem, Deus reservou o paraíso! Depois, o Senhor Deus plantou um jardim em Éden, a oriente, e pôs ali o homem que havia formado. O texto bíblico não afirma que o ser humano foi colocado em qualquer jardim, e sim, num jardim plantado pelo próprio Deus. Isso revela o carinho divino por cada um de nós: tudo canta a glória de Deus, é verdade, mas tudo Deus fez para seus filhos.

Não podemos fazer uma leitura apenas literal da Escritura: imaginar que o paraíso fica num outro mundo ou é um lugar tão especial como nunca houve nem nunca haverá. O paraíso bíblico está situado no próprio mundo, que Deus achou muito bom (Gn 1,25) após tê-lo criado. No plano de Deus, a vida humana se situava num ambiente de bondade, de equilíbrio.

Alguns sinais bíblicos indicam em que consistia o paraíso. Primeiro, não havia solidão: homem e mulher se completavam em tal comunhão de vida que eram uma só carne. O homem e a mulher eram senhores da natureza, a tudo dominavam, não sendo escravos de nada: viviam em liberdade. A mulher dava à luz sem sofrimento: realizava na alegria sua missão de mãe. O trabalho não era visto como castigo, suor sofrido, mas colaboração com Deus no aperfeiçoamento da criação. Estavam livres da angústia da morte porque viviam em Deus. Estavam nus e não se envergonhavam (Gn 2,25): a nudez não significava fraqueza, falta de proteção, derrota, mas verdade, transparência, autenticidade. Homem e mulher se aceitavam como eram. Viver no paraíso incluía o respeito mútuo nas qualidades e defeitos. Por último, conversavam com Deus, “que passeava no jardim, à hora da brisa da tarde” (Gn 3,8). Estar em comunhão com Deus é o nosso paraíso.

Assim, a vida no paraíso não era viver na preguiça, tendo tudo pronto, Deus substituindo o trabalho humano. Era o estado de vida em que homem e mulher viviam em comunhão consigo mesmos, com Deus e com a natureza, em paz.

Sonhar com o paraíso é sonhar com o plano de Deus e esperar recuperá-lo.

Se a lembrança do paraíso de nossos primeiros pais evoca o sentimento da saudade, a fé no plano de Deus nos faz acreditar que, pelo nosso empenho, é possível restaurá-lo. E mais: o paraíso é construído ou destruído com nossa responsabilidade, pois nos foi entregue para dele cuidarmos.

Deus nos fez senhores de sua obra. Ser senhor é ser guardião, conservar, restaurar, embelezar, proteger. Ninguém, em são juízo, estraga o que é seu, por isso, diante da criação que nos foi entregue, nossa atitude é de amor e louvor. Tudo canta a glória de Deus.

Colaboração e louvor

Tudo vem de Deus, tudo é de Deus, mas tudo nos é confiado para que vivamos a dignidade de colaborar com o Criador através do trabalho incessante pelo qual transformamos a feiúra em beleza, a confusão em ordem, a cada dia refundando a obra divina.

Deus não tem ciúme de nossa competência, não se sente diminuído pelo progresso da ciência, pois também ela está em seus planos. Conta um sábio judeu que um homem cuidava de seu jardim, a cada dia deixando-o mais belo, plantava novas flores para que encantassem os visitantes. Sempre que alguém vinha visitá-lo, ao ver tanta beleza acabava dizendo: “Isso somente pode ser do senhor e de Deus”. E assim a cada dia, a ponto de o jardineiro sentir-se melindrado em dividir seu trabalho com Deus. Num dia, bastante irritado, respondeu: “Vocês falam sempre ‘isso só pode ser do senhor e de Deus’, mas, deviam saber o estado em que tudo isso se encontrava antes de mim!”. Tirando as invejas, é verdade: Deus confia que faremos sempre o melhor com o que nos deixou.

O Senhor também quer ser louvado pelo conjunto de sua obra. Louvá-lo é a melhor parte da oração e nos faz muito bem. Quando sabemos louvar, admirar, ser tomados pelo encanto da beleza temos mais saúde, alegria. Louvar a obra divina é alegrar o Criador. Entra aqui a sabedoria de um velho judeu alemão. Gastara os anos de sua vida, dia por dia, atravessando as noites, para estudar as Sagradas Escrituras. Sua vida era seu quarto, a lâmpada e o texto bíblico. Num dia, para susto de todos, ergueu-se e falou, decidido: “Vou para a Suíça!”. Ninguém conseguiu acreditar nessa notícia, nem entender o motivo, até que ele explicou: “Estive pensando que a morte está próxima, e acontecerá o julgamento diante do Senhor. E me veio à mente: e se o Senhor me perguntar ‘o que achou da beleza dos Alpes suíços?’, quanta vergonha sentirei, pois nunca estive lá. É o que vou fazer, enquanto tenho tempo”. Deus se alegra em sua obra.

Assim transcorre a vida no paraíso que recebemos e construímos: buscamos a paz em tudo o que fazemos, sabemos que tudo nos foi dado pelo Senhor que, por sua vez, espera tudo de nós, e quer viver como nós. Foi essa a razão pela qual, no tempo apropriado, enviou seu Filho, para ser um de nós, viver a experiência humana.

Pe. José Artulino Besen

  1. #1 por Augusto César Zeferino em 10 de fevereiro de 2013 - 16:48

    Prezado Besen:

    O jardim de Deus cresce em beleza com cada nova planta ali cultivada por cada um de nós, e você acabou de plantar um belo canteiro, pois cada parágrafo do texto coloriu com flores o jardim que devemos cultivar em nosso interior.

    Obrigado pelas flores.

    Eu e minha família ficamos felizes.

    Abraços,

    Augusto

    • #2 por José Artulino Besen em 11 de fevereiro de 2013 - 08:02

      Augusto César, em nossa fé e formação comum no Seminário aprendemos a valorizar o dom da admiração que leva ao fascínio. Isso torna feliz a nossa vida. Somos cercados e habitados por jardins. Sem o amor à beleza não há salvação. Um abraço, Pe. José

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