E DEUS CRIOU O SER HUMANO

Adão e Eva revestidos de luz - Igreja de Santa Maria - Maribor - Eslovênia

Adão e Eva revestidos de luz – Igreja de Santa Maria – Maribor – Eslovênia

«E Deus disse: ‘Não é bom que o homem esteja só.
Vou fazer uma auxiliar que lhe corresponda’. …
Depois, da costela do homem,
Deus modelou uma mulher e a trouxe ao homem».

(Gn 2,18-25).

O texto do livro do Gênesis 2, 18-25 é precedido de uma cena rica em simbolismo: Depois de ter criado a terra, os astros, as plantas e os animais, o Senhor fê-los passarem diante do homem, que a tudo deu nome, com isso tomando posse de tudo. Mas, com tanta coisa que lhe fora entregue, não estava feliz, pois não encontrara em nenhum deles uma companhia que vencesse sua solidão.

Seria mesmo estranho que o ser humano vencesse a solidão com terra, plantas, animais, riquezas naturais. Para o ser humano, somente um ser humano, pois o Senhor prometera: Vou fazer uma auxiliar que lhe corresponda.

A tudo o Senhor criou com fartura, em grande número, mas, somente o ser humano foi criado único, à imagem e semelhança dele e com uma missão própria e única em toda a criação. Ele, de certa forma, é a síntese de todas as obras divinas e pode entrar em comunhão com todas.

À imagem e semelhança de Deus, o ser humano encerra em si toda a beleza.

Um sábio judeu assim se refere à criação do humano:

Para criar o primeiro homem/mulher Deus tomou terra dos quatro ângulos do mundo, misturou-a com a água dos quatro oceanos e, depois, infundiu-lhe o sopro dos quatro ventos. Assim fez para que todos os povos fossem representados no primeiro homem, pois cada ser humano é filho do pó da terra dos quatro pontos cardeais, da água de todos os oceanos e do sopro dos quatro ventos.

Assim fez o Senhor para nos ensinar que todos os povos são iguais, nenhum sendo superior ao outro em natureza e cultura. E criou a humanidade de um único ser para sabermos que quem mata um ser humano está matando a humanidade inteira e quem salva um ser humano, também salva toda a humanidade.

Solidão e nudez

Voltemos ao homem que ficou na solidão, mesmo tendo tomado posse de tudo. No decorrer dos tempos ele procurou vencer a solidão com coisas, plantas e animais, mas não foi possível. Nossa sociedade solitária inventou os bichos de estimação – gato, cachorro, passarinhos – para não estar só. Uma pena, pois cada um está rodeado de tanta gente que é abandonada e poderia fazer-nos companhia. Devemos agradecer aos bichinhos que confortam e fazem companhia a tanta gente, mas não foi essa a solução oferecida pelo Criador.

O Senhor, ao contemplar Adão sentiu a solidão humana e fez um outro ser, a mulher, para companhia do homem que pulou de alegria, pois era carne de sua carne, osso de seus ossos. Uma companhia à altura. A Palavra não diz que somente a mulher faz companhia ao homem, pois muitos nem se casam. Ela ensina que o Senhor criou outro ser humano para companhia humana, criou o humano de outro humano: um filho que se consagra totalmente ao cuidado dos pais velhos, venceu a solidão; uma religiosa, um padre, que se consagram a uma comunidade ou obra de caridade encontraram companhia conveniente, um eremita vive sua solidão em comunhão com Deus e junto a ele intercede por todos. O que não se pode é fugir das pessoas e refugiar-se nas criaturas. Deus fez as aves do céu, mas somente o ser humano ele criou à sua imagem e semelhança.

Somente nós podemos fazer companhia a Deus.

O homem e a mulher estavam nus e não se envergonhavam (Gn 2, 24-25). O texto sagrado contrapõe essa afirmação positiva à outra, negativa: após o pecado, o homem e a mulher estavam nus e sentiam vergonha um do outro (Gn 3, 7). Seria empobrecer o texto bíblico ver nessas afirmações apenas a conotação sexual. Existem povos que passam parte da existência nus, e não se envergonham e, esses mesmos povos, cobrem-se nas estações frias.

Estar nu, a nudez, evoca a intimidade e a fragilidade. Ficar nu é arrancar as máscaras, os disfarces. Expor a própria fraqueza permite o desenvolvimento de uma história em comum. Se o ser humano oculta a verdade de si mesmo ao outro/outra, vive de engano e obriga o outro a viver também de engano.

É um esforço grande, positivo e necessário, revelar-se nas fraquezas e forças e aceitar a revelação da outra pessoa. Feito de outro ser humano, o humano somente pode se aperfeiçoar revelando-se ao humano. Revelar-se não é dominar, possuir, destruir, diminuir. Revelar-se é estar diante do outro como se é e olhá-lo como ele é. E não sentir vergonha da nudez, mas ver nela a possibilidade da construção de um caminho.

O Senhor nos fez do melhor modo possível, com o que de melhor possuía para que deixemos sempre mais belo o trabalho de suas mãos.

Pe. José Artulino Besen

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  1. #1 por Regina em 4 de fevereiro de 2013 - 21:21

    Nessa semana na reunião escolar de volta às aulas, a coordenadora da educação infantil disse, “não tenham dó dos seus filhos, por que dó, pena, é um sentimento desprezível, nenhum ser humano deveria merecer…¨ a fim de encorajarmos nossas crianças ao crescimento, sem omitir o mundo a eles… Muitas vezes a sinceridade acaba atrapalhando… mas espero estar sendo direcionada pelo Pai. Obrigada pelo texto Padre.

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