LUCAS, O EVANGELISTA DA MANSIDÃO MISERICORDIOSA

Lucas evangelista - Afresco no Monte Athos

Lucas evangelista – Afresco no Monte Athos

Se convidarmos quatro irmãos e pedirmos que escrevam 10 páginas sobre sua mãe, teremos uma surpresa: cada um enfoca sua mãe de modo próprio e dela recorda fatos e palavras diferentes no tom e na circunstância. A mãe é a mesma, o olhar é diferente, pois cada um carrega sua experiência de vida. Assim acontece com os quatro Evangelistas – Mateus, Marcos, Lucas e João: cada um narra a vida de Jesus, há coincidências na descrição de fatos e palavras, mas, no conjunto, teremos quatro vidas do mesmo Jesus. Podemos alegar quatro motivos: a experiência que tiveram de Jesus, as fontes que consultaram, a comunidade donde provém, a teologia que expressam.

Isso tem conseqüências: não podemos ler as narrações evangélicas como se fossem iguais, uniformizá-las; devemos, isso sim, mergulhar na riqueza e na diversidade de cada evangelista.

Ouvindo o evangelho de Lucas em 2013, no Ano C do ciclo de leituras, falemos de Lucas, o terceiro evangelista. Nascido em Antioquia da Síria, onde conheceu Paulo, Lucas é o evangelista não judeu. Redigido num grego fluente e elegante, seu Evangelho é dirigido a uma comunidade pagã, e foi escrito na década de 70-80. Lucas teve como fontes os evangelhos de Marcos, Mateus e tradições próprias.

Foi colaborador amado e fiel de Paulo, que a ele se refere como “caro médico” (Cl 4,14), o inclui no bilhete a Filêmon e, ao lamentar que Demas, Crescente e Tito o abandonaram, escreve que “somente Lucas ficou comigo” (2Tm 4,11).

Lucas, narrador da história da Salvação

Lucas redige o terceiro evangelho como historiador, mas historiador teólogo. No início, afirma que pesquisou longa e diligentemente, com espírito crítico, em fontes escritas, e conversou com testemunhas oculares. Quis escrever com ordem, mas ordem kerigmática e catequética. Para Lucas, é claro que a verdade do anúncio se encontra nas origens: é o princípio da tradição, pelo qual transmitimos o que recebemos. As heresias que surgem em seu tempo fogem da tradição, são frutos da imaginação. É necessário retornar à história (cf. 1,1-4).

Quando Lucas escreveu, também quis ensinar às comunidades cristãs que a segunda vinda do Senhor não era iminente: com isso não bastava concentrar-se em Jesus, mas se exigia uma reflexão sobre o tempo da Igreja que tem consistência própria e não é puramente tempo de espera acomodada, mas tempo de salvação. O tempo da Igreja prolonga e atualiza a salvação de Jesus. Assim, Lucas escreve os Atos dos Apóstolos: a história de Jesus prossegue na história da Igreja. Jesus continua presente nas Escrituras, nas palavras e atos de Jesus e na presença dos Apóstolos. O constitutivo da continuidade é o Espírito Santo, cujo Pentecostes narra como início da pregação apostólica.

Lucas é homem de Igreja e da tradição, de vastos horizontes e de delicada sensibilidade, tendo como características a universalidade (Jesus veio para todos), o amor pelos pobres, a misericórdia, o perdão, a presença das mulheres, referindo-se a Maria como nenhum outro Evangelho o faz.

O evangelho da infância – das mulheres

No propósito de descrever a origem da tradição apostólica, Lucas é o único que pesquisa a infância de Jesus e do precursor João Batista. Devemos-lhe o anúncio e o nascimento de João e de Jesus, a notícia sobre Zacarias e a estéril Isabel. A poesia divina do nascimento em Belém, os anjos falando com pastores, cantos celestes, narrações que inspiraram a São Francisco a montagem do presépio. De Zacarias nos transmite o Benedictus (Bendito seja o Senhor Deus de Israel) e, de Maria, o Magnificat (A minh’alma engrandece o Senhor), hinos que entoamos diariamente ao amanhecer e ao anoitecer.

A grande tradição sobre a Mãe de Cristo, Maria, praticamente é lucana: é Maria Mãe, Maria que visita Isabel, Maria em Belém, Maria indo ao templo para a circuncisão do menino, o velho Simeão e a profetiza Ana, Jesus entre os doutores. Uma piedosa tradição apresenta-o como pintor e lhe atribui retratos de Maria.

Enriquecendo a presença feminina no Evangelho, poderíamos aqui acrescentar Mateus (Mt 1,3.5.6.16) que, entre os antepassados de Jesus, em sua genealogia não oculta as mulheres irregulares: há quatro mulheres “mal afamadas”: Tamar foi explorada pelos filhos de Judá e teve um casal de gêmeos com ele; Raab era prostituta; Betsabé foi obrigada a ser adúltera com Davi; Ruth era estrangeira pagã. Quatro mulheres, e a quinta é Maria, Mãe de Jesus.

Numa sociedade patriarcal como a judia, onde a mulher nem digna era de ouvir as Escrituras sagradas, Lucas cita as mulheres em companhia de Jesus (8,1-3): Maria Madalena, Joana, Susana, Maria mãe de Tiago e várias outras que o serviam com seus bens. Um Rabi “legítimo” não teria mulheres como discípulas, mas o Rabi Jesus as inclui entre os que o acompanham no êxodo a Jerusalém e delas aceita o auxílio para o sustento.

Quando está subindo o monte Calvário, são as mulheres que choram por seu sofrimento: as Filhas de Jerusalém (23,27-32). Essas mulheres permanecem aos pés da cruz, acompanham o sepultamento de Jesus, compram perfumes e bálsamos e, graça imensa, recebem as primícias da ressurreição, de que dão notícias aos apóstolos: são apóstolas dos apóstolos (cf. 23, 55-56; 24, 1-12).

Evangelho como êxodo, caminho, viagem

Seu Evangelho é um longo caminhar de Jesus e com Jesus. Diferentemente dos outros, no cenário do Evangelho de Lucas Jesus vai a Jerusalém para completar sua missão. É a cidade onde acontece a redenção: “eis que vamos a Jerusalém!” Com seus discípulos, Jesus vai a Jerusalém, onde, como judeu piedoso, estivera na infância e na vida adulta, mas, agora como uma grande peregrinação na qual Jesus segue o vale do Jordão até o oásis de Jericó, atravessando a Galiléia e a Samaria, depois seguindo até a Judéia e a Cidade Santa. Apesar das profecias de Jesus a respeito de sua morte, os discípulos ainda não entendiam que essa seria a última viagem.

Lucas oferece um quadro teológico dessa viagem, e os verbos que utiliza indicam o movimento, o caminho: ir, chegar, subir. aproximar-se, entrar. São verbos do êxodo: verbos que marcaram o êxodo de Abraão de Ur a Canaã, o êxodo de Moisés do Egito à Terra prometida. A esses dois êxodos Lucas acrescenta o êxodo definitivo de Jesus que é precedido pela Transfiguração (Lc 9, 28-36). Nessa hora o Lucas historiador é o Lucas teólogo: na montanha Jesus conversa com Moisés (a Lei) e Elias (os Profetas) a respeito desse êxodo (cf.Lc 9,31), assumindo como novo Moisés e Profeta definitivo.

A viagem lucana ocupa o Evangelho de Lc 9,51 a 19,28. No seu percurso, Lucas narra, com seu coração misericordioso, o coração misericordioso de Jesus, afetuosamente ligado ao homem fraco e pecador e manifestado nas parábolas que somente ele narra: o bom samaritano (10,30-37), o filho pródigo (15,11-32), o pobre Lázaro e o rico avarento (16,19-31), o fariseu e o publicano (18,9-14). A viagem a Jerusalém é o anúncio da compaixão pela humanidade mergulhada na dor, no pecado, no sofrimento, na pobreza, na solidão, na morte. É a viagem onde o Mestre mergulha no coração do homem.

Dante Alighieri, na obra “De monarchia”, apelida Lucas de narrador da mansidão/misericórdia de Cristo Senhor (Scriba mansuetudinis).

Lucas, o narrador da mansidão misericordiosa do Pai e do Filho

O cenário do Evangelho de Mateus é a Montanha, à qual Jesus sobe, qual novo Moisés, e proclama o código da Nova Aliança, as “Bem-aventuranças” (Mt 5,1-12). Em Lucas, Jesus desce da Montanha e proclama as “Bem-aventuranças” na planície (Lc 6,20-23).

Acima afirmamos que Lucas escreve o terceiro Evangelho tendo como fonte Mateus, Marcos e uma outra, exclusiva sua. São esses textos, encontrados somente em Lucas, que demonstram o espírito que o anima: narrar a mansidão misericordiosa de Jesus que, por sua vez, é o narrador do Pai.

Em primeiro lugar, temos o capítulo 15 onde, com três parábolas, Jesus responde à pergunta “como Deus é”: a ovelha perdida (15,1-7), a dracma perdida e achada (15, 8-10) e o filho pródigo (15,11-32). Após essa narração, é falso todo anúncio de um Deus que amedronta, ameaça, se impacienta e condena. 

Em 1662, o pintor Rembrandt, velho e arrependido de seus muitos pecados e desperdícios, retratou o Pai como um velho, cego, tendo uma mão feminina e outra masculina: poderoso e frágil, pai e mãe, amor puro.O filho é retratado sem cabelos na cabeça, como que retornando ao ventre de seu Pai/Mãe .É impossível não se emocionar ao ver Deus Pai retratado com tanta misericórdia.Ele está sofrido, mas conserva a dignidade de filho: carrega o rolo com seus documentos e calçados aos pés.Apesar de tudo, não tinha esquecido sua filiação, razão pela qual retornou.

Em 1662, o pintor Rembrandt, velho e arrependido de seus muitos pecados e desperdícios, retratou o Pai como um velho, cego, tendo uma mão feminina e outra masculina: poderoso e frágil, pai e mãe, amor puro. O filho é retratado sem cabelos na cabeça, como que retornando ao ventre de seu Pai/Mãe. É impossível não se emocionar ao ver Deus Pai retratado com tanta misericórdia. Ele está sofrido, mas conserva a dignidade de filho: carrega o rolo com seus documentos e calçados aos pés. Apesar de tudo, não tinha esquecido sua filiação, razão pela qual retornou. (A volta do filho pródigo – Rembrandt – Detalhe)

Em seguida, Lucas narra parábolas de Jesus, centradas na misericórdia de Jesus e na confiança nele que caminha entre os pobres, doentes, humilhados e sofredores da terra: o bom samaritano (10,25-37), o rico tolo (12,13-21), o rico e o pobre Lázaro (16,19-31), a viúva insistente e o juiz iníquo (18,1-18), o fariseu e o publicano (18,9-14), o administrador infiel (16,1-12), o amigo importuno (11,5-8).

Narra encontros de amizade e compaixão: Marta e Maria em Betânia (10,38-42), a pecadora arrependida ( 7,36-50), Zaqueu (19,1-10.28), o Bom Ladrão (23,39-43),

São exclusivos de Lucas o sinais do poder de Jesus destinados a consolar, amparar, dar saúde, colocar o amor acima da lei: o jovem filho da viúva de Naim (7,11-17), a mulher curvada curada em dia de sábado (13,10-17),  o hidrópico curado também no sábado 14,1-6), a cura dos dez leprosos (17,11-19). Ensina a humildade na comunidade cristã: convidem-se os pobres (14,12-14), ceder os primeiros assentos (14,7-11), as condições para ser discípulo (14,25-35).

 Lucas, catequista da comunidade cristã

Se tivermos presente o fato de Lucas provir do paganismo e ter sido amigo e companheiro de Paulo, conhecedor das comunidades paulinas, podemos dizer que Paulo é também o anunciador da misericórdia do Senhor, por ele provada no caminho de Damasco e anunciada como graça, dom de Deus que vem pela fé.

Companheiro de Paulo até o martírio em 67, com 84 anos Lucas sofreu o martírio na Beócia e, segundo outra tradição, em Patras, na Grécia.

São Lucas, além da primeira história da Igreja (Atos dos Apóstolos) deixou-nos um inesgotável texto catequético, inspiração de tantos mestres espirituais e movimentos cristãos: os Discípulos de Emaús (Lc 24, 13-35). Ali, numa liturgia da Palavra que leva à fé no Senhor ressuscitado, encaminha-nos para a liturgia Eucarística: os discípulos do Senhor são reconhecidos ao partir o Pão. Sua vida é eucaristia, ação de graças.

Pe. José Artulino Besen

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