O BATISMO DAS CRIANÇAS – EPIFANIA DA GRAÇA

Criança brincando em São Tomé e Príncipe (Foto: Maria Pernadas)

Criança brincando em São Tomé e Príncipe (Foto: Maria Pernadas)

A Luz contemplada pelos Magos no Oriente levou-os a caminhar até Jerusalém, onde foram informados a respeito do que afirmava a Escritura sobre o Messias, e então seguiram para Belém, o pequeno povoado onde devia nascer. Ali encontraram um Menino e o adoraram (Mateus 2,9). Era um Menino, apenas. E o adoraram oferecendo-lhe presentes, para espanto até de Maria e José: os dons indicavam o Menino como Deus/incenso, Rei/ouro e homem/mirra. Silenciosamente chegaram, silenciosamente retornaram.

O gesto dos Magos foi totalmente gratuito, foram misteriosamente conduzidos pela estrela que colocou-os a caminho. Não discutiram: viram e seguiram.

A oração depois da Comunhão da Missa da Epifania é um tocante pedido para que também sejamos guiados por uma luz, luz celeste:

Ó Deus, guardai-nos sempre e por toda parte com a vossa luz celeste, para que possamos acolher com fé e viver com amor o mistério de que nos destes participar. Por Cristo, nosso Senhor”.

Dois são os pedidos: acolher com fé, viver com amor. É importante acolher o dom de Deus com amor e com afeto. Suplicamos a capacidade de crer contemplando uma luz que provoca admiração e não julgarmos a fé como fruto de conquista: é graça. Evidente que a fé e a Palavra se procuram no decorrer da vida, e devem ser acolhidas com maturidade crescente.

Há uma fé que nasce do encanto e acontece no batismo das crianças. Tantas vezes – em muitos casos com razão – se afirma que não devemos batizar as crianças, porque o batismo supõe a fé, e bebê não tem fé. Também se diz – e com razão – que a fé dos padrinhos e pais não conta, pois quem é batizada é a criança.

A Igreja sempre batizou crianças de famílias cristãs e batizou adultos após devida preparação. Certa visão de Igreja militante, formada pelo engajamento da vida conspira contra o batismo das crianças. Uma pena duvidarmos do batismo de crianças, esse imenso presente que a comunidade oferece aos nossos bebês e que tanta felicidade traz aos pais, padrinhos, familiares, à comunidade, especialmente aos pobres. O encanto revelado no olhar de cada criança nos repõe a alegria de viver, pois, quando nasce uma criança o mundo recomeça. Em diversas colocações, o biblista e membro da Pontifícia Comissão Bíblica, Pe. Ney Brasil Pereira, tem afirmado que o batismo da criança é o cordão umbilical que une a família católica à Igreja. Rompido esse, com facilidade abandona-se a pertença católica.

O batismo das crianças é a afirmação de que nada podemos colher e nada podemos acolher a não ser por dom divino. É quase o símbolo maior da gratuidade divina que não se cansa de presentear-nos.

O batismo faz o recém-nascido iniciar um caminho longo, longo como a vida, até o encontro com o Senhor. Assim aconteceu com os Magos: eram mestres em astrologia, foram levados pela leitura dos astros, mas, a estrela os fez chegar a Belém e adorar o Menino. A graça fez com que fizessem a passagem da superstição à fé. Não é assim com nossas crianças? A família pode até pensar que batismo traz saúde, faz a criança dormir, é feio ser pagão, é bom ter padrinho e, mesmo assim, o singelo gesto de batizar a criança é início de um caminho de fé. Não representa a posse da verdade, mas ilumina-lhe a procura, dá-lhe o ponto de partida.

Sepultados com Cristo, com ele ressuscitamos

A teologia paulina ajuda nossa compreensão do batismo das crianças, pois nos permite contemplá-lo além da fé, do “quem crer e for batizado será salvo”, tão usado para combatê-lo. Ao lermos Mateus 28, 18-20 é bem claro que o anúncio precede o batismo: fazer discípulos e batizar. No tempo da Reforma na Suíça, Calvino decidiu pelo batismo apenas de adultos, ficando para a criança a celebração de apresentação, como o fazem hoje os pentecostais. Mas, pergunto, estava equivocada a Igreja nos 15 séculos em que aceitou batizar crianças? É inútil? Aqui é de bom conselho lembrar que Calvino via no batismo um sacramento de ingresso na Igreja, e não um sacramento eficaz que comunica a graça, conforme ensinam e vivem as outras grandes Tradições eclesiais.

Há uma teologia batismal que faz agir além do critério “crer”, e se inserir na vida de Cristo, pois a Palavra de Deus é um rico jardim donde colhemos flores diferentes, mas todas belas flores. É a teologia de Paulo, que coloca o batismo em paralelo com a sepultura de Cristo: morremos com Cristo, fomos sepultados com Cristo, ressuscitamos com Cristo:

“Devemos permanecer no pecado para que haja abundância da graça? De forma nenhuma! Uma vez que já morremos para o pecado, como poderíamos ainda viver no pecado? Ou vocês não sabem que todos nós, que fomos batizados em Jesus Cristo, fomos batizados na sua morte? Pelo batismo fomos sepultados com ele na morte, para que, assim como Cristo foi ressuscitado dos mortos por meio da glória do Pai, assim também nós possamos caminhar numa vida nova” (Romanos 6, 1-5ss).

O Cristo sepultado estava morto e, ressuscitando, venceu a morte. A criança é imagem dessa morte e pode receber a graça de ter a morte vencida pelo batismo, pelo banho sacramental. A pia batismal é a sepultura da qual ela ressurge na vida nova pela glória do Pai. Ressuscitada com Cristo, ingressa na família de todos aqueles que recebem a vida nova em Cristo. Não há méritos, não depende de conhecimento: é puro dom. Dom de Deus, da Igreja e da família. Aceitando dar ao bebê a graça da vida nova, e crendo que com Cristo ele vence a morte, o batismo não só é um dom possível, mas um presente que devemos oferecer-lhe logo após o nascimento, fazendo-o quase coincidir com o nascimento para a vida.

A criança batizada, projeto de pessoa adulta mergulhada no único corpo de Cristo, terá necessidade da família e da comunidade para amadurecer até o dia em que Deus chamá-la a si. Terá necessidade da comunidade para que assuma de modo pessoal, responsável o que lhe aconteceu no dia do batismo. E nesse caminho entra a importância única do sacramento da Crisma, desfigurado por tantos cristãos, mas inseparável da graça batismal. Através desse sacramento, confirma-se a decisão madura de continuar vivo em Cristo e viver como Cristo. Muito do que se pede para o batismo fica bem mais coerente pedi-lo na Confirmação. Ressuscitada com Cristo, a criança é conduzida pela comunidade à maturidade de Cristo.

Pe. José Artulino Besen 

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