ANO DA FÉ – CIORAN, O ATEU QUE CRÊ PELA BELEZA

Prece ao anoitecer às margens do Ganges

Prece ao anoitecer às margens do Ganges

Em 12 de fevereiro de 2011 o Cardeal Gianfranco Ravasi, Presidente do Conselho Pontifício da Cultura falou, em Bolonha, sobre o filósofo romeno Emil Cioran (1911-1995) que afirmava, de si mesmo: “Sou um estrangeiro para a polícia, para Deus, para mim mesmo”. Aos 26 anos, Cioran emigrou para Paris onde permaneceu até a morte, numa longa vida transcorrida entre lágrimas, solidão, arte, beleza. Foi estrangeiro em sua própria pátria: ao nascer a Romênia era parte da Áustria-Hungria, suprimiu seu nome de seu registro civil, abandonando inclusive seu idioma natal. E foi estrangeiro no país que o acolheu, por causa do seu constante isolamento. G. Ravasi, que elimina de seu nome tanto o Card., como o Dr. ou o Prof., é a grande novidade de Bento XVI, e dele é a instituição do Pórtico dos Gentios, encontros internacionais de intelectuais crentes ou não.

Emil Cioran, filho de padre ortodoxo, sentia-se estrangeiro também para Deus. Eliminando todas as palavras que conhecia e utilizava, para ele sobrou uma palavra: solidão. É a solidão a pátria dos que procuram Deus, pois cada um o procura a seu modo e à medida de sua existência, e não o encontra também a seu modo.

Sozinho entre os seres humanos, mesmo amado, admirado, estudado pela profundidade de sua obra, sentia-se membro da “raça dos ateus”, numa vida transcorrida na procura angustiada de Deus. Não pertenceu à raça dos ateus medíocres, que se conformam em não procurar Deus; pelo contrário, viveu à procura de Deus, definiu-se como um “delator” de Deus, reclamando porque o incomodava mas não se deixava encontrar, e pretendia apanhá-lo numa emboscada para denunciá-lo. E, na luta como a de Jacó e o Anjo (Gn 32, 23-32), acabou ferido e nele ficou marcada a ferida que nunca cicatrizou. Deus se escondeu, mas não o deixou em paz. Mas, diferente de Jacó que pode dizer “Vi Deus face a face e minha vida foi poupada” (Gn 32,31), Cioran não viu Deus, dele guardando a ferida provocada pela solidão.

Sua geração produziu os grandes homens que aceitaram o cárcere comunista por causa da busca da verdade: Ionescu, Mircea Eliade, Nico Steinhardt, Petre Tutea e tantos outros, marcados pelo combate em busca da fé, na denúncia de Deus que não se deixava aprisionar e, ao mesmo tempo, não os deixava livres, em mútua perseguição.

Certamente eram ateus e não eram ateus: os que são incomodados por Deus sofrem a dor da fé, precipitam-se num abismo sem fim, atraídos com intensidade crescente pelo fascínio desse Abismo infinito. Ravasi afirmou: Cioran acusa o Ocidente de um delito extremo, o de ter extenuado e dissecado a potência regeneradora do Evangelho: “Consumido até os ossos, o cristianismo deixou de ser uma fonte de maravilha e de escândalo, deixou de desencadear vícios e fecundar inteligências e amores”.

E como apanhar Deus em flagrante?

A vida de muitos homens e mulheres, a opressão dos regimes ditatoriais, o oco das culturas vazias fizeram Cioran chegar à conclusão de que, “se Noé tivesse recebido o dom de ler o futuro, não há dúvida de que ele mesmo teria afundado a arca!”. Pessoas transverberadas pela presença do Único, pois tiveram o coração por ele atravessado por como por uma flecha, não conseguem conviver com cristãos insignificantes, com igrejas que nada oferecem de desafiante, com evangelhos ressecados. Lembro aqui o Papa João XXIII quando afirmava que muito não são ateus, são ateus do deus que lhes apresentamos e que, de fato, não é o Deus de Abraão, Isaac e Jacó.

Sentem-se exilados na terra, sentem a solidão de não pertencerem a nenhuma pátria. Para eles, continuamente procurados pelo Deus que se oculta, a vida transcorre entre gemidos e suspiros, num vale de lágrimas. A noite da alma é vivida como Jó ferido, sem nada além das feridas coçadas com um caco de telha, visitado por amigos que o interpelam a denunciar Deus e tendo, ainda, de ouvir a repreensão de Deus que o abandonou, mas quer ser respeitado.

Para Cioran, talvez Deus se compraz mais em blasfêmias e pecados do que em piedosos louvores teológicos, ou suspiros piedosos. Deus reage de modo pronto quando lhe negamos a existência, mas nos procura afastando-se mais ainda, aumentando a dor do coração ferido e, sendo pura luz, reveste-se da escuridão para nos ver e não ser visto: “Deus é um desespero que começa onde todos os outros acabam” ou, “o destino do homem é esgotar a idéia de Deus”, o que é o destino da impossibilidade.

Certos anúncios e vivências evangélicas, certas liturgias barrocas são “aquilo que se diz de algumas pinturas: que a parte mais bela é a moldura”. Então o cristão faz com que o homem perca toda fé, pois há muito vazio em tantos indivíduos crentes, mas que não têm fé.

Não tendo encontrado Deus, Cioran sugeriu a prova da Beleza aos teólogos que procuram provas da existência de Deus. Para ele, a obra do músico alemão Johann Sebastian Bach (1685-1750) é a prova possível de que Deus existe. Escreve na obra “De lágrimas e santos” (1988): “Quando ouvimos Bach, vemos Deus nascer… Depois de um Oratório, de uma Cantata, de uma Paixão, Deus tem que existir. E pensar que tantos teólogos e filósofos desperdiçaram noites e dias procurando provas da existência de Deus, esquecendo-se da única!”. Em outra ocasião: “Sem Bach, Deus seria apenas um mero coadjuvante” e que “a música de Bach é o único argumento que prova que a criação do universo não pode ser vista como um grande erro”.

Os bilhões de anos da evolução, os milhões de anos da evolução humana nunca poderiam ter gerado um Bach, um Mozart, um Beethoven, as obras de Giotto, Michelangelo, Raffaelo, Da Vinci. Muito menos Francisco de Assis. Somente Deus pode criá-los: a Beleza e os Santos são a prova da de uma Luz que somente dele pode surgir.

Pe. José Artulino Besen 

Nota: Emil Cioran é editado em português pela Editora Rocco, tendo já publicado: Breviário de decomposição, História e utopia, Exercícios de admiração, Silogismos da amargura, e Do inconveniente de ter nascido. E, pela Editora HEDRA, Nos Cumes do Desespero.

Anúncios
  1. #1 por Alexandre Borges em 10 de dezembro de 2012 - 21:37

    Lembrei-me de Dostoievski, “a beleza salvará o mundo”. E do diálogo dos personagens de Irmãos Karamazov “se Deus permite o sofrimento desses pequeninos, eu devolvo o meu bilhete para entrar no céu”. Também me lembrei de Agostinho e suas confissões, suas buscas, suas lágrimas. Tantas frases ditas com clareza (artigo), repetindo o que o coração da gente gostaria de
    dizer. Também prefiro um ateu que morre pensando estar na escuridão, a um teísta que pensa ter Deus na mão e despreza o mais sagrado dos espaços litúrgicos, o outro. Impossível não lembrar também de Martin Buber, e do seu “Eu e tu”, a eterna busca do sentido de uma relação íntegra e inteira, sem manipulação, instrumentalização e experimentação. Eu e tu, eu e Deus… Assim ele me trata, com total dignidade. Obrigado pelo texto amigo. Bom texto! Grande abraço!

  2. #2 por Pe. José Artulino Besen em 12 de dezembro de 2012 - 16:13

    Alexandre, caro amigo, você escreveu melhor do que eu. Muito obrigado. Todos os que buscam o sentido pleno de sua existência se deparam com um caminho sem fim, pois demandam o infinito. Ao pensarem ter alcançado a meta, tudo recomeça, mas numa aventura diferente.
    Um abraço,
    Pe. José

  3. #3 por Marcos Santos em 19 de dezembro de 2012 - 17:59

    O Alexandre foi grande ao escrever ” Eu e tu, eu e Deus… Assim ele me trata, com total dignidade. Obrigado pelo texto amigo. Bom texto! ” . Realmente texto muito acolhedor também gostaria de agradecer lhe.

  4. #4 por Nahor Lopes Jr. em 2 de janeiro de 2013 - 00:01

    Excelente artigo, padre José. Não conhecia ainda com profundidade o pensamento de Cioran. Irei buscar algum livro do autor para ler.

    • #5 por José Artulino Besen em 2 de janeiro de 2013 - 16:10

      Nahor, a Romênia deu ao mundo grandes intelectuais, marcados pelo combate da fé e da democracia. Aconselho a leitura de DIÁRIO DA FELICIDADE, de Steinhardt. Você ganhará um presente precioso.

  5. #6 por Marcos Rohling em 2 de janeiro de 2013 - 10:29

    Muito bonito o texto. E isso me faz pensar que a beleza, tal como Deus, é simples.

    • #7 por José Artulino Besen em 2 de janeiro de 2013 - 16:11

      Marcos, vale a pena lermos o testemunho das pessoas que ser encontraram com a Beleza sem fim. Eles nos inspiram a perseverança.

%d blogueiros gostam disto: