JESUS, UMA DOENÇA QUE NÃO TEM CURA

Há uma simbologia muito forte no final do ano: quando todos celebramos o triunfo de um ano que passou, felizes pelas vitórias alcançadas, o Espírito nos assusta colocando diante de nós o Deus Menino na gruta de Belém, pobrezinho cercado por pobres, para nos chamar a atenção: a vitória cristã é a pobreza de Deus, a riqueza da Igreja é adorar o Senhor que nada é. Somente assim teremos a alegria da fé, a felicidade que nos faz aceitar ser loucos aos olhos do mundo, mas, inteiramente livres para adorar um Deus Menino.

Abū Bakr Muhammad ibn ‘Alī ibn ‘Arabi (1165-1240), místico muçulmano sufi, filósofo e teólogo nascido na espanhola Andaluzia e morto em Damasco, afirmou a uma consulta que lhe tinha sido feita a respeito de converter cristãos para o islamismo. Para ele, era trabalho perdido: “Os que sofrem da doença chamada Jesus nunca se recuperarão”. Seguir a Jesus é uma doença incurável. Não há remédio ou terapia que restabeleça a “saúde” dos seguidores de Jesus.

A Bíblia não esconde cenas em que pessoas importantes se fazem de loucas por amor e alegria. O rei Davi fez-se louco diante de Abimelec, que, escandalizado, expulsou-o de sua presença. E Davi cantou: “Bendirei o Senhor em todo o tempo, seu louvor estará sempre em minha boca” (Sl 33, 1-2). Quando entrou em Jerusalém com a arca, dançando e soltando gritos de alegria, sua mulher Micol, filha de Saul, desprezou-o em seu coração porque pensou que estivesse doido (cf. 2Sam 6, 15-16).

Paulo, doutor na escola de Jerusalém, cidadão romano, fez a experiência de trocar tudo pela loucura da cruz, e testemunhava: Deus escolheu o que para o mundo é loucura e fraqueza para envergonhar os sábios e fortes, escolheu o que não tem nome nem prestígio, que não é nada, para mostrar a nulidade dos importantes (cf. 1Cor 1, 18.27-28). De fato, às vezes, uma igreja feita de sábios, teólogos e doutores, de reverências e eminências, de instituições bem estruturadas, não é capaz de dar testemunho da “loucura da cruz”, do amor pelo Crucificado, pelo Desprezado, pelo Alienado que morreu na cruz. Prefere optar por refinadas teologias que não exigem o sacrifício da sabedoria humana.

Diante de um espantado Pilatos que lhe perguntava se era rei, o Abandonado declarou com toda segurança: “Tu o dizes. Eu sou rei!” O pobrezinho estava sujo de escarros, sangue, açoites, tabefes, sem amigos que o defendessem na hora da condenação à morte, e se diz “rei”. Um rei muito diferente e, por isso mesmo, rei verdadeiro, um rei acima do poder, da força, da riqueza, um rei apenas rei. Pouco antes, traído por um discípulo, aceitara ser trocado por 30 moedas. Sua doação era total na hora em que, à sua libertação, seus amados preferiram a do criminoso Barrabás: amava sem nenhum desejo de retribuição a não ser ouvir a palavra “ele nos amou até a morte”. Ressuscitado, sai à procura dos Apóstolos que o abandonaram vergonhosamente e, ao traidor Pedro, entrega o cuidado dos seus.

Os frutos do presépio e da cruz

No decorrer dos séculos, discípulos de Jesus aceitaram viver a alegria da loucura da cruz na perseguição, entregues às feras, na doação da vida pelos sem vida ou escondidos no deserto. Bernardo de Claraval (+1153), monge, teólogo, místico, apreciava que o chamassem de “bobo”, “palhaço” e comparava a vida monástica a uma brincadeira: o que o mundo quer, nós jogamos fora, o que o mundo joga fora, isso nós queremos. Os monges dão o que pensar não apenas porque não fazem nada de particular, mas também porque as suas vidas não buscam nenhum objetivo. Francisco de Assis (+1226) se auto-definia: “sou o palhaço de Jesus”, “sou o louco em Cristo, ingênuo e ignorante”. Foi apelidado de “o pobre de Deus”.

Inácio de Loyola (+1556) definia sua companhia de jesuítas como “sociedade de loucos e dos que professam a loucura”. Ele recomendava que vez ou outra se escolhesse um superior meio “desparafusado” para obedecer-lho em decisões estapafúrdias e assim não se dar muita importância ou seriedade. O francês Bento Labre (+ 1783) fez-se mendigo de Deus, vagabundo de Cristo junto com outros na porta de uma igreja em Roma. Morreu novo pelos maus tratos recebidos e pela completa falta de higiene. Apenas morreu, o milagre da multidão gritando: “santo, santo, santo”.

Marcelo Cândia (+1983), rico industrial italiano, vendeu tudo e veio trabalhar com os leprosos em Marituba, no Pará: um rico que se fez pobre para se tornar santo. E ele o fez por um motivo simples: queria ser feliz e trocou o nada da riqueza pelo tudo do amor.

Jornalista americana, observando Madre Teresa de Calcutá (+1997) tratando carinhosamente de um doente coberto de feridas, exclamou: “Madre Teresa, nem por 5 milhões de dólares eu faria isso”, ao que Madre Teresa retrucou: “Nem eu!”. Era a loucura do amor a força que a impelia a essa consagração.

A doença Jesus é especialmente indicada para quem quiser possuir a verdadeira alegria. Necessitamos lembrar com maior freqüência que o programa que Jesus nos ofereceu está nas “bem-aventuranças”, na felicidade somente alcançada por quem assumir a simplicidade como regra de vida (cf. Mt, 5).

O servo de Deus François Van Thuan (+ 2002) bispo e cardeal vietnamita que passou 13 anos em cárceres imundos, afirmava que seu fascínio por Jesus tinha origem nos “defeitos” de Jesus: má memória (esquece os pecados quando perdoa, como ao Bom Ladrão), mau matemático (deixa 99 ovelhas garantidas para procurar uma extraviada), sem lógica (os primeiros serão os últimos e os últimos serão os primeiros), mau candidato (a quem o segue promete cruzes e perseguições), mau administrador (paga o mesmo salário a quem trabalhou uma hora e a quem suou por seis), amigo da covardia (dar a outra face a quem bateu numa) e assim por diante.

O Evangelho é a narração humilde de uma vida humilde, cheia de pessoas pobres, doentes, pecadores. O Evangelho é Jesus, esse pobre fascinante que nos revelou o coração frágil e paterno de Deus. Quem sentiu esse amor não tem mais cura: podem oferecer-lhe todo o ouro e poder do mundo, fama, prazeres sem conta e ele rirá de tudo. Não por desprezo, mas pela insignificância.

Num dia, Martinho de Tours (+397) teve uma visão: um homem resplandecente, com roupas reais, coroado com diadema de pedras preciosas e lhe falou: “Martinho, eu sou Cristo. Antes de retornar à terra quis em primeiro lugar manifestar-me a ti, pois bem o mereces”. Martinho fixou-o nos olhos e disse: “Eu não creio que Cristo voltará ao mundo com veste e aspecto diferentes dos que sofreu a paixão, sem carregar os sinais da cruz. Afasta-te, Satanás!”.

Enquanto os Ibn ‘Arabi deste mundo identificarem gente com a incurável doença Jesus o cristianismo e a Igreja estão com boa saúde e representarão uma ameaça ao sossego do mundo. Uma Igreja poderosa, carregada da sabedoria dos doutores e teólogos e de impressionantes estruturas e projetos não oferece perigo para o mundo. Apenas causa boa impressão e entra na concorrência do mundanismo.

Não têm futuro os que gozarem da ótima saúde que o mundo oferece: neles Jesus não tem seguidores, apenas admiradores que carregam cruzes de ouro penduradas ao peito e cheios de razão multiplicam regras que terão a força do medo, não do discipulado. Mas, Jesus continuará oferecendo a todos o contágio da doença do amor. Até o fim dos tempos.

Pe. José Artulino Besen

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