ZUMBI E A REPÚBLICA DOS PALMARES

A Lei federal 10.639 de 9 de janeiro de 2003 estabeleceu a comemoração do Dia da Consciência Negra para 20 de novembro, recordando que em 1695, nesse dia, foi morto o líder negro Zumbi dos Palmares, comandante do quilombo dos Palmares de 1678 a 1695, morrendo heroicamente na defesa da liberdade de seu povo. Podemos aproveitar a data para algum conhecimento dessa grande epopéia de negros que por quase um século (1602-1695) viveram e construíram a República dos Palmares no território atual de Alagoas e que tem a ver com as fugas enfrentadas pelos negros para se livrarem do regime escravo.

A forma mais comum da busca da liberdade foi a fuga em grupo, formando mocambos (esconderijos) ou quilombos (povoações). Não há dados confiáveis sobre o número de quilombos, mas sabe-se que existiram da Amazônia ao Rio Grande do Sul. O mais conhecido de todos esses sinais da resistência negra foi o quilombo de Palmares, que ocupava uma área de 200 km2 na serra da Barriga, Alagoas. Na verdade, Palmares era constituído de 12 quilombos, chegando a ter 20 mil moradores e 6 mil casas. Formou uma república com vida própria e relações comerciais com o Brasil.

Evidente que essa organização ameaçava continuamente o modo de produção escravista, tanto português quanto holandês (1630-1654), pois privava da valiosa e cara mão-de-obra escrava as fazendas das quais continuamente fugiam negros. Houve reação militar, mas, após inúmeros ataques com a destruição e incêndios de quilombos, eles eram reconstruídos, e passou a ser economicamente desinteressante atacá-los, pois sua produção era significativa e necessária para uma grande região que ia das margens do rio São Francisco até o Cabo de Santo Agostinho. Os habitantes dos quilombos faziam esteiras, vassouras, chapéus, cestos e leques com a palha das palmeiras. E extraíam óleo da noz de palma, as vestimentas eram feitas das cascas de algumas árvores, produziam manteiga de coco, plantavam milho, mandioca, legumes, feijão, banana, laranja e cana-de-açúcar e comercializavam seus produtos com as povoações vizinhas de brancos e mestiços. É após essa conclusão que surge a proposta de paz de 1678, aceita por Ganga Zumba e rejeitada por Zumbi.

De acordo com José Murilo de Carvalho (“Cidadania no Brasil”, p. 48), “os quilombos mantinham relações com a sociedade que os cercavam, e esta sociedade era escravista. No próprio quilombo dos Palmares havia escravos, além de brancos e mestiços. Não existiam linhas geográficas separando a escravidão da liberdade”. Para alguns estudiosos, no entanto, a escravidão nos quilombos não se assemelhava à cruel e desumana escravidão dos brancos sobre os negros, sendo os escravos lá considerados como membros das casas dos senhores, aos quais deviam obediência e respeito.

A história da República de Palmares

O quilombo de Palmares teve início em 1602, com a fuga de 40 escravos de Porto Calvo, Pernambuco, liderados pela princesa e guerreira africana Aqualtune, filha de um rei do Congo capturada pelos portugueses e vendida como escrava no Brasil*. Seu caminho: a fuga e a organização da liberdade. Aqualtune é, dependendo da tradição, a mãe ou avó de Ganga Zumba.

Reconstituição da Casa de Governo dos Palmares na Serra da Barriga

Décadas depois, a existência de Palmares era tão visível que em 1691 um religioso italiano pediu ao rei que enviasse um capelão para assistir aos negros do quilombo, o que não foi efetivado pela oposição do Pe. Antônio Vieira: para ele todos os fugitivos estavam em pecado mortal e excomungados, pois tinham fugido de seus legítimos senhores. Os quilombolas, porém, há muito tempo tinham encontrado uma solução: quando precisavam de um sacerdote, iam à cidade, convidavam ou seqüestravam um que administrasse os sacramentos e depois o libertavam.

O rei Ganga Zumba foi o grande estadista do quilombo. Era um negro alto e forte que chegou a Palmares por volta de 1630. Nesta época, Palmares era formado por povoados e mocambos. Ganga Zumba sabia que um quilombo unido dificilmente seria vencido, e procurou os líderes locais.

Sob seu comando, gradualmente diversos quilombos se juntaram ao quilombo de Palmares, ou Janga Angolana/Pequena Angola, sob seu comando. Reuniu os onze maiores mocambos em uma confederação e foi eleito comandante geral. E assim, iniciou-se o período mais próspero e feliz da existência de Palmares. Ganga Zumba, que governava a maior das vilas, a Cerca do Macaco (hoje União dos Palmares), presidia o conselho de chefes dos quilombos e era considerado o Rei de Palmares. Os outros assentamentos eram comandados por irmãos, filhos ou sobrinhos de Ganga Zumba. Zumbi era chefe de uma das comunidades e seu irmão Andalaquituche comandava outra. Pelo estudo de sítios arqueológicos, são essas as comunidades: Cerca do Macaco (sede), Loango, Ambundu, Andalaquituche, Quisama, Osenga, Zande, Dambrabanga, Acotirene, Subupira, Tabocas.

Com referência às populações, Palmares reunia africanos, índios, mouros muçulmanos, europeus e marginalizados em geral. Transformou-se no mais importante centro de resistência africana, indígena e de outros grupos marginais da ordem escravagista. A cultura que surgiu dessas bases combinava elementos africanos, europeus, ameríndios e provenientes da senzala, de maneira complexa, inovadora e variada.

Ali se dançava a capoeira, congada, maracatu e samba, tocavam-se tambores, berimbaus, adufes e agogôs. Nascimentos, mortes, plantios, colheitas, vitórias e manifestações da natureza eram comemorados comunitariamente com danças, músicas e baticuns.

Por volta dos anos de 1670, Ganga Zumba tinha palácio, guardas, ministros e súditos devotos. O complexo era formado por 1.500 casas que abrigavam sua família, guardas e oficiais que faziam parte de nobreza.

Protegidos pela densa mata atlântica, os quilombolas usavam táticas de guerrilha avançada para surpreender e derrotar expedições portuguesas e holandesas ao longo de décadas. As tropas portuguesas somente conseguiram adentrar o reduto palmarino armadas de canhões e escopetas.

Para tentar acabar com as tentativas de invasão que não cessavam e que obrigavam os habitantes de Palmares a viverem sempre na expectativa de uma guerra, Ganga Zumba, em 1678, decidiu aceitar negociar uma paz duradoura oferecida pelo governo brasileiro.  Nesse ano, Ganga Zumba recebeu um oficial enviado pelo governador pernambucano Pedro de Almeida com uma proposta de paz em que oferecia união, um bom tratamento, terras e uma promessa de devolver as mulheres e filhos que estavam em seu poder. Seria o reconhecimento oficial da nação palmarina.

O rei Ganga Zumba aceitou por acreditar no tratado de paz oferecido pelo Governador, o qual requeria que os habitantes de Palmares se mudassem para o Vale do Cucau. Continuariam usufruindo de liberdade, mas, com o compromisso de entregarem todos os escravos fugitivos que aí chegassem após o acordo. O tratado foi desafiado por Zumbi, que se revoltou contra o rei. Zumbi não admitia que uns negros fossem libertos e outros continuassem escravos. Além do mais, eles tinham suas próprias leis e crenças e teriam que abrir mão de sua cultura.

Na confusão que se seguiu, Ganga Zumba foi envenenado, muito provavelmente por um dos seus, por ter aceito o tratado com os portugueses. De fato, houve quebra do tratado e os que se mudaram para o Vale do Cucau foram reescravizados pelos portugueses. A resistência palmarina continuou com Zumbi.

Zumbi dos Palmares – Monumento no Terreiro de Jesus em Salvador

Zumbi dos Palmares – herói de seu povo

Em 1678, Zumbi (o nome significa A força do espírito) assumiu o lugar de Ganga-Zumba em Palmares e passa a comandar a resistência contra as tropas portuguesas. Ele e a maioria do povo do quilombo não acreditaram na paz dos brancos. A resistência negra durou até 1694, tendo sido necessárias 25 expedições militares para derrotá-la.

Zumbi nasceu em Palmares, Alagoas, livre, no ano de 1655. Teve a mãe assassinada quando fugia para o quilombo, mas foi capturado e entregue ao vigário de Porto Calvo, Pe. Antônio de Melo, que o instruiu nas disciplinas de latim, geometria, matemática e português. Recebeu o nome de José Francisco da Silva. Apesar destas tentativas de aculturá-lo, Zumbi escapou em 1670 e, com quinze anos, retornou ao seu local de origem, o Quilombo de Palmares.

Zumbi se tornou conhecido pela sua destreza e astúcia na luta e já era um estrategista militar respeitável quando chegou aos vinte anos. Casou-se com Dandara, guerreira negra, mãe de seus três filhos.

Como vimos, Zumbi tinha assumido a liderança do quilombo em 1678 quando destituiu Ganga Zumba por ter assinado um tratado de paz com o governador de Pernambuco, o que poderia preservar a República dos Palmares.

Quinze anos após Zumbi ter assumido a liderança, o bandeirante paulista Domingos Jorge Velho foi chamado para organizar a invasão do quilombo. Domingos Jorge Velho e Bernardo Vieira de Melo, à frente de um exército de 9 mil homens com escopetas e canhões, comandaram o ataque final contra a Cerca do Macaco, na Serra da Barriga, principal quilombo de Palmares. Era cercada com três paliçadas, cada uma defendida por mais de 200 homens armados. Em 6 de fevereiro de 1694, após 92 anos de resistência, Palmares sucumbiu ao exército português e foi destruída e, embora ferido, Zumbi conseguiu fugir. Dandara, sua esposa, suicidou-se depois de presa, em 6 de fevereiro de 1694, para não voltar à condição de escrava. A mesma sorte escolheram muitos negros, atirando-se num precipício. Foi registrado um dos grandes massacres da história brasileira, onde foram degolados homens, mulheres e crianças.

Apesar de ter sobrevivido, Zumbi foi traído pelo companheiro Antônio Soares e surpreendido pelo capitão Furtado de Mendonça no reduto onde se escondera. Apunhalado, resistiu, mas foi morto com 20 guerreiros quase dois anos após a batalha, em 20 de novembro de 1695. Teve a cabeça cortada, salgada e levada, com o pênis dentro da boca, ao governador Melo e Castro. Em Recife, a cabeça foi exposta em praça pública, visando desmentir a crença da população sobre a lenda da imortalidade de Zumbi.  Ainda no mesmo ano, D. Pedro II de Portugal recompensou com 50 mil réis o capitão Furtado de Mendonça por “haver morto e cortado a cabeça do negro dos Palmares do Zumbi”.

Zumbi e grande parte dos palmarinos morreram, não seu povo e sua cultura entranhados no povo brasileiro. O Brasil foi construído pelos negros durante 400 anos: é inegável sua contribuição social, econômica, cultural, política e religiosa. São apenas 100 anos de trabalho branco. Conhecer a África e seus descendentes brasileiros é parte do conhecimento do povo brasileiro.

* Não procede a tradição de que tenha comandado soldados na batalha de Batalha de Mbwila/Ambuíla, no Congo, pois essa aconteceu em 1665. O mesmo se diga a respeito de Zumbi: não era neto da princesa Aqualtune. É normal que os heróis façam nascer mitos. A arqueologia na região dos Palmares ainda é incipiente, mas, pode-se dizer, a bibliografia anglo-saxônica é mais objetiva a respeito dos quilombos.

Pe. José Artulino Besen

Anúncios

,

  1. #1 por Aluizio Brand em 20 de novembro de 2012 - 20:08

    Que vida dura que estes negros levaram! Como é possível que homem civilizado tenha feito uso de tantas barbáries. As mesmas crueldades com o exterminio dos indios no Sul do Brasil. Temos liberdade, mas não plena, escravos, brancos e negros. Aprendi com meus Pais e Avós que os negros só tem a cor da pele diferente.

%d blogueiros gostam disto: