DOM ALOÍSIO LORSCHEIDER – PADRE DA IGREJA

Dom Aloísio Lorscheider, OFM

Ao morrer, em 2007, Dom Aloísio estava entre os Padres que participaram de todas as Sessões do Concílio Vaticano II (1962-1965). No Brasil, em 2012 vivem cinco e, no mundo, 76, todos eméritos e participaram de alguma sessão. E, sem dúvida, Dom Aloísio foi o homem colocado pela Providência para liderar a Igreja no Brasil na semeadura do espírito conciliar, especialmente através da unidade com o colégio episcopal brasileiro e latino-americano. Um homem fiel e um homem que viveu sempre a liberdade na profecia.

Dom Aloísio Lorscheider nasceu em 8 de outubro de 1924 no município gaúcho de Estrela. Seu nome de batismo foi Leo Arlindo, depois substituído pelo nome religioso de Frei Aloísio, em 1944. Foi ordenado presbítero em 1948, aos 24 anos. Numa conferência por ele proferida por ocasião do cardinalato tranqüilamente referiu que nunca duvidou de sua vocação, razão de sua alegria e empenho na vida.

Foi atuante na Ordem franciscana, tendo sido visitador da Ordem em Portugal e professor no Pontifício Ateneu Antonianum, em Roma. Sua simplicidade natural escondia um intelectual rigoroso, teólogo competente e um poliglota que dominava o latim, inglês, francês, alemão, italiano, espanhol e flamengo.

Aos 38 anos, em 3 de fevereiro de 1962, foi nomeado pelo Papa João XXIII primeiro bispo da Diocese de Santo Ângelo, RS, sendo sagrado bispo em 20 de maio de 1962. Seu lema episcopal traduziu sua vida: IN CRUCE SALUS ET VITA (Na Cruz, a Salvação e a Vida). No dia 12 de junho, tomou posse da Diocese e, por 11 anos, foi seu bispo diocesano. Sua dedicação à Igreja, aos pobres e doentes deu testemunho de um verdadeiro bom Pastor. Chegou a percorrer a pé 18 quilômetros para atender um enfermo em estado grave.

Dom Aloísio teve a graça de participar ativamente de todas as sessões do Concílio Vaticano II (1962-1965) sendo eleito, em novembro de 1963, membro da Comissão Conciliar para a Secretaria de União dos Cristãos.

Participou de todos os Sínodos dos Bispos em Roma, ordinários e extraordinários, e das Conferências Gerais de Medellín (1968), Puebla (1979) e Santo Domingo (1992). As decisões nelas tomadas pelo episcopado eram também suas decisões na pastoral diocesana.

Renovação na pastoral da Igreja no Brasil

Seu longo episcopado foi contínua vivência e aplicação do Concílio: Igreja povo de Deus, Igreja comunhão e, no seu empenho pessoal, a Colegialidade episcopal que o fez dar nova vida à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil– CNBB, da qual foi Secretário Geral de 1968 a 1971, e Presidente eleito duas vezes: de 1971 a 1975 e de 1975 a 1978. Também se destacou como secretário nacional de Teologia e Ecumenismo da CNBB. Juntamente com seu primo Dom Ivo Lorscheiter e Dom Luciano Mendes de Almeida marcou um período de grande vitalidade e transformação na Conferência Nacional dos Bispos.

Sua humildade e desprendimento silenciosamente plantaram no conjunto dos bispos brasileiro um espírito renovado, onde a fé nunca deve estar desligada da vida, e da vida do povo brasileiro. Foi a época do grande impulso da ação dos bispos brasileiros na busca de pastoral de conjunto e a ação corajosa em defesa dos direitos humanos no auge da ditadura militar, de 1968 a 1978. Homem que não levantava a voz mas, com mansidão e coragem decidida denunciava as injustiças praticadas pelo regime, não receando falar diretamente com os generais governantes em Brasília. Sabia ser respeitoso mediador em situações de conflito, não sentindo a necessidade de agradar.

No mesmo período incentivou os Regionais da CNBB a se unirem para encaminhar soluções aos problemas próprios, com a formulação de documentos que marcaram época: a miséria e a seca nordestina (Ouvi os clamores de meu povo), os índios na Amazônia (O índio, aquele que deve morrer), os direitos humanos (Não oprimas teu irmão) e a ética na política (Exigências cristãs de uma ordem política) . A CNBB foi porta-voz da Igreja e da sociedade brasileira na luta pela democratização. Estimulou a Teologia da Libertação e as Comunidades Eclesiais de Base-CEBs e a organização de movimentos populares. Sua liderança era tão marcante e fraterna que tudo parecida ter brotado dos outros e nada dele. Importante é o Povo de Deus.

Empenhou-se, igualmente, no fortalecimento da colegialidade episcopal latino-americana: em 1972, foi eleito primeiro Vice-Presidente do Conselho Episcopal Latino-Americano-CELAM e reeleito em 1975, assumindo a presidência em 1976.

Além disso, foi eleito vice-presidente da Cáritas Internacional, reeleito em 1972 e assumindo a presidência em fevereiro de 1974.

Arcebispo de Fortaleza e Cardeal

Dom Aloísio Lorscheider, OFM

No dia 4 de abril de 1973, o papa Paulo VI nomeou-o Arcebispo de Fortaleza, assumindo em 5 de agosto. Dom Aloísio tinha a missão desuceder ao santo salesiano Dom Antônio de Almeida Lustosa, que morreu em 14 de agosto de 1974 e cujo processo de beatificação foi encaminhado. Até se perguntava o que um alemão gaúcho faria em Fortaleza. Os verdadeiros pastores são pastores onde se encontra o povo que Deus lhe confia.

Dom Aloísio estimulou a formação do clero, favoreceu que tirassem um ano sabático para estudos, zelou pela formação dos seminaristas. Além disso, reformou e readequou as estruturas da arquidiocese pois, nele, teólogo e franciscano, residia também um hábil administrador. Seus grandes feitos de construtor: a conclusão da imponente Catedral de Fortaleza, as novas instalações da Cúria arquidiocesana, a construção e a ampliação de seminários, as escolas comunitárias na periferia da capital, as 382 casas populares.

No Ceará, fez campanha em favor da reforma agrária e pelo fim dos conflitos de terra no Estado, dando o exemplo com a partilha e entrega de propriedades rurais da Igreja aos seus moradores.

Dom Aloísio Lorscheider, refém na rebelião do Presídio Paulo Sarasate de Fortaleza – CE

Na grande seca de 1978-1983 colocou-se do lado dos sertanejos famintos que se apossavam de alimentos nos armazéns do Governo e que não estavam sendo distribuídos. Defendeu o direito primordial à vida, para escândalos dos bem pensantes e bem viventes. Não foram poucas as ameaças de morte recebidas e que nunca o intimidaram. Visitava os presídios, levando guloseimas e cigarros aos presidiários. Em 15 de março de 1994, ao visitar os presos no Presídio Paulo Sarasate em Fortaleza do qual se denunciavam as precárias condições, aconteceu um motim e foi tomado como refém pelos detentos. Só foi libertado após 18 horas. Quinze dias depois, retornou ao presídio para realizar a cerimônia do Lava-pés com os presos.

Suas grandes iniciativas: a fundação do Centro de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos (CDPDH); a criação do Mensageiro da Fraternidade, ambos dotados da infra-estrutura necessária e em pleno funcionamento; a descentralização da Arquidiocese com a criação das Regiões Episcopais metropolitanas e interioranas de Pastoral. Sua atuação constante junto aos Meios de Comunicação Social: visitas às Emissoras de TV e Jornais, encontros com jornalistas e telecomunicadores; entrevistas, coletivas de imprensa, conferências etc.

Podia-se vê-lo no sertão do Ceará, sob raios de sol esbraseante, a confessar uma pobre penitente, ambos sentados numa tora de madeira ao abrigo de um simples guarda-sol. Sentiu a importância dos centros de peregrinação: todos os anos, invariavelmente, era o primeiro a sentar-se no confessionário ainda pela madrugada para ouvir em confissão os romeiros em Canindé durante a festa de São Francisco. Isto, sempre, até quando com a saúde já abalada, até no dia seguinte à sua volta de São Paulo após a primeira cirurgia do coração. Deu nova vida a esse grande centro de espiritualidade no norte cearense.

No dia 24 de abril de 1976, Paulo VI nomeou-o Cardeal da Santa Igreja romana. Sinal de reconhecimento e apreço pessoal, pois Fortaleza não era sede cardinalícia. Nessa condição, em 1978 participou dos dois conclaves que elegeram os papas João Paulo I e João Paulo II. Seu nome correu como um dos possíveis a serem eleitos e João Paulo I confidenciou que votara nele para Papa.

Como Cardeal, foi escolhido membro do Secretariado para a União dos Cristãos, do Conselho Pontifício “Cor Unum”, da Congregação para os Bispos e Congregação para o Clero, na Cúria Romana. Mede-se a importância de um Cardeal pelos encargos que o Papa lhe confia e a palavra de Dom Aloísio tinha peso especial, pois não era um teórico ou carreirista, mas homem visceralmente de Igreja.

No Santuário Nacional de Aparecida

A saúde do coração de Dom Aloísio não era boa, tendo passado por sérias cirurgias, sempre se pensando que chegara ao fim. Mas, nada demovia o incansável arcebispo que de 1995 a 2004 foi ainda arcebispo de Aparecida, o coração mariano brasileiro.

Revelou-se também hábil administrador empreendendo campanhas nacionais para a conclusão do Santuário-Basílica, a construção de centro comercial afastado para que os camelôs não perturbassem os romeiros e devotos.

Consciente da importância do Santuário, conseguiu da CNBB a indicação do Santuário de Aparecida como Santuário Nacional, onde cada bispo possa sentir-se como em sua Igreja. Para isso, transferiu a sede a Catedral de Aparecida para a igreja matriz Santo Antônio de Guaratinguetá.

Percebendo que muitos fiéis reduziam a devoção a Santo Antônio Galvão às famosas “pílulas milagrosas” engolidas para obter curas, não teve dúvidas de proibi-las em nome da fé e contra usos supersticiosos.

No meio das muitas atividades encontrava tempo para responder às cartas de pessoas do interior cearense, revelando sua simplicidade para agradecer pequenos gestos, como nessa carta à comunidade de Aratuba em 29 de dezembro de 1985, escrita como arcebispo de Aparecida: “… Quero agradecer muito a amizade que sempre tiveram para comigo. Lembro o Caboclo caçando os nhambus e preparando-os para mim com toda a delicadeza. Ele ficava numa satisfação única podendo oferecer-me os nhambus fritos. Muito o brigado a ele! Mas nos nhambus ia toda a cortesia e amizade de vocês. E quando eu vinha a Aratuba, mesmo nos tempos de seca, vocês enchiam o altar de tanta verdura, legume, ovo, galinha, que eu nem conseguia levar tudo no carro. Quanto sacrifício da parte de vocês…”.

Com a saúde sempre mais precária, em 2004 o Papa aceitou sua renúncia e, como humilde frade, o Cardeal Arcebispo passou a residir no Convento Franciscano de Porto Alegre. Ao ser-lhe perguntado que título escrever na porta de sua cela, respondeu prontamente: “Frei Aloísio!” Ali veio a falecer em 23 de dezembro de 2007. A seu pedido, seu corpo foi sepultado no Convento São Boaventura, no município de Imigrante, onde iniciara sua vida franciscana.

Em Dom Frei Aloísio Lorscheider a Igreja no Brasil reconhece um Padre da Igreja à imagem de Francisco de Assis.

Pe. José Artulino Besen

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