ECOLOGIA – LIBERTAR A CRIAÇÃO DO PECADO

Criação de Adão – Catedral de Monreale, Palermo – século XII

Creio em um só Deus, Pai todo poderoso, Criador do céu e da terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis”, assim iniciamos a proclamação de nossa de Fé cristã desde o século IV, e assim a renovamos nos dias festivos. Não afirmamos Deus sem a criação, nem afirmamos a criação sem Deus, nem unimos Deus e a criação numa única realidade. Cremos em Deus que é Pai, e cremos nele como Criador.

Nosso Pai quis que criaturas participassem de seu ser, de sua sabedoria e de sua bondade e beleza (CIC 319). No abismo intransponível da eternidade Ele criou o tempo e, no tempo, iniciou o plantio do Universo e do resplendor das criaturas há incríveis 13 bilhões de anos. E a obra divina não terminou: meu Pai sempre trabalha até agora, e eu também trabalho, disse Jesus (Jo 5,17).

Deus criou a terra para que fosse a casa de Adão e de seus descendentes (Gn 1,28), a nossa casa. Toda a criação, todo o universo são frutos de excesso/desperdício de seu amor, e o ser humano foi criado para com ele dialogar. Escreveu Santo Irineu de Lyon (séc. II) que Deus criou todas as maravilhas do universo e, depois, o homem, a quem presenteou com seus dons maravilhosos. Os teólogos gostavam de afirmar que a criação do homem e da mulher foi obra das duas mãos do Pai, a Palavra e o Espírito. Adão e Eva, homem e mulher são o fruto mais perfeito da amorosa criatividade divina.

Mas, Deus não criou céu e terra por distração, para demonstrar poder solitário. A visão cristã glorifica a criação em sua dignidade, em seu fundamento e em seu destino: a criação foi feita pelo Pai por meio de seu Filho e para seu Filho e “é por ele que subsiste o universo” (cf. Cl 1,16-17); tudo o que nele existe tornou-se vida (Jo 1,3-4), o Filho é o herdeiro de todas as coisas criadas (Hb 1,2), e todas as coisas nele serão regeneradas (cf. Ef 1,10) para que Deus seja tudo em todos (1Cor 15,28).

Na Liturgia concluímos a Oração eucarística com o grande hino de louvor ao Pai “por Cristo, com Cristo, e em Cristo, na unidade do Espírito Santo”. E o Espírito nos oferece o Pão e o Vinho transfigurados em Cristo e, com Cristo, damos ao Pai toda a honra e toda a glória. A cada eucaristia toda a criação é transfigurada em Cristo e nele é salva e, a cada eucaristia, professamos a fé no Deus Pai Criador.

O cristão é necessariamente ecológico

O universo não é somente obra de Deus, mas é também habitado pela presença de Deus: através do Filho feito homem fez habitar na carne humana a plenitude da vida divina (Jo 1,14)

A ecologia, a proteção da criação é compromisso ecumênico no sentido de que nada, nem ninguém, pode se omitir na defesa da obra da criação e, de modo todo especial, os cristãos, que professam a encarnação do Verbo. Deus nos fez senhores, guardiões de sua obra. Se protejo com ciúme o que é meu, embelezo, cultivo, o mesmo devo fazer com a obra divina a mim confiada.

Durante milênios e séculos os rios, os animais e vegetais foram considerados como mero contexto para a vida do homem, nada mais do que instrumentos a seu serviço, do qual se serviu sem cuidado e, com isso, permitindo sua ruína. Achava-se que o desperdício podia ser insaciável no tempo e no espaço.

A tradição cristã não pode separar justiça e paz, condivisão da terra, cuidado pela natureza e pela qualidade da vida humana menosprezando o fato de que Deus acompanhou seu povo nessa terra, o Filho nela viveu e trabalhou, tudo santificando com sua presença.

A criação é um dom de comunhão divina: um dom eucarístico. No pão e no vinho depositados no altar incluímos os pecadores, os leprosos, os doentes, os famintos, os solitários, os estrangeiros, as vítimas da violência, a criação profanada, e tudo oferecemos para que tudo seja transfigurado pelo Espírito: Deus aceita nossa oferta de misérias. E não oferecemos solitariamente: toda Igreja oferece conosco, a do céu e a da terra, pois cada um de nós representa misticamente a totalidade da obra divina. Deus está em tudo e, pela comunhão, estamos em Deus.

Justiça e paz geram a harmonia pela rejeição da desordem e da prepotência do poder, rostos visíveis do pecado. A qualidade da vida humana depende da vida do cosmo, do qual o homem faz parte e no qual tem sua residência por dom de Deus. O pecado original criou a ruptura do homem com o Pai e, através do pecado pessoal, também a ruptura com a humanidade e a natureza. Desse modo passamos a nos guiar por impulsos egoísticos e consumistas, explorando e comprometendo o ambiente em que vivemos, o que faz o Patriarca Bartolomeu I, de Constantinopla, afirmar que “a crise verdadeira não está no ambiente, mas no coração do homem”.

O caminho cristão é sacramental: as obras de Deus nos fazem prorromper em louvor e o fruto do trabalho de nossas mãos igualmente inspiram hinos de louvor e gratidão, numa troca de dons celestes e terrestres.

A redenção do Senhor nos liberta da ruptura com Deus e com a natureza, transfigura e regenera a própria matéria pois “a criação espera com impaciência a revelação dos filhos de Deus” (cf. Rm 8, 19-20). As leis e a ética podem apenas retardar a destruição da obra divina, pois não eliminam o egoísmo: somente a oferta da criação a cada Sacramento pode regenerá-la e salvá-la, por gratidão ao Criador do céu e da terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis.

Pe. José Artulino Besen

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  1. #1 por Gilson Pereira de Melo em 2 de outubro de 2012 - 14:51

    Eu tenho uma total convicção que somente uma filosofia ou religião colocada em ensinamentos simples e praticável pode dar ao Mundo a felicidade em todos os aspectos que tanto anseia. Textos como esse é um exemplo. Como afirma meu professor Masaharu Taniguchi, “todas as religiões bem compreendidas se harmonizam e se completam. Os fundadores das Religiões estão no céu todos unidos, juntos e amigos; só os seguidores, aqui na terra, é que estão se desentendendo e pensando que estão aprendendo coisas opostas.

    • #2 por Pe. José Artulino Besen em 3 de outubro de 2012 - 18:06

      Gilson, obrigado por sua reflexão propositiva a respeito da importância de as religiões serem fontes de unidade. Ou Deus é amor e gera amor em seus filhos, ou não existe.

  2. #3 por Alexandre Borges em 2 de outubro de 2012 - 22:14

    Saudações padre amigo! Parabéns pelo texto. Gostei de ler “Deus não criou céu e terra por distração, para demonstrar poder solitário”. O Deus Aristotélico, criador e indiferente é sem graça e não merece nossa amizade. O Deus de Jesus é mais alegre e cativante. Tem rosto, “que olha” pra gente. Um olhar que “vê”, penetra e dá identidade. Um rosto que nos olhar outros rostos, um olhar que nos remete a outros olhares, uma pessoa amável que nos impele a amar outras pessoas. Abraços!

  3. #4 por Alexandre Borges em 2 de outubro de 2012 - 22:19

    * Um rosto que nos faz olhar outros rostos…

  4. #5 por Pe. José Artulino Besen em 3 de outubro de 2012 - 18:04

    Alexandre: é gratificante quando encontramos pessoas, como você, que vivem sob a tutela amorosa de Deus, o Pai. Pai que nos ama sem condições e que nos leva ao amor gratúito. Assim tantas vezes conversamos nos anos em que convivemos.

  5. #6 por Luiz Heleno em 12 de outubro de 2012 - 23:46

    Eu tambem acho seus textos muito realistas. Gosto demais. Entra no espirito.

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