DOM LUCIANO – SERVO DOS POBRES E PEQUENOS

Dom Luciano Mendes de Almeida

Ernesto Olivero, fundador do Sermig (Serviço Missionário Jovens) em Turim e com presença em São Paulo, autoridade internacional quando se fala em aplicar concretamente as Bem-aventuranças, parece até se exceder quando perguntado sobre o amigo Dom Luciano Mendes de Almeida:

É o maior homem dos últimos séculos. Era um sacerdote até a medula, um modelo para todo padre. Um jesuíta, mas também um Francisco de Assis, com a cabeça de Platão e a mão de Leonardo da Vinci. Um verdadeiro gênio, Nós o vimos morrer entre dores atrozes. Também nisso deu-nos uma lição de vida.

É esse o seu depoimento após longa convivência com Dom Luciano, com quem se encontrou centenas de vezes.

Quando entra em pauta no Congresso brasileiro a redução da maioridade penal, está se ferindo profundamente a memória de Dom Luciano, batalhador incansável pelo encaminhamento e aprovação do “Estatuto da Criança e do Adolescente”, em 1989. O Brasil foi pioneiro nessa legislação, pois a UNESCO votou seu Estatuto no ano seguinte. Infelizmente o próprio episcopado brasileiro não tem feito mais do que declarações de princípios e não oposição sábia e serena de princípios que ele mesmo lutou para serem aprovados. Como se pode alterar o princípio constitucional da maioridade penal após os 18 anos, se nem foram aplicadas as premissas do acolhimento, educação, ambiente familiar, correção previstos no ECA? Incluo esses parágrafos nessa data de 10 de junho de 2015 como memória de gratidão a um batalhador pela formação da criança e adolescente de nossa país.

Bisneto de Cândido Mendes de Almeida, jurista e senador do Império, neto do primeiro Conde Mendes de Almeida, filho do Conde Cândido Mendes de Almeida Júnior e Emília de Melo Vieira Mendes de Almeida, Dom Luciano Pedro Mendes de Almeida, nascido no Rio de Janeiro em 1930, teve no sangue e no berço o instinto do intelectual engajado, brilhante e respeitoso de todas as opiniões. É de sua família a universidade Cândido Mendes, do Rio de Janeiro. Aos 16 anos ingressou na Companhia de Jesus e foi ordenado presbítero em Roma, em 5 de julho de 1958. Filósofo e teólogo, brilhava pela cultura cosmopolita, dominando o português, inglês, alemão, francês, italiano, espanhol e latim.

Homem de intensa atividade, que conciliava com intensa oração. Seus colegas jesuítas, ao verem-no carregando pequena mala, não sabiam se estava saindo ou chegando. Cioso do tempo, não passava a impressão disso, pois sabia escutar e dirigir a conversa ao essencial.

Seu engajamento social e espiritualidade comprometida despertaram a atenção do arcebispo de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns,ofm, que conseguiu tê-lo como Bispo auxiliar para a região episcopal paulista de Belém, sendo ordenado bispo em 2 de maio de 1976, escolhendo como lema episcopal In nomine Iesu – Em nome de Jesus. Ali Dom Luciano era imagem do bom pastor e do bom samaritano. Ao final de um dia de trabalho, noite avançada, recolhia os mendigos que dormiam na soleira de sua casa, lavava-lhes os pés, fazia-lhes as unhas e preparava pessoalmente uma substancial sopa, servida carinhosamente a cada um. Colocava mendigos a dormir em sua cama, ele contentando-se com o chão. Os pobres eram os únicos que sabiam onde encontrá-lo. Isso lembra os bispos da Alta Idade Média: ao chegar na cidade, as pessoas sabiam onde residia o bispo: bastava olhar onde havia uma fila de pedintes. Ali morava o bispo, o “Pai dos Pobres”.

Tudo isso era feito com alegria, e aumentava sua felicidade de viver. À pergunta “quais os momentos mais felizes de sua vida?”, pouco antes de sua morte, respondeu:

Minha vida toda é muito feliz. Uma das coisas que Deus me faz compreender é o valor da história e da consciência. O processo do Plano Divino de Salvação se faz em todos os momentos, tudo tem uma carga axiológica, um valor especial. Claro que há momentos de mais intensidade, tanto nas alegrias quanto nas tristezas, eu diria na vivência profunda da história. Poderia sublinhar alguns momentos felizes. 

O primeiro é o contato com o sofrimento humano, perceber que a história é muito marcada por aspectos positivos e também negativos. Penetrar nesse sofrimento, comungar com esse sofrimento, partilhar esse sofrimento, creio que isso proporciona uma carga existencial muito grande. 

Trabalhei cinco anos na prisão, na Itália, depois com as populações mais pobres na periferia de são Paulo, hoje com os ambientes rurais pobres de Mariana. Eu creio que isso dinamiza muito a própria vida numa fase de experiência e comunhão existencial.

Bispo com os bispos, cristão com todos

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB vivia a época dos grandes compromissos com os direitos humanos e a justiça social: os bispos o elegeram Secretário geral entre 1979-1987, e Presidente entre 1987-1991. Ao ser eleito Presidente, com singeleza respondeu a um jornalista que queria conhecer sua “plataforma”:

«Peço a Deus atuar na conversão dos homens do egoísmo ao verdadeiro amor, sem conformismo e sem a impaciência dos violentos, para que as estruturas da convivência humana correspondam cada vez mais à dignidade dos filhos de Deus».

E assim fez sempre, sem outra bandeira que a da dignidade dos filhos de Deus.

Augustinho Wernet, historiador e professor da USP, ex-jesuíta, assim o definiu:

«Dom Luciano era um padre que rezava de verdade, praticava a caridade de modo radical; neste mundo secularizado viveu uma religiosidade de cunho bíblico e evangélico».

Sua capacidade para o diálogo e incapacidade para alimentar conflitos sem abandonar valores cristãos e eclesiais fez com que fosse indicado para visitar regiões de conflito em nome do episcopado latino-americano. Desse modo, passou por todos os países da América Central, que por anos sofreram a morte e a destruição de guerras civis. Nos anos 1980-90 entrou em contato com a Guatemala, El Salvador, a Nicarágua, Honduras, o Panamá, mais tarde também com Cuba, e tudo isso despertando fortemente nele a consciência da América Latina. Foi vice-presidente do Conselho Episcopal Latino-Americano-CELAM (1995-1999).

Viveu os momentos dramáticos dos funerais de Dom Oscar Romero (assassinado durante a missa em 24 de março de 1980), em El Salvador. Foi um dos três bispos presentes e viu a explosão da bomba, o tiroteio contra a população, as mortes na praça, vivendo um momento de grande dramaticidade, ajudando no enterro de Oscar Romero dentro da igreja, horas, e horas, e horas, junto com aquele povo que tão sofrido.  Dom Luciano, ao dizer “fui um dos três bispos”, poderia ter acrescentado que os outros bispos salvadorenhos não comungavam com Dom Romero e não participaram de seu sepultamento. Mas não o fez, pois o importante é que ele estava ali, com o povo.

Experimentou, também, a guerrilha e a situação de conflito no Líbano, onde esteve em contato com doze grupos religiosos diferentes em 1987. Era um momento de grande aflição para o Líbano, e ali, falando com os sunitas, com os xiitas, com maronitas, os armênios, com os caldeus, ficando muito impressionado com o sofrimento daquele povo, que buscava de novo a sua harmonia, o seu diálogo depois de tantos momentos de aflição.

Como bispo, cristão e brasileiro, ficou marcado pelas injustiças com problemas de terra no Brasil, especialmente o assassinato de padre Josimo, de padre João Bosco Burnier, de padre Ezequiel Ramin e a prisão dos padres Aristides e Francisco Goriou. Tudo isso acompanhou de perto ficou marcado pelos sofrimentos desses irmãos na fé, com conseqüências para seu compromisso com os pobres no Brasil e na América latina.

Em 1988 foi eleito arcebispo de Mariana,MG unindo intensa vida pastoral com o dia-a-dia visitando e socorrendo doentes em hospitais e asilos. Para Dom Luciano, o rosto do pobre era tão claramente o rosto de Cristo como a luz do sol meridiano.

A batalha de sua vida, porém, foi a Pastoral do Menor. Ninguém como ele amou os menores das ruas brasileiras. Ninguém como ele chorava ao ver os olhares dos “cristãos” pedindo a elevação da maioridade penal, da punição aos jovens.

Era um prazer escutar Dom Luciano: a beleza da frase, o humor fino, a profundidade do conteúdo, proferido com tanta simplicidade que parecia evidente o que se ouvia. Inteligência de sínteses, era capaz de ouvir dezenas de opiniões e, ao final, sintetizá-las no que tinham de melhor e fazê-las aceitas. Mesmo cochilando durante graves discussões, ao acordar fazia a gentileza de resumi-las.

Teve participação ativa no movimento pela democratização do Brasil, mas nunca se entusiasmou por bandeiras partidárias, pois via com clareza que o partido que melhor expressava essa luta, o Partido dos Trabalhadores, sabia o que deveria ser feito, mas não preparou pessoas competentes para fazê-lo. Em entrevista meses antes de sua morte, assim se referiu à atuação do governo Lula e da atração que exercia em movimentos católicos:

Posso, sim, recordar que houve um empenho muito grande da Igreja, mas não houve uma receptividade daqueles que estão no governo. Várias vezes houve tentativas de aproximação, de diálogo, mas houve um distanciamento muito sério da parte daqueles que estavam e estão dirigindo o governo. O motivo eu não sei, mas era um momento de grande expectativa para uma convergência de propostas, e isso não aconteceu.

Portanto, creio que não devemos incriminar a Igreja por não ter colaborado, mas também questionarmos o governo por que não colaborou com a Igreja e com várias entidades populares. Pelo contrário, fica a impressão de que houve o seguimento de certas normas da economia internacional sem haver a criatividade e a urgência de um planejamento de políticas públicas para o beneficio do povo.

Em relação ao PT, nunca houve na história do Brasil tanto apoio. Tanto que, às vezes, até confundiam Igreja Católica e PT, o que eu acho que não foi correto. Atualmente, posso dizer que nunca houve tanta participação, tanta vontade, tanta expectativa frustrada

(Entrevista foi concedida à IHU On-Line,
em 8 de outubro de 2005).

Pela cruz à Luz

Em 1990, um acidente comprometeu a saúde de Dom Luciano. Seguidas transfusões de sangue deixaram como herança a hepatite C, causadora do câncer no fígado que o derrubou no Hospital das Clínicas. Pacientemente, a cada dia ele mesmo aplicava uma injeção em seu fígado).

Em 2 de março de 2006, sofreu intensamente a perda da irmã querida, Elisa Maria, tocada pelo Mal de Alzheimer, e que residia com ele. Na coluna semanal na Folha de São Paulo (4 de março de 2006), escreveu com dor e fé, revelando a profundidade de seu coração humano e cristão:

Elisa Maria , minha irmã, partiu para o céu há dois dias. Estava para completar 74 anos. Vida bela de quem só fez o bem. Todos passamos por situações difíceis quando pessoas queridas são chamadas por Deus.

Agradeço a Deus ter podido permanecer com minha irmã Elisa ao longo desses últimos dias e tê-la acompanhado no momento em que Deus a chamou para o prêmio eterno. Passou por sofrimentos de uma doença, parece congênita, que limitou aos poucos os seus movimentos e até a posse de sua memória e consciência. Sua comunicação reduziu-se cada vez mais. Durante os últimos meses, não conseguia mais falar. Limitava-se a abrir os olhos. Todos aguardávamos um sinal, pequeno que fosse, de sua compreensão. Mas não conseguia responder aos estímulos. Foi assim que Deus a convidou para deixar esta vida. Agora ela não sofre mais. Está em paz. …

Elisa querida, na paz de Deus, ajude-nos agora a viver fazendo o bem como você.

Um pequeno grupo de familiares rezava a seu lado as Ave-marias aguardando o chamado para o céu. Na hora do Ângelus, Elisa Maria deixou esta terra. Segredei-lhe com amor: “Vai para Deus. O céu é belo, e ficará mais belo ainda quando você chegar”. Dom Luciano não podia imaginar que cinco meses depois se encontraria com ela!

Nas tantas vezes que ia a Roma, nos últimos anos como membro Pontifícia Comissão Justiça e Paz, tinha o prazer de se reunir com o santo ex-bispo de Saigon, o Servo de Deus Cardeal Francisco Xavier Van Thuan, que ficou nove anos na prisão incomunicável, no Vietnã: “foi a pessoa que mais bem me fez na vida e considero uma grande graça tê-lo conhecido”.

Nessas ocasiões, uma visita lhe era indispensável: a Norberto Bobbio (1909-2004), filósofo político, historiador do pensamento político e autoridade máxima na filosofia do direito, senador vitalício desde 1984. Um encontro de amigos: o bispo que alimentava a fé na Cruz de Cristo e o filósofo, ateu por causa da Cruz dos inocentes. Os dois tinham em comum o amor pelo ser humano e Dom Luciano podia afirmar o mesmo que Bobbio:

«Fomos educados a considerar todos os homens iguais e a pensar que não há nenhuma diferença entre quem é culto e quem não é culto, entre quem é rico e quem não é rico»”.

A Irmã Morte o alcançou no dia 27 de agosto de 2006, sábado, festa de Santa Mônica. Apertando as mãos do irmão Luiz Fernando Mendes de Almeida, ingressou na eternidade dizendo: “Deus é Bom!”

Daqui de meu canto, imagino Norberto Bobbio correndo ao seu encontro para lhe dizer: “Luciano, a Cruz dos inocentes é pura Luz, foi a minha salvação”. E Dom Luciano: “Deus é sempre bom”.

Dom Luciano foi para o céu, que ele assim definiu na conferência proferida no 15º  Congresso Eucarístico Nacional, em Florianópolis, no dia 20 de maio de 2006:

Há um tempo queria muito ver o céu, saber como é lá. Um dia subi no céu. Não pensei que era tão bonito, fiquei contente com tanta música, pessoas dançando na presença de Deus. Mas, de repente, percebi que eu estava escondido atrás de uma árvore. Descobri que o céu é ver os outros felizes.

Nossa vida nesse mundo é fazer o bem. Nossa alegria e paz são diferentes. Reconciliemo-nos com o projeto divino de salvação. A vontade de Deus é o nosso paraíso.

Como esquecemos a expressão do Pai Nosso “seja feita a vossa vontade”… Não existem exceções para este pedido. Deus nos dá força para enfrentarmos as dificuldades, inseridos no cotidiano da vida humana.

Três meses depois Dom Luciano vivia a realidade do céu, a comunhão com Deus e com todos.

Está sepultado na cripta da catedral de Mariana abaixo do túmulo de outro santo, o bispo Dom Antônio Ferreira Viçoso (+1875). Dois Servos de Deus, com os processos de canonização encaminhados. Na verdade, em 4 de maio de 2011, Dom Geraldo Lírio Rocha, sucessor de Dom Luciano em Mariana, solicitou que os bispos brasileiros reunidos em Assembléia Geral que assinassem a petição da beatificação a ser encaminhada à Santa Sé. Os mais de 300 bispos responderam com uma sonora salva de palmas, pondo-se prontos para atender ao pedido. Em agosto do mesmo ano o pedido foi encaminhado à Santa Sé.

Numa palestra no Pio Brasileiro, em Roma, no ano 2000, Dom Luciano disse, com bom humor, que um dos problemas da Igreja é a pouca presença de teólogos santos. Com ele, a Igreja tem um teólogo e um bispo santo e sábio. Um bispo verdadeiro, pai dos pobres, que viveu como paraíso o serviço aos pobres.

Na pedra funerária que cobre seu túmulo está gravado:

«Na Paz do Senhor descansa aqui o Exmo. Senhor Dom Luciano Pedro Mendes de Almeida. Adepto da Companhia de Jesus, Doutor em Filosofia e na Sagrada Teologia, mas conhecido, sobretudo como Mestre na observância do Amor. Quarto Arcebispo de Mariana. Em verdade foi um lúcido Pregoeiro da doutrina evangélica, um Prelado manso e carinhoso. Afável Patrono das crianças e dos necessitados, também presidiu a Conferência dos Bispos do Brasil. Sacerdote fidelíssimo de Deus amou verdadeiramente a Igreja de Jesus Cristo. Nascido em 05/10/1930 e falecido em 27/08/2006, regeu brilhantemente esta Igreja por dezoito anos e três meses. Chorosas, as ovelhas marianenses recomendam encarecidamente a Deus um tão grande Pastor. Dom Luciano, luze na Luz».

Pe. José Artulino Besen

  1. #1 por Telma Helena Tomaz de Carvalho em 27 de agosto de 2012 - 10:23

    Deus seja louvado nos seus anjos e nos seus “santos”!

  2. #2 por Telma Helena Tomaz de Carvalho em 27 de agosto de 2012 - 10:26

    Que Dom Luciano possa no Céu interceder ao Bom Deus por nós, ainda tão presos a este pobre mundo.

  3. #3 por Edegar Fronza Junior em 28 de agosto de 2012 - 18:40

    Belíssimo texto sobre Dom Luciano. Somos gratos, por nos recordar o verdadeiro espírito cristão que deve fazer de nossa vida cotidiana. O Bom LUciano é exemplo exímio de fidelidade e amor ao Eavnegelho e aos mais pobres. Que o Senhor suscite, mais bispos à exemplo desse profeta do Brasil!
    Obrigado!

  4. #4 por Pe. José Artulino Besen em 30 de agosto de 2012 - 17:49

    Edegar,
    obrigado por sua leitura e incentivo. A fidelidade dos grandes homens da Igreja desafia-nos também à mesma fidelidade, ou, ao menos, a aproximarmo-nos deles.
    Pe. José

    • #5 por Luiz Heleno em 31 de agosto de 2012 - 00:14

      Legal, Pe. Besen, não sabia nada sobre Dom Luciano. Sou fã de seus textos.

      • #6 por Pe. José Artulino Besen em 10 de setembro de 2012 - 09:25

        Luiz Heleno, isso aumenta meu compromisso. Na simplicidade busco evangelizar, de modo particular retratando sempre o amor de Deus e o amor dos que aceitam o amor de Deus.

  5. #7 por Adelaide Viestel em 13 de janeiro de 2013 - 15:03

    O Texto engrandece o espirito, alegra-o e mostra quanto caminho a trilhar. Que Dom Luciano, na sua bondade, nos ajude a realizar nossa missåo.

%d blogueiros gostam disto: