ABRAÃO, NOSSO PAI NA FÉ

Sacrifício de Isaac – Rembrandt

A teologia, a arte, a literatura, a religiosidade adulta nunca se cansaram do fascínio de contemplar Abrão – pai exaltado e Abraão – pai de uma multidão (cf. Gn 17,5). A sonoridade rude de seu nome já indica a estatura desse homem verdadeiro, fiel e santo. É o elo ecumênico das grandes religiões monoteístas: judeus, cristãos e muçulmanos o chamam de “Pai”. Através de Paulo, Abraão entrará na tradição cristã como o Santo da Fé e a Igreja católica o celebra em 9 de outubro. É impossível não amá-lo e admirá-lo com reverência. Sören Kierkegaard escreveu em Temor e tremor: “Homens foram grandes pela sua energia, sabedoria, esperança ou amor. Abraão, porém, foi o maior de todos: grande pela energia cuja força é a fraqueza, grande pela sabedoria, cujo segredo é a loucura, grande pela esperança cuja força é a demência, grande pelo amor que é o ódio de si mesmo. Foi pela fé que Abraão abandonou a terra de seus pais e foi estrangeiro em terra prometida. Deixou uma coisa, a sua razão terrestre, e assumiu uma outra: a fé”.

Ele foi justificado por Deus pela fé (Gn 15,6) antes de ser circuncidado (Gn 17,24). Circuncisos e incircuncisos são herdeiros de Abraão, pois a salvação não vem das obras humanas, mas como dom divino acolhido na fé, na aridez da fé. Não se é filho de Abraão pela raça ou nação, mas pela adesão de fé. O seio de Abraão (Lc 16, 22-23) é símbolo da comunhão de todos os homens com Deus.

O chamado de Abraão

Dezenove século antes de Jesus Cristo, muito rico em ouro e prata, estava Abraão com seus 75 anos, cuidando de seu numeroso rebanho em Ur, perto do grande rio Eufrates, quando o Senhor lhe falou: “Parte da tua terra, da tua família e da casa de teus pais para a terra que eu te mostrarei. Eu farei de ti uma grande nação e te abençoarei” (cf. Gn 12, 1ss). A segurança que Deus propõe de uma grande nação será conseqüência da insegurança radical: deixar tudo e não indicar nada, nem lugar nem caminho, somente partir e seguir. E isso Abraão faz, partindo com sua mulher e rebanho.

No meio do caminho houve grande seca e fome, e Abraão seguiu para o Egito, ali padecendo dura provação: sua esposa Sara era muito bonita e os comentários chegaram ao Faraó. Para dispor dela, os homens assassinariam Abraão. Para salvá-la, Abraão pediu-lhe que dissesse ser sua irmã, mas, por isso mesmo o Faraó a possuiu. Ao saber que era sua esposa, o Faraó lamentou e devolveu-a, ofereceu presentes ao casal. Foi salvo por sua esposa ao preço de grande dor. E, de pastagem em pastagem, seguiu o cominho anunciado por Deus, mas não indicado.

Descendência de Abraão

Sempre caminhando, peregrinos em busca de pastagens, Abraão e Sara chegaram a Jerusalém, onde foram abençoados pelo rei e sacerdote Melquisedec a quem ofereceram o dízimo de tudo. Não pede identidade, ele que tinha enfrentado e vencido tantos reis tribais. Diante do mistério desse homem que o abençoava, seguiu a estrada de honrá-lo.

Anos depois, o Senhor novamente lhe fala, prometendo-lhe grandes riquezas, e Abraão lamenta essa doação, pois não tinha filhos e tudo iria para a mão de estranhos. Grande promessa a um velho sem filhos: “Contempla o céu e conta as estrelas, se conseguires contá-las. Tal será a tua descendência” (cf. Gn 15, 1ss). Homem de fé, acreditou, mas, estava com 86 anos e Sara não lhe tinha dado filhos. É Sara que o aconselha a procurar a serva Agar, e essa dá-lhe Ismael, o filho do pranto. Sara foi tomada pelo ciúme e Abraão deu-lhe permissão de fazer o que quisesse com Agar e Ismael. Sara os expulsa de sua tenda e seguem pelo deserto, sendo também objeto de promessa de descendência numerosa. Ismael é o Pai dos árabes.

Estava Abraão com 99 anos quando, em Mambré, recebeu a visita de três homens aos quais, como homem do deserto, ofereceu água, alimento e hospedagem. A recompensa vem com a bênção dada por um dos homens: “Eis que Sara, tua mulher, terá um filho” (cf. Gn 18, 1ss). Sara deu risadas: “Murcha como estou, poderia eu ainda gozar? E meu senhor é tão velho!” (Gn 18,12-15). O mesmo Senhor, porém, que faz o galho seco brotar, torna o útero estéril fecundo. Houve discussão entre o casal, pois Deus perguntou por que Sara tinha rido. Ela negou: “eu não ri”, pois tinha medo. “Sim! disse Abraão, tu riste!”. Ficaram em paz e Sara concebeu e deu à luz um filho a quem pôs o nome de Isaac (que significa filho do riso). Ela exclamou: “Deus me deu de que rir!” (Gn 21, 6).

Abraão ainda não sabia pedir

Lot, sobrinho de Abraão, residia com sua família em Sodoma. Juntamente com Gomorra, eram antros de perdição e o Senhor decidiu destruí-las. Violando toda a lei da hospitalidade, quiseram sodomizar os homens que visitavam Lot. Respeitando a hospitalidade, Lot ofereceu suas filhas virgens. Não aceitaram e agora queriam tudo: sodomizar homens e mulheres. Deus salvou-os: uma cegueira impediu-os de enxergar a entrada da tenda (Gn 19, 1ss).

Comovido com o destino de toda a população, onde nem todos eram perversos, Abraão intercedeu pela cidade, num diálogo cheio de confiança. Abraão pergunta: Senhor, se houver 50 justos em Sodoma, perdoas? – Perdôo, responde o Senhor. E se houver 45? – Eu salvo a cidade, responde Deus. – E se houver 40? Sodoma está salva! – E apenas 30? Salvo pelos 30. – E se houver 20 ou 10? E o Senhor responde: Eu não a destruirei por causa dos 10. Nessa hora Abraão fraquejou, pois conhecia a misericórdia divina, mas não sua infinita misericórdia: perdoaria se intercedesse por apenas um. E assim, Sodoma e Gomorra foram destruídas pelo fogo, tendo sido salvos Lot e a família (cf. Gn 18, 16-33).

Isaac – promessa e sacrifício

Por muitos anos Abraão pastoreou seu rebanho em Gaza, terra dos filisteus. O Senhor julgou que estava tudo indo muito bem e que necessitava de mais uma prova. E o chama: “Abraão”; ele respondeu como em todos os chamados: “Eis-me aqui”. Ele prosseguiu: “Toma o teu filho, o teu único filho Isaac, que amas. Parte para a terra de Moriá, e lá o oferecerás em holocausto”. Abraão não respondeu, mas decidiu pela obediência da fé. Na manhã seguinte, em meio ao absoluto silêncio de Deus, viaja com Isaac e mais dois criados. No terceiro dia, ao aproximar-se do lugar indicado pelo Senhor, disse aos criados que ficassem ali e, catando achas de lenha, seguiu com seu filho Isaac, a quem explica que oferecerão um sacrifício ao Senhor. O inocente jovem pergunta: Meu pai, onde está a vítima para o sacrifício? Deus providenciará, meu filho, responde o velho pai. Na solidão extrema restavam somente “meu pai” e “meu filho” e a silenciosa exclamação de Abrão, nas palavras do poeta Turoldo (O sacrifício de Isaac): “Ó meu Senhor, amado e cruel!”. Tinha afastado Ismael, o filho do pranto, e perderia Isaac, o filho do riso.

Abraão ergue um altar, espalha sobre ele a lenha e nela amarra Isaac. Estende a mão para apanhar o cutelo e imolar seu filho. O anjo do Senhor intervém, segura a mão de Abraão e grita: Abraão!, e este responde: Aqui estou! Ordena-lhe não sacrificar o menino e apresenta-lhe um carneiro (cf. Gn 22,1-18). Certo da fé irremovível de Abraão, o Senhor renova as bênçãos a ele e àqueles que o seguirem na fé.

Quando o anjo lhe apresenta o carneiro, Abraão e seus seguidores entenderam que Deus não quer sacrifícios humanos. O único que ele aceitou, séculos depois, foi o de seu Filho.

Sacrifício de Isaac – Rembrandt – detalhe

No decorrer da história, muitos artistas tentaram com tintas expressar a cena do sacrifício de Isaac. Um  dos mais significativos seja Rembrandt (1606-1669), na tela reproduzida no início do texto: as mãos enormes do velho pastor Abraão, cheio de dor, mas sereno, tampam o rosto do filho para que não veja o que seu pai lhe fará; com força ergue o punhal e um anjo espantado, também com força aperta-lhe o punho e a arma se desprende.

O gesto de amarrar o filho sobre o altar é a mais pura prova da fé, levada a seu extremo: a promessa divina tinha-lhe dado um filho e agora o tomava, anulando-a. Abraão estava disponível para renunciar a tudo, confiando apenas em Deus. Faltava-lhe ainda a Terra prometida.

A única propriedade de Abraão

Desde que deixou sua terra, em busca da Terra da Promessa, Abraão não teve mais propriedades. Vivia como pastor errante, procurando pastagens para seu rebanho, na mesma paisagem palestina onde hoje os beduínos pastoreiam.

Estão velhos, e Abraão se preocupa em ter um lugar para a sepultura de Sara. Não queria que fosse numa terra cujos futuros donos nada soubessem de quem ali estaria sepultada. Em Hebron adquiriu uma propriedade, a primeira de sua existência errante, pois sempre foi um peregrino em busca da Terra da Promessa, e ali sepultou Sara. Não quis ser separado dela, por isso um chão para os dois, lugar final do descanso.

E ali, no hoje denominado Túmulo dos Patriarcas, foram depositados Sara e, anos depois, Abraão, o homem que teve fé (cf. Gn 23, 1ss; Gn 25, 8-10). Anos depois ali também foram sepultados Isaac e Rebeca, Jacó e Lia, os Três Patriarcas. Hoje o local é chamado pelos árabes muçulmanos de Haram el-Khalil, que quer dizer “lugar sagrado do amigo (de Deus)”. É o lugar de Abraão, o amigo de Deus.

Esse pequeno chão foi a confirmação do longo e demorado caminho cujo início tinha sido: “Parte da tua terra, da tua família e da casa de teus pais para a terra que eu te mostrarei. Eu farei de ti uma grande nação e te abençoarei” (cf. Gn 12, 1ss).

Pe. José Artulino Besen

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  1. #1 por Edegar Fronza Junior em 10 de agosto de 2012 - 17:43

    O que mais fascina em Abraão é a confiança nas Promessas de Deus. Aquilo que Deus diz, faz acontecer na vida desse humilde homem. É um grande exemplo para nós, cristãos. Buscar uma fé sólida e inabalável como a de Abraão, capaz de entregar tudo o que tinha de mais precioso, inclusive seu filho.
    Obrigado pela excelente reflexão!

  2. #2 por Irmã Marlene em 15 de agosto de 2012 - 18:57

    Padre José, encontrei o seu Blog. Adorei.
    Fico admirada com sua reflexão parabéns pelos textos.

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