ALTÍSSIMO, ONIPOTENTE, BOM SENHOR

Altíssimo – pintura de Giustina de Toni

Francisco de Assis é o Santo universal. Sua figura humana é das mais perfeitas e encantadoras que o gênero humano produziu. Ninguém, como ele, foi tão feliz, tão despojado, tão livre. Sua santidade confunde-se com a liberdade total: podia amar ilimitadamente a todas as criaturas, sem nada querer para si, de nada se apropriando. Foi o homem mais livre que conhecemos. Ele realizou em grau máximo o sonho da liberdade, que é o sonho de todos, crentes e descrentes, bons e maus, cristãos e não cristãos, pois ser humano é querer ser livre. Francisco de Assis foi livre.

No mês de abril/novembro de 1225, no pequeníssimo jardim do Convento de São Damião, onde residiam Clara e suas discípulas, numa revelação, teve a promessa da vida eterna. À noite, quase cego e fora de si de tanta dor e desconforto, em estado febril, sozinho em sua cabana de palha, atormentado pelos ratos que não o deixavam dormir, explode de alegria e louvor ao Criador, e compõe o Cântico das Criaturas (também conhecido como Cântico do Irmão Sol), canto de amor ao Pai de toda a criação. Depois arranjou uma melodia que ensinou aos frades para que o cantassem.

O Cântico do Irmão Sol mostra o desejo alimentado por Francisco, até o fim da vida, de ver o mundo inteiro num estado de exaltação e louvor a Deus. É a mais bela oração depois dos Salmos, e o início da poesia italiana. O Cântico tem início com o louvor ao Deus altíssimo.

Altíssimo, onipotente, bom Senhor,
Teus são o louvor, a glória, a honra
E toda a bênção.
Só a ti, Altíssimo, são devidos:
E homem algum é digno
De te mencionar.

Francisco proclama Deus como altíssimo, onipotente e bom. Deus é tão alto que penetra os céus dos céus, e faz-se tão baixo que toca o chão da terra. Sua beleza e grandeza por tudo se expandem, não permitindo que nossas mãos se ergam para um ponto único, pois tudo canta os louvores do Senhor e nós mesmos nos transformamos em puro louvor.

A ciência sempre mais nos encanta com miríades de galáxias, estrelas e planetas espalhados pelo universo e pelas minúsculas partículas que compõem a matéria. O homem penetra as vastidões do universo em busca do Criador e, quanto mais ascende, mais seus pés buscam apoio  na matéria em cujo interior busca os segredos da criação.

Nele, em Deus, a altura se confunde com a profundidade e, “do abismo profundo clamo a ti, Senhor!” (Sl 129,1). Há uma correspondência entre a profundidade do coração e a altura de Deus. Quanto mais subirmos, mais longe o Deus altíssimo se encontra, quanto mais penetrarmos nosso abismo profundo, mais perto dele estaremos. O altíssimo é profundíssimo, e quer ser encontrado nas vastidões imensas de nosso ser.

Como fazemos confusão entre altura e distância, ficamos na superfície de nossa interioridade e não conseguimos contemplar aquele que habita nossa profundidade. São Paulo escreveu que ninguém conheceu ou mediu a altura, a profundidade e a largura de nosso Deus. Quanto mais quisermos conhecer essas medidas mais longe estaremos de qualquer encontro de amor, de alegria e coragem, pois a Deus não se mede pelas medidas das coisas, mas pela profundidade do amor e da humildade.

Homem algum é digno de mencionar o nome de Deus, que a tudo ultrapassa, mas Jesus ensinou-nos que “somente Deus é bom” e, por isso mesmo, devemos chamá-lo de Pai, Abbá. Com o nome de Pai subimos às alturas do amor divino e Deus desce às profundidades de nosso ser filial que continuamente clama por ele “que tem o seu trono nas alturas e se inclina lá do alto a olhar os céus e a terra” (Sl 112, 5-6).

O Altíssimo manifesta sua humildade ao nos criar, não de qualquer jeito, mas tecendo-nos no ventre de nossa mãe. O santo homem Jó, mesmo abandonado na miséria e coberto de feridas, embevecido canta a quem o criou: “Tuas mãos me plasmaram e me fizeram íntegro em cada parte” (Jó 10,8). O Deus altíssimo, porém, criou o homem “imperfeito”, mas nele incluiu um grande desejo, um impulso de perfeição. Há no homem um profundo desejo de perfeição que o leva sempre mais a procurar o Altíssimo, cada vez mais participando de sua perfeição. Aspira a superar-se, pois nunca está satisfeito. O pobre em nós busca tornar-se rico. O homem aspira ao que é maior do que ele e orienta-se ao totalmente outro, o Deus nosso vizinho, que faz sua casa na vastidão de nosso coração.

Se nós renunciarmos à subida até Deus permaneceremos na escuridão da morte, pois não é possível viver sem vida e não há vida sem a participação de Deus. Ver Deus e gozar de sua plenitude é ter a vida. “A glória de Deus é o homem vivente e a vida do homem é a visão de Deus”, proclamou Santo Irineu no século II, iluminado pela Luz do Alto que nos veio visitar.

Teus são o louvor, a glória, a honra e toda a bênção, canta Francisco. Somente o Altíssimo é digno de nosso louvor, glória, honra e bênção e, ao mesmo tempo, oferece-nos a alegria e a honra de louvá-lo, ele que tudo contém e tudo coloca em nossas mãos. Oferece-nos uma ponte que possibilita a ligação com ele: seu Filho se encarna na natureza humana, trazendo as alturas às profundidades e levando as profundezas ao altíssimo e bom Senhor. O Filho, o Senhor, libertou-nos da solidão e gera a comunhão entre o céu e a terra, entre o Deus Altíssimo e o homem. O Altíssimo torna-se infinitamente Pequeno e o pequeno, infinitamente grande. Então podemos cantar com todas as criaturas celestes “glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens por ele amados”.

Pe. José Artulino Besen

Anúncios
  1. #1 por Luiz Heleno em 28 de julho de 2012 - 01:34

    Ótimo texto, Pe. José, fala bem da realidade do ceu da altura em Deus.

  2. #2 por Edegar Fronza Junior em 30 de julho de 2012 - 19:01

    Parabéns pelo excelente meditação. Suas palavras são ricas em conteúdo e nos expressam profundidade que brota de alguém que vive em Deus. Esperamos pelas outras meditações que o senhor nos proporciona, olhando para o “pobre de Assis”.
    Muito obrigado!

  3. #3 por Edegar Fronza Junior em 2 de agosto de 2012 - 13:14

    Obrigado por sua meditação sobre o Altíssimo. Figura ilustrativa fantástica de São Frascisco.
    Que expressividade! Suas meditações nos enriquecem.

%d blogueiros gostam disto: