V – O LADO ABERTO, MANANCIAL DE ÁGUA VIVA

O Lado Aberto

“Quando Deus iniciou a criação do céu e da terra, a terra era deserta e vazia, e havia treva na superfície do abismo; o sopro de Deus pairava na superfície das águas” (Gn 1,1-2). Somente o sopro de Deus poderia dar vida à criação. E Deus, então, disse: “Que a luz seja” (Gn 1,3c). E a Palavra de Deus comunicou vida à obra da criação. Pela Palavra, as águas tornaram-se geradoras de vida, mas a liberdade levou os primeiros pais ao pecado, e as águas geraram a morte pelo dilúvio. E a sede de águas vivas é plantada no coração do ser humano e de toda a criação: sede cósmica da presença do Criador.

Os profetas anunciavam um tempo de águas repousantes, quando Deus conduziria seu povo junto a mananciais onde pudesse descansar da sede de sua presença (cf. Is 49,10, Sl 23[22]). Esses tempos messiânicos têm início com a encarnação do Filho e com o mistério que se irradia a partir do Monte Calvário: a Paixão, Morte-Ressurreição e Ascensão. O Espírito enviado pelo Pai é o autor da fecundidade da Cruz.

Em cada Liturgia, contemplando o Crucificado, recordamos que “um dos soldados feriu-lhe o lado com a lança, e imediatamente saiu sangue e água” (Jo 19,34). Os Santos Pais da Igreja viram o Espírito na água que sai do lado direito do peito do Senhor, o Espírito realização da palavra à samaritana junto ao poço de Jacó: “A água que eu lhe darei se tornará nele uma fonte que jorrará para a vida eterna” (Jo 4,14). E no sangue, contemplaram a vida eterna: “E o pão que eu darei é a minha carne dada para que o mundo tenha vida” (Jo 6,51).

O peito traspassado é o novo templo: dele jorra o Espírito e a vida, num movimento de subida e descida: a água e o sangue que escorrem do lado do Senhor geram a vida, e a vida retorna ao lado direito do Senhor. O templo deixa de ser um lugar para ser a morada eterna em espírito e em verdade (cf. Jo 4,25b). Do lado do primeiro Adão nasceu Eva, a mãe da vida que trouxe em si o germe da morte. Do lado aberto de Cristo, o novo Adão, nasce a Igreja, a nova Eva, mãe que gera filhos chamados à vida eterna.

A nova criação é banhada pela água e pelo sangue do Cordeiro: “A água, ao ser consagrada pelo mistério da cruz, é usada no banho espiritual e no cálice da salvação”, afirma Ambrósio de Milão. A Liturgia realiza esse mistério quando o presidente da Celebração coloca algumas gotas de água no vinho: o ser humano e toda a criação são misturados no vinho e, pela ação do Espírito, são consagrados no Sangue.

A Igreja nasce aos pés da Cruz

Perto da cruz de Jesus permaneciam de pé a sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria de Clopas, e Maria de Mágdala; e perto de sua mãe, o discípulo que ele amava (cf. Jo 19,25-26). Sobre eles correu o sangue e a água. E assim, ali, aos pés da cruz, nascia a primeira Igreja: o Espírito que saiu do lado aberto derramou a Água do Batismo e o Sangue da Eucaristia. O mesmo Espírito fecundou a terra e toda a criação com o sangue e a água. A morte foi vencida e do madeiro brotou a nova criação. A primeira Igreja nascia do peito do Senhor e, agora, nasce das águas do Batismo e da Eucaristia.

As águas da morte se tornam águas geradoras de vida

As águas do Batismo são vivificadas pelo Espírito e se tornam geradoras de vida. Ali está a presença invisível do Pai. A Trindade revelada no Batismo do Senhor se manifesta agora, gerando os Sacramentos da Igreja. O que antes era figura, na Liturgia cristã se torna realidade, pois é a realização do mistério pascal.

Para os antigos, o fundo das águas dos rios e mares era a habitação dos seres malignos e de seu chefe. A cruz que mergulha nas águas enfrenta e destrói os monstros que nela habitavam.

A liturgia cristã não é a realização de simbologia, expressão de uma cultura, gestos mágicos que detêm poderes ocultos. A Liturgia é a fonte das águas vivas onde recebemos o Batismo, novo nascimento pela nova iluminação: “Que a luz seja!” E a luz veio a ser (Gn 1,3b).

Em seu Batismo, Jesus assume e transforma a nossa existência

Na festa do Batismo do Senhor, assim canta a liturgia do Oriente cristão no Cânon matutino escrito por São Cosme de Maiúma (†760): “O Senhor que tira a impureza dos homens, purificando-se por eles no Jordão, fez-se voluntariamente semelhante a eles, permanecendo, contudo o que era; e ilumina os que estão nas trevas, porque se recobriu de glória”.

Nas Laudes, assim se expressa o Patriarca Germano, de Constantinopla (†733): “A verdadeira luz apareceu e a todos ilumina. Cristo, superior a toda pureza, é batizado conosco; infunde a santidade na água que se torna purificação para as nossas almas. Tudo o que vemos é terrestre, tudo o que contemplamos é mais sublime que os céus. Mediante a ablução vem a salvação, mediante a água vem o Espírito, mediante a descida na água vem a nossa subida a Deus. Admiráveis são tuas obras, Senhor! Glória a ti!”

Na Liturgia cristã, a Cruz que desce nas águas é ponte para a eternidade.

Pe. José Artulino Besen

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