A LITURGIA, MISTÉRIO DA IGREJA – PALAVRA E EUCARISTIA

I – INTRODUÇÃO

O Concílio Vaticano II (1962-1965), após 50 anos de sua abertura, continuará pelas próximas décadas a destilar, lenta e fecundamente, sua riqueza na vida da Igreja. Certas leituras apressadas da vida da Igreja podem chegar à conclusão de que o Concílio foi traído e, de modo todo particular, teve o impacto diluído no longo pontificado de João Paulo II (1978-2005). A esses seria recomendável lembrar que 40 anos após o encerramento do Concílio de Trento (1542-1563) – a menina dos olhos da veneração dos conservadores e a gata borralheira dos progressistas – São Roberto Belarmino escrevia ao Papa pedindo-lhe que aplicasse as decisões conciliares! Fizeram-no até bispo de Cápua para tê-lo longe de Roma. Isso para dizer que os grandes lances renovadores de uma instituição multissecular e multifacetada como a Igreja Católica demandam anos – e muitas décadas – para serem absorvidos em seu corpo espiritual e organizacional.

Nem sempre é oportuno buscar coincidências em datas, mas, olhando-se o progresso na aprovação e promulgação dos documentos conciliares, um fato me chamou a atenção: o desenvolvimento cronológico da promulgação das quatro Constituições (SC, LG, DV, GS). A primeira – a Sacrosanctum Concilium-SC, sobre a Sagrada Liturgia (4/12/1963) – pareceu a mais atraente e a mais fácil. A grande palavra pós-conciliar foi a da renovação litúrgica e foi também a que mais problemas causou. Depois ofereço uma interpretação para o fato. Seguiu-se a Constituição dogmática Lumen Gentium-LG sobre a Igreja (21/11/1964), com a feliz insistência na Igreja Povo de Deus, superando uma eclesiologia tripartite, nem bíblica nem patrística, de Igreja hierarquia-religiosos– leigos. O tema que parecia ser o mais fácil antes do Concílio, tornou-se o mais difícil e renovador e deu-nos a Constituição Dogmática Dei Verbum-DV sobre a Revelação Divina (18/11/1965), superando a dicotomia Escritura e Tradição.

E, na véspera do encerramento da assembléia conciliar, parecendo um presente de boa vontade oferecido ao mundo, a Constituição Pastoral Gaudium et Spes-GS sobre a Igreja no mundo de hoje (7/12/1965). Favoreceu até uma leitura simples e triunfante: a Igreja se reconciliava com o mundo moderno, do qual assumia as alegrias e as esperanças.

Na homilia de encerramento (7/12/1965), Paulo VI citou o desafio que o humanismo laico e profano apresenta(va) ao Concílio e, portanto, à Igreja: “A religião do Deus que se fez homem encontrou-se com a religião (porque tal é) do homem que se faz Deus”. Diante de tamanho desafio, deduz o Papa que o caminho conciliar não é o do fácil anátema, combate, luta, e sim, o do bom samaritano: “Um imenso amor para com os homens penetrou totalmente o Concílio”.

Com esse mesmo espírito, no dia seguinte, festa da Imaculada Conceição de Maria, protótipo da história e destino humanos, declarada Mãe da Igreja, era encerrada a assembléia conciliar. Papa Montini, um homem reconciliado com a história e avesso a simplismos modernizantes, negação da modernidade, ao falar nesse “imenso amor para com os homens que penetrou totalmente o Concílio”, olhava para os passos dados na aula conciliar: tudo era parte constitutiva de um Deus que se faz homem, diante de um homem que se faz Deus. As quatro Constituições do Vaticano II se espelham no mistério da encarnação para abrir ao homem o mistério da divinização: “O Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14).

A antropologia de João Paulo II, uma cristologia

O Papa Karol Wojtylla (1978-2005), último bispo participante do Concílio foi um papa de talhe espiritual. As abundantes beatificações e canonizações são apenas a face mais visível de sua atividade para o renascimento da vida espiritual e mística na Igreja, superando o devocionismo e a ascese tradicional. Ao findar do Concílio, a mística católica passava por uma fase de descrédito, talvez por causa de uma visão distorcida do próprio conceito que, não sendo visto como comunhão de Deus com o homem e do homem com Deus, presta-se a interpretações misticistas e até neuróticas.

Paulo VI levou um susto quando o cardeal carmelita Atanásio Ballestrero sugeriu-lhe proclamar Teresa D’Ávila doutora da Igreja. Convenceu-se, porém, e aceitou. Para não favorecer demais os carmelitas, que já tinham João da Cruz, proclamou também a dominicana Catarina de Siena, as duas em 1970. João Paulo II deu o mesmo título a outra carmelita, Teresinha do Menino Jesus. E as comportas foram abertas e ninguém mais segura a grande explosão de luz com que os místicos iluminam a história. A vasta bibliografia depois publicada – felizmente também no Brasil – oferece-nos a oportunidade de mergulhar nesse insondável mistério da união com Cristo. Repete no mundo católico aquilo que Paissy Velichkovsky (1722-1794) fez para a Ortodoxia eslava que se estava empobrecendo num espiritualismo racionalista e ritualista, traduzindo para o eslavônio uma seleção de textos patrísticos com o nome de Filocalia – O amor do Belo. Uma obra poderosa que renovou o mundo monástico e leigo eslavo: em 1810 havia 452 mosteiros na Rússia; em 1914, 1025!

O mesmo vale para as atuais iniciativas editoriais que nos põem em contato com os textos dos místicos e com os Santos Pais: todos os grandes lances renovadores, na Igreja, são fruto de correntes de santidade..

O talhe espiritual de João Paulo II é um talhe antropológico: sua antropologia é a da GS 22. Este capítulo da Gaudium et Spes oferece a hermenêutica dos documentos do Papa atual: “A doutrina do Concílio trouxe novos aprofundamentos ao conhecimento da natureza da Igreja, abrindo os corações dos crentes a uma compreensão mais atenta dos mistérios da fé e das próprias realidades terrestres na luz de Cristo. N’Ele, Verbo feito carne, revelou-se realmente não só o mistério de Deus, mas também o próprio mistério do homem. N’Ele, o homem encontra redenção e plenitude”, escreve na Carta Apostólica Mane Nobiscum, proclamando o Ano Eucarístico. Somente em Cristo o homem pode se realizar em plenitude: Redemptor Hominis (O Redentor do Homem), foi sua encíclica programática.

Com isso, podemos afirmar que seu longo pontificado buscou aprofundar a teologia conciliar insistindo em seus quatro temas centrais: a Liturgia (SC), que gera a Igreja (LG) com a Palavra (DV), e a alimenta para construir o homem novo, à imagem de Cristo (GS).

O Ano Eucarístico (2009-2010) e a Liturgia

Muito se fez pela renovação litúrgica e, o que é normal em toda grande obra, houve acertos, exageros, retrocessos, boa vontade e sempre a capacidade de retornar às fontes. Deu-se muito valor ao casamento entre liturgia e linguagem moderna, infelizmente não se tendo prestado a devida atenção à renovação da assembléia cristã. Tem-se visto liturgias angustiadamente procurando agradar aos participantes, como se esse fosse o caminho: a liturgia é um mistério e não tem como finalidade agradar outro que não a Deus!

Se olharmos o Capítulo II da Sacrosanctum Concilium, veremos como os Bispos conciliares trataram do tema, na mais perfeita consonância com a tradição litúrgica da Igreja, iniciando pelo ápice e caminhando para aspectos menores (mas importantes): o Mistério Eucarístico – os outros sacramentos e sacramentais – o Ofício Divino – o Ano Litúrgico – a Música sacra – a Arte sacra e alfaias litúrgicas.

Esta é a ordem teológica. Os mais distraídos acham que se deva começar pelo último ou penúltimo tema, mais impressionáveis…. Talvez esse equívoco seja a causa de muita esterilidade celebrativa e dê margem ao saudosismo dos pontificais cerimoniosos.

João Paulo II, a partir da Tertio millennio foi concluindo seu magistério, cujo centro é Cristo e o homem, com a Eucaristia, fonte e ápice da Igreja. Há uma lógica profunda em seus documentos, lógica essa que ele mesmo descreve na Mane Nobiscum: a encíclica Redemptor hominis – a Tertio millennio adveniente – a Carta apostólica Dies Domini (o domingo como dia do Senhor, da Eucaristia) – o Jubileu do Ano 2000 (com o Congresso Eucarístico) – a Carta apostólica Novo millennio ineunte (em que sugere a perspectiva de um empenho pastoral fundado na contemplação do rosto de Cristo, no âmbito duma pedagogia eclesial capaz de tender para a «medida alta» da santidade, procurada especialmente através da arte da oração) – a Carta apostólica Rosarium Virginis Mariae (retoma o discurso da contemplação do rosto de Cristo a partir da perspectiva mariana), a Carta encíclica Ecclesia de Eucharistia (com ela ilustrando o mistério da Eucaristia na sua ligação indivisível e vital com a Igreja) – o Ano da Eucaristia (num horizonte que se foi enriquecendo de ano para ano, embora permanecendo sempre bem assentado sobre o tema de Cristo e da contemplação do seu Rosto). A Eucaristia é a fonte e o cume do pontificado wojtylliano, pois o é também da vida da Igreja e de cada um de nós.

O Mistério da Liturgia, Mistério de Santidade

Os teólogos espirituais não foram convidados ao Concílio. Foi, por isso, uma grata surpresa a Constituição dogmática Lumen Gentium sobre a Igreja ter dedicado o capítulo V ao tema da santidade. Outra surpresa, ter afirmado que a vocação à santidade é universal, vem do batismo e não é apanágio dos religiosos ou de um ou outro leigo heróico. E, maior surpresa ainda, foi ter afirmado que o primeiro meio de santificação é a Palavra de Deus, seguindo-se os sacramentos e outros. Surpresa, porque os autores espirituais da época não falavam da Palavra como meio de santificação. Então, como isso aconteceu? Os autores são conformes em afirmar que, além do Espírito Santo, a grande influência foi dos biblistas, entre eles Georges Auzou, que falava no “sacramento da Palavra”. A fonte dos Sacramentos é a Palavra de Deus. Sem a Palavra, o sacramento torna-se rito mágico. E, quando falamos em Sacramento queremos nos referir à Eucaristia, síntese de toda ação divina, pois nela recebemos a Palavra e a Jesus Cristo, Palavra feito carne.

De lá para cá, desenvolveu-se uma sólida teologia espiritual, rica, ecumênica, missionária, comprometida. Uma teologia espiritual onde a tradição ocidental se enriquece com as duas outras tradições de santidade na Igreja: a oriental e a evangélica, em mútua fecundação.

Nas páginas seguintes, quero oferecer ao leitor uma experiência de teologia sacramental que tem como centro o Batismo-Eucaristia e que é fruto do estudo da espiritualidade litúrgica oriental. Ofereci a estudantes do ITESC este tema em forma de seminário, partindo dos ícones e festas bizantinas. Servi-me do texto num curso de teologia para leigos sob o tema Liturgia e, surpresa minha, foi grande o proveito e entendimento: o mistério não é obscuro, é sempre Luz. Igualmente publiquei estes temas no Jornal da Arquidiocese de Florianópolis, partindo do “logo” do 15o Congresso Eucarístico Nacional (celebrado em Florianópolis no ano de 2006) e também na REVISTA ENCONTROS TEOLÓGICOS, Florianópolis, no. 3, ano 19, 2004.

Espero que signifiquem para o eventual leitor ao lê-los a alegria que me deram ao escrevê-los, agora atualizados no tempo e separados como pequenos artigos.

Pe. José Artulino Besen

Anúncios
  1. #1 por Osnildo Maçaneiro em 15 de agosto de 2012 - 08:19

    Gostei do assunto, muito oprtuno para os dias de hoje. Precisamos de mais pessoas interessadas sobre o assunto. Paz e bem!

%d blogueiros gostam disto: