A QUEDA DE SAULO – CONVERSÃO DE PAULO

Queda de Saulo – Enrico Manfrini

Enrico Manfrini (1917-2004), escultor italiano de intensa espiritualidade, amigo do Papa Paulo VI, representou em bronze o momento dramático do encontro de Saulo com Cristo, no caminho de Damasco, encontro que marcou de modo definitivo o Cristianismo e Paulo, o teólogo por excelência. Juntamente com Pedro, Paulo é celebrado pela Liturgia em 29 de junho.

O artista inspirou-se nas três narrações transmitidas nos Atos dos Apóstolos (At 9, 3-9; 22, 6-11; 26, 12-19) pelo próprio Paulo. O presente texto é reflexão a partir da escultura de Manfrini.

Deixando Jerusalém, com cartas do Sinédrio, Saulo se dirigia a Damasco cheio daquela segurança que a observância da Lei conferia. Uma Lei de tantos compromissos que se apresentava como uma veste que escondia a pessoa. A Lei tinha de ser observada, sendo blasfêmia punível com prisão a desobediência. A Lei mosaica garantia ao povo judeu sua identidade histórica e religiosa.

Saulo era um homem de consciência íntegra, cuja segurança estava na fiel observância da Lei, símbolo da aliança de Deus com seu povo. Dirigia-se a Damasco para prender os que seguiam o Caminho, palavra rica de significado para os judeus que aceitavam Cristo: um Caminho que levava da Antiga à Nova Aliança, um caminho que significava a saída de uma religião marcada por sinais exteriores para outra, cujo fundamento era a interioridade, radicada no coração.

A caminho de Damasco Paulo pensava no Caminho quando, improvisamente, foi envolto por uma luz. Caiu ao chão, não tinha mais apoios. A luz vinha do céu. Nesse momento, com as mãos Paulo cobre os olhos: a ninguém via e por ninguém era visto. Suas seguranças tinham derretido ao calor da luz e, tendo como único apoio a terra, ouviu uma voz amiga: “Saul, Saul, por que me persegues?”.

À pergunta, respondeu com outra pergunta: “Quem és tu, Senhor?”. O homem das seguranças não sabe responder, somente perguntar. Saulo está despido e, com os olhos vedados, nem ele o percebe. A veste que deu a Adão e Eva a dignidade perdida, lhe tinha sido subtraída. Escuta a resposta: “Eu sou Jesus, a quem tu estás perseguindo”.

E, a partir desse momento, tem início a reconstrução desse homem nu, lançado por terra, com os olhos vendados: “Levanta-te, entra na cidade e te será dito o que fazer”.

Saulo levantou-se e abriu os olhos, mas não conseguia ver nada. O Caminho não tem o início que se escolhe, mas o início que o guia. Não pode seguir sozinho, pois não enxerga. A Luz que o derrubara conduzia-o pelas mãos daqueles que o acompanhavam no ódio aos cristãos.

Paulo inicia o caminho da Graça

A voz que ouvira era, agora, a voz que o levava à casa de Ananias, em Damasco. Ananias já tinha sido advertido da chegada desse homem que atemorizava os cristãos, mas, homem justo, na voz ouviu a voz do Senhor. E em sua casa entrou um Saulo fragilizado, humilde, que ficou três dias sem ver, nem comer, nem beber. Ouvia e bebia, porém, o anúncio do Caminho, do Senhor que o ódio crucificara, mas o poder do Amor ressuscitara. Colocou no coração a Palavra de que o nome do Senhor era o único Nome pelo qual poderia ser salvo.

No terceiro dia, Ananias impôs-lhe as mãos, dizendo: “Saul, meu irmão, o Senhor Jesus, que te apareceu quando vinhas pela estrada, mandou-me aqui para que recobres a vista e fiques cheio do Espírito Santo”. Quanto afeto no tratamento que Ananias dá a Paulo: “Saul, meu irmão”. Paulo vinha para Damasco a fim de prender inimigos da Lei, e encontra quem o chama de “meu irmão”. Imediatamente recobrou a vista.

Em seguida, levantou-se e foi batizado. Ergueu-se da queda, seus olhos se abriram e se revestiu de Cristo (cf. Gl 3,27).

A queda no caminho foi vencida pelo levantar-se no Caminho.

Paulo nunca mais perdeu o “espanto” diante da graça que Cristo lhe concedera, a ele, o perseguidor. É o Doutor da Graça: dele, com carinho, lembrou-se o Senhor que ele lembrava com ódio. Sua vida foi um anúncio ininterrupto do Senhor ressuscitado que nos dá a salvação por crermos em seu Nome. Sua grande dor foi a rejeição de seu povo, o povo da Aliança, ao Senhor. Ele estaria disposto a ser condenado em favor da conversão de seus irmãos. Queria que tivessem a mesma felicidade dele: mesmo se fosse condenado, a alegria do encontro jamais se apagaria de seu coração.

Muitos anos depois, muitas viagens, sofrimentos físicos e morais, muito cansaço e perseverança depois, Paulo recebeu a bênção final: dar a vida pelo Senhor que lhe deu a Vida. Tudo é graça.

Pe. José Artulino Besen

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  1. #1 por murio jose da silva em 8 de julho de 2012 - 09:05

    Padre José, no ultimo dia 3/7/12 o senhor completou o 36 aniversário de vida sacerdotal. Que Deus lhe ilumine e lhe conceda bons longos anos em sua vida. Nesta mesma data, eu e minha esposa também completamos mais um ano de casados, agora também são 36 anos de vida em comum. Um abraço. Murilo / Itajai

  2. #2 por Pe. José Artulino Besen em 13 de julho de 2012 - 18:11

    Murilo,
    muito obrigado pela lembrança de meus 36 anos de padre. E meus parabéns pelos seus 36 anos de matrimônio.
    Três de julho é São Tomé. Como ele, proclamemos Cristo nosso Senhor e nosso Deus.
    Pe. José

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