SÃO JOÃO BATISTA – PROFETA E PRECURSOR

São João Batista – bronze de Lourenço Ghiberti em Florença.

A Liturgia privilegiou São João Batista com duas festas: seu nascimento em 24 de junho e sua morte em 29 de agosto. Quando Maria visitou Isabel, que estava grávida, o bebê João pulou de alegria em seu seio. Neste momento foi santificado pelo bebê no seio da Virgem Maria: já nasceu santo. Foi João quem recebeu o maior elogio de Cristo, que afirmou ser ele o maior entre todos os nascidos de mulher (Mt 11,11).

Zacarias e Isabel, casal já idoso que padecia de grande tristeza: não tinha filhos. Isabel era estéril, idosa, sem condições de ser mãe. No mundo judeu, não deixar descendência era visto como uma desgraça, pois não se oferecia um filho ao povo de Israel. Mas, para quem tem fé, a esterilidade se transforma em vida: veja-se a história de Abraão e Sara, de Sansão.

Num dia Zacarias, que era sacerdote, estava no templo de Jerusalém oferecendo incenso ao Senhor quando um anjo lhe apareceu e disse que Deus tinha ouvido suas preces. Isabel conceberia um filho na velhice! Zacarias achou graça, pois, pelas leis da natureza, seria impossível. Então o anjo deu-lhe um sinal: ficaria surdo e mudo até que isso acontecesse (Lc 1,5-25). E pouco depois Isabel estava grávida…

No sexto mês da gravidez teve a alegria de receber a visita de sua prima Maria, que esperava Jesus. Um encontro misterioso: a mãe do último profeta do Antigo Testamento é visitada pela mãe do Profeta dos profetas, o Filho de Deus. Isabel se alegrou por ter sido digna de receber a mãe de seu Senhor, e Maria não resistiu à emoção de ver tantas maravilhas, prorrompendo num hino de gratidão a Deus: “A minha alma engrandece o Senhor, porque ele pôs os olhos em sua humilde serva” (Lc 1,46-55). Maria ajudou Isabel três meses, voltando depois para casa, pois tinha um segredo para relatar a José: sua gravidez miraculosa.

No dia em que Isabel deu à luz, houve festa nas montanhas da Judéia: mais um filho nascia para Israel. Os vizinhos acenderam fogueiras para anunciar à vizinhança a grande alegria. Um filho não é patrimônio somente da família: pertence a toda a comunidade e a festa é de todos (Lc 1,57-67).

O nome João – Deus teve compaixão

E veio a pergunta: que nome dar ao menino? Pela tradição, seria Zacarias, o nome do pai. Nos tempos da Bíblia, o nome era muito importante, indicava a vocação de uma pessoa. Mudar o nome era o mesmo que mudar a qualificação da pessoa, como Abrão que fica Abraão, Sara que fica Sarai, Jacó que fica Israel, Simão que fica Pedro. Isabel disse que não seria Zacarias, pois o anjo tinha dito outro nome. Com sinais, consultaram o velho Zacarias, que escreveu numa tabuinha: João é o seu nome. O nome João significa “Deus teve compaixão”. Neste momento, Zacarias começou a falar e a ouvir, explodindo de alegria: “Bendito seja o Senhor Deus de Israel, porque visitou e libertou o seu povo!” (Lc 1,68-79).

Tudo isso foi muito comentado em toda a região, pois, de fato, Deus estava visitando seu povo. Os sinais da presença de Deus eram claros: uma mulher, Maria, tinha concebido pelo poder do Espírito Santo; uma senhora idosa, estéril, Isabel, dera à luz ao menino João; um homem, Zacarias, que tinha ficado surdo e mudo, passou a ouvir e a falar. Deus estava irrompendo na história: a esterilidade dava lugar à vida, a vergonha e a tristeza eram substituídas pela alegria, os mudos falam, os surdos ouvem. Era a presença do Deus da vida! Uma primavera sem fim. Começavam os tempos do Messias.

O Profeta João Batista

João Batista ocupa primeiro plano no cristianismo e no islamismo. Sua pregação tem início entre os anos 27-29, e sua morte foi pouco depois, motivada pela força profética e revolucionária de suas palavras.

O ambiente de seu ministério foi o “deserto”, isso é, o espaço aberto, fora das cidades, perto de nascentes de água, especialmente o rio Jordão. Era pregador itinerante pela Transjordânia e Samaria. A Judéia inteira ia a seu encontro (cf. Mc 1, 4-8).

João anunciava a penitência, o perdão dos pecados, a conversão e batizava as pessoas que aceitavam mudar de vida, recebendo assim o apelido de “Batista”. E anunciava uma notícia esperada há milhares de anos: o Messias, o Cordeiro de Deus, estava para chegar, aliás, já tinha nascido. João afirmava que o Messias seria enérgico, um juiz rigoroso. Neste ponto se enganou: o Messias, Jesus, era a mais doce e bondosa das criaturas, veio para salvar e não para condenar, veio anunciar a graça divina, e não os castigos divinos, era a imagem visível do Deus invisível.

Mas João foi muito humilde: apesar de todo o seu sucesso, das multidões que o procuravam, ao ver Jesus considerou encerrada a sua missão de precursor, abridor de caminhos: daqui para frente é Jesus quem tem a palavra final. E Jesus também foi muito humilde, pedindo para ser batizado por João e, durante o ritual, Deus revela Jesus como seu Filho amado, a nova voz que deve ser escutada (cf. Mt 3, 13-17).

João foi um judeu preocupado em seguir as leis do Levítico sobre a pureza ritual, mas, radicalizando-as e também subvertendo-as quando julgava necessário. Daí sua crítica a Herodes Antipas por ter casado com a cunhada Herodíades, o que legalmente seria permitido (Mc 6,18). Não comia carne, mas gafanhotos sim, pois não eram considerados carne. Absteve-se de alimentos manipulados por mãos humanas como o pão, e se nutria de mel, mas mel silvestre. João considera puro o que é produzido espontaneamente, vindo das mãos do Criador.

Os fariseus consideravam o rio Jordão impuro para os banhos rituais, mas João não, pois o rio não é produto humano, por isso não era contaminado. Considerava o batismo por imersão próprio para o perdão dos pecados. Vestia-se com peles, referência à missão profética (2Re 1,8), mas peles de camelo, o primeiro dentre os animais impuros, símbolo do mal e do demoníaco (cf. Lv 11,4), parecendo indicar crítica às vestes de linho sacerdotais.

Era um homem fiel à Lei, mas era um homem livre.

João Batista, anunciador de um novo tempo

Um profeta revolucionário: se os doutores da Lei ensinavam que o perdão dos pecados era obtido pelos sacrifícios e ofertas no Tempo de Jerusalém, batizando na água João retirava a prática penitencial do controle sacerdotal e dos fariseus: o perdão de Deus é gratuito e assim minava o poder econômico cuja base eram as ofertas. Considerando puro o que vinha de Deus, subverte o próprio sistema legalista das purificações, das definições puro/impuro. Hoje se diria: João minou o sistema por dentro, pois reconduziu-o ao essencial.

A pregação de João tinha caráter também apocalíptico: parece que esperava para logo o fim dos tempos e o julgamento de Deus. O batismo criado por ele era o último instrumento de salvação para fugir da ira divina. O fato de esperar a vinda de um homem extraordinário levou os cristãos a fazer dele o Precursor. Assim, João era parente “mais velho”, destinado a ser superado pelo “menor”, “amigo” e “testemunha”, Jesus (cf. Lc 1-2; 7,28; Jo 3,29; 1, 15.33).

João Batista iniciou um movimento religioso que tinha como centro a penitência e o jejum, o arrependimento e a mudança de vida, o perdão dos pecados pelo batismo. Seus discípulos eram chamados de “batistas” (dissidência religiosa que sobreviveu a João) e se consideravam livres da religião como poder centralizada no templo. Pobres, cobradores de impostos, militares, pescadores, habitantes das redondezas o procuravam. Jesus e seus discípulos buscavam ouvi-lo. Era bem recebido nos palácios, Herodes Antipas o admirava. A todos a palavra: convertei-vos, mudai de vida, a ira de Deus se aproxima.

E se aproximou a ira dos mesmos que depois levaram Jesus à morte: inconformados por esse profeta do/no deserto, conseguiram que fosse aprisionado na fortaleza de Maqueronte, perto do Mar Morto. A causa final da prisão foi a crítica de João Batista a Herodes por ter desposado Herodíades, mulher do irmão dele, Filipe.

Conhecia Jesus, tinha-o apresentado, mas estranhava seu silêncio na Galiléia. Da prisão enviou discípulos a Jesus para certificar-se do Messias, “se era ele ou deveríamos esperar outro?”. E Jesus responde não pela palavra, mas pela vida: cegos vêem, surdos ouvem, leprosos são curados, paralíticos andam e por toda parte se anuncia a boa notícia (cf. Mt 11,1-6).

Na fortaleza-palácio de Maqueronte Herodes promoveu uma festa com a nobreza da Galiléia: ali Salomé, filha de Herodíades, dançou com tal arte que seduziu a Herodes. O rei, encantado com a dança, ofereceu à jovem o presente que desejasse. Consultando a mãe, essa pediu a cabeça de João Batista num prato. Herodes ficou triste, pois estimava o Batista e sabia também o quanto o povo lhe queria bem (cf. Mt 14,1-12).

E assim foi feito e naquele baile devasso entrou a cabeça do grande profeta, o maior entre os nascidos de mulher. Todos lamentaram a morte, inclusive Jesus e seus discípulos. Quiseram calá-lo, mas sua voz ganhou ressonância maior.

Jesus, o Messias, continua a palavra e a ação de João que o apresentara como “Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (Jo 1,13). Jesus também inicia no deserto, mas ingressa nas vilas e povoados, com duas predileções: o amor pelos pobres, pecadores e doentes, e o amor de Deus a quem chama, não de Juiz, mas de Abbá, Pai. Continua o batismo de João, mas um batismo novo, com o Espírito Santo (Mc 1,8).

Celebrar São João Batista é retornar ao essencial da fé cristã anunciada por ele e realizada em definitivo pelo Senhor morto e ressuscitado.

Pe. José Artulino Besen

Anúncios
%d blogueiros gostam disto: