PAPA JOÃO XXIII – FACE HUMANA DE DEUS

Baixinho, gordo, bonachão, filho dos camponeses Giovanni Batista Roncalli e de Ana Maria Mazzoli, de Sotto il Monte, o Núncio Giuseppe Roncalli não causou boa impressão nos salões parisienes quando, em 1944, assumiu como Núncio em Paris. Afinal, não era um diplomata de brilhante carreira, mas com humilde biografia: 20 anos como Legado apostólico na Bulgária e na Grécia, onde achava que tinha sido esquecido. Charles De Gaulle, ciente de seu papel decisivo como libertador da França ocupada pelos nazistas, apresentou-lhe a conta: queria, nem mais nem menos, a remoção de 25 dos 81 bispos franceses que teriam colaborado com o regime de ocupação nazista. Sem dar muita atenção aos dramas da diplomacia, com seu jeito amigo, alegre, fez o altíssimo De Gaulle contentar-se com apenas três bispos. Os franceses gostavam de se referirem a ele como “saco de macarrão”, mas não resistiram ao encanto de um homem de verdade, cuja vida jorrava de uma interioridade nunca violada, sempre preservada.

Após a missão na França, em 1953 foi nomeado Patriarca de Veneza. Nos seus 72 anos, foi o pastor da mansidão, do acolhimento. Condenava o socialismo, mas não se furtou em mandar uma bênção quando o Partido Socialista realizou seu Congresso em 1957. O erro deve ser condenado, o que erra, amado sempre. 

Recomeço na velhice

No dia 27 de setembro de 1958, no término de seu Retiro espiritual, anotou em seu Diário[1]: “A minha idade avançada deveria impor-me maiores reservas em aceitar compromissos de pregação fora de minha diocese. Tenho de escrever tudo antes e isto custa-me, além da constante humilhação que sinto da minha pequenez. Que o Senhor me ajude e me perdoe”. O Senhor certamente o perdoou mas, 17 dias depois, em 16 de outubro de 1958, foi eleito Papa: 77 anos! Quando o Pe. Alberto Iório, secretário do Conclave, se ajoelhou para prestar-lhe obediência, uma surpresa: João XXIII, ainda no assento de cardeal, tirou seu barrete cardinalício e colocou-o na cabeça dele. Pronto: tinha criado um Cardeal. Aquilo que Pio XII deixara de fazer, renovar o Colégio Cardinalício (havia apenas 53 Cardeais), ele o fez em cinco Consistórios, criando 52. No primeiro, dois meses depois de eleito, criou 23, entre eles Giovanni Batista Montini, que depois foi seu sucessor – Paulo VI. Ultrapassou em 5 o número de 70 que vinha desde o século XVI. O nome “João”, o mais popular dos nomes de papas, foi em homenagem a seu pai João Batista e assumindo a vocação de São João Batista: preparar os caminhos do Senhor.

No seu primeiro Natal visitou no hospital Menino Jesus as crianças doentes, que o confundiram com o Papai Noel. No dia seguinte, visita aos presos no Rebibbia, aos quais disse: “Como não podem me visitar, visito-os eu; fixei meus olhos nos de vocês, pus meu coração pertinho dos seus”. Falou tanto do amor de Deus que um presidiário caiu a seus pés: “Santidade, isso também vale para mim?”.

Seu lema pontifício foi o do historiador eclesiástico, diplomata e Cardeal, venerável César Barônio: “Obediência e Paz”. Três meses após a eleição, no encerramento da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos na Basílica de São Paulo fora dos Muros, em 25 de janeiro de 1959, falou aos Cardeais na sacristia, de improviso: tinha decidido três coisas: convocar um Concílio ecumênico, um Sínodo diocesano e a reforma do Código de Direito Canônico. Pareceu-lhe a coisa mais natural do mundo, mas não aos velhos Cardeais da Cúria que achavam que, após o Dogma da Infalibilidade do Papa, não eram mais necessários os Concílios. Mas, se consolaram: João XXIII era velho, a preparação demandaria anos e o Papa…, bem, o Papa decidiu que era para logo, três anos depois. O “velhote acomodante” pensado no Conclave era diferente.

Com extrema simplicidade fala dessa decisão no Diário, em 15 de setembro de 1962: “Sem ter pensado nisso antes, num primeiro diálogo com o meu secretário, em 20 de janeiro de 1959 surgiram brilhantes as palavras Concílio Ecumênico, Sínodo Diocesano, revisão do Código”. Cinco dias após comunica a decisão que marcou de modo indelével e decisivo a história da Igreja. O Espírito falou por ele. 

Fraternidade e paternidade

Em 2 de dezembro de 1960 recebeu no Vaticano Georfrey D. Fisher, arcebispo de Canterbury e Primaz da Igreja anglicana: o primeiro encontro em mais de 400 anos. Recebeu o Pastor da Igreja Metodista, a quem ofereceu a Imitação de Cristo, era amigo do Pastor Chefe das Assembléias de Deus. Anotou em seu Diário: “Cristo derramou seu sangue por todos”. A porta da Igreja estava aberta: um ecumenismo cuja base era o acolhimento do outro, não a discussão teológica que para o Papa era claro: a Igreja Católica é a Igreja de Cristo. Nada mais seguro para um verdadeiro ecumenismo: conversar com gente de convicções de fé.

Por causa de certa popularização de sua vida, com gostosas anedotas, se esquece que João XXIII era um teólogo preparado, profundo conhecedor da história da Igreja. Quando apresentou a tese de doutorado, em 1903, estava na banca examinadora o Pe. Eugênio Pacelli (em 1939 Papa Pio XII!): um seminarista e um padre, dois futuros papas.

Em 5 de outubro de 1962, anota no Diário a visita do Cardeal Cushing, de Boston, e observa: “Anda um pouco frouxo no latim…”. Sua vida e fé sempre retornavam ao lar de João Batista e Ana Maria Roncalli. Em 1º. de janeiro de 1963 recebeu visita de familiares e anota no Diário algo muito familiar: “A recém-casada é uma Carminatti de Medolago”.

O ano de 1963 foi o ano da Cruz de Papa João. O câncer se manifestou maligno e o fez sofrer dores intensas, pacientemente suportadas. Última anotação de seu Diário, em 20 de maio de 1963: “…continuação de uma grande dor física que não me dá tréguas e me faz pensar e sofrer muito. Esta manhã, pela terceira vez, tive de conformar-me com receber a comunhão na cama, em vez de gozar da celebração da Missa. Paciência, paciência”. No mesmo dia, porém, sua bondade o faz erguer-se para receber o heróico Cardeal Wyszinski e mais quadro bispos poloneses. Voltou ao leito, com vários ataques de intensa dor física. E, no dia 23 de maio, ainda recolheu forças para saudar, pela última vez, as multidões na Praça São Pedro. As fotos mostram claramente como estava devastado pelo sofrimento.

Em 31 de maio tem início a agonia. No início da tarde de 3 de junho, a febre alcança 42 graus. Às 19:49h suas últimas palavras ao choroso secretário Loris Capovilla: “Por que chorar? Esse é um momento de alegria, um momento de glória”. Entregou sua alma ao Senhor. O mundo inteiro chorou a orfandade: João XXIII não era só Papa, o bom velhinho era amado como Pai da humanidade.

Pe. José Artulino Besen


[1]Em 1895, quando tinha 14 anos, iniciou a escrita de seu “Diário da Alma”, interrompida menos de 15 dias antes de morrer, em 1963. Já velhinho, amado pelo mundo, continuava a repassar aqueles caderninhos para recordar e renovar seus propósitos. A agitação não lhe retirou a intimidade com Deus.

* * *

O Sermão da Lua

É, sem dúvida, o mais famoso e comovedor discurso de todo o pontificado de Ângelo Roncalli. Entrou para a história como o “Sermão da Lua”: trata-se da saudação do papa João XXIII, na noite de quinta-feira, 11 de outubro de 1962, aos numerosíssimos fiéis e peregrinos que participaram da vigília organizada para a abertura do Concílio Vaticano II. Hoje, cinquenta anos depois, transcrevemos esse discurso feito de palavras simples e sinceras, que não perderam nada da sua extraordinária autenticidade (Zenit-ZP121011.

Caros filhinhos, ouço as vossas vozes. A minha é apenas uma, mas condensa a voz do mundo inteiro. Todo o mundo está aqui representado.

Parece que até a lua antecipou-se esta noite – observai-a no alto – para contemplar este espetáculo. É que encerramos uma grande jornada de paz. Sim, de paz: Glória a Deus e paz aos homens de boa vontade.

A minha pessoa não conta para nada, quem vos fala é um irmão, que se tornou pai por vontade de Nosso Senhor, mas tudo junto – paternidade e fraternidade – é graça de Deus, tudo, tudo.

Continuemos, pois, a amar-nos, a querer-nos bem, a querer-nos bem; olhando-nos mutuamente no encontro, recolhendo aquilo que nos une, deixando de lado qualquer coisa que nos possa criar dificuldade: nada. Fratres sumus .

Esta manhã aconteceu um espetáculo que nem a basílica de São Pedro, que tem quatro séculos de história, alguma vez pôde contemplar.

Honremos as impressões desta noite. Que os nossos sentimentos permaneçam sempre como agora os manifestamos diante do Céu e da terra. Fé, esperança, caridade, amor de Deus, amor de irmãos. E assim, todos juntos, mutuamente apoiados, na santa paz do Senhor, nas obras do bem.

Quando regressardes a casa, encontrareis os vossos meninos. Fazei uma carícia às vossas crianças e dizei: «esta é a carícia do Papa». Encontrareis algumas lágrimas por enxugar, fazei alguma coisa… dizei uma boa palavra: «o Papa está conosco, especialmente nas horas de tristeza e de amargura».

E assim, todos juntos, animemo-nos, cantando, suspirando, chorando, mas sempre, sempre cheios de confiança em Cristo que nos ajuda e nos escuta, para avançarmos e retomarmos o nosso caminho.

E, agora, tende a gentileza de atender à bênção que vos dou e também ao boa-noite que me permito desejar-vos.

  1. #1 por Edinez Silva Souza em 27 de maio de 2012 - 17:33

    Obrigada Padre, pela maravilhosa informação, pois ainda ñ conhecia a história do Papa João XXIII. Sua Benção…

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