ORAÇÃO PELA UNIDADE DOS CRISTÃOS – ECUMENISMO

Quando relataram a João Paulo II (1978-2005) que alguns Patriarcas ortodoxos receavam que ele, como Papa, queria governá-los, respondeu: “Eles não me entenderam. Eu quero a comunhão com eles, não a jurisdição”. O Ecumenismo é o caminho da comunhão a partir da aceitação de Cristo em nossa vida e da confissão dele como Senhor e Filho de Deus e não da aceitação de domínio. É a busca da unidade da Igreja de Cristo em toda a terra, unidade que vai além das diferenças geográficas, doutrinais, culturais e políticas entre as Igrejas. Não há vida cristã autêntica sem a busca perseverante e generosa da unidade entre os que crêem em Jesus e o proclamam Senhor, crendo na sua Palavra e celebrando os Sacramentos.

No Brasil, na semana que antecede o Pentecostes, o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs-CONIC (do qual participam a Igreja Anglicana, Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, Igreja Presbiteriana Unida e a Igreja Sirian Ortodoxa de Antioquia) promove a Semana de Oração pela Unidade dos cristãos. Tem como tema, neste ano: Todos seremos transformados pela vitória de nosso Senhor Jesus Cristo (1Coríntios 15, 51-58).

São meios de vivência ecumênica a oração, a reflexão teológica, a convivência fraterna, o testemunho de respeito no diálogo entre cristãos, numa resposta-compromisso à oração do Senhor: “todos sejam um, como tu, Pai, estás em mim, e eu em ti” (João 17, 21).

Se temos que amar os inimigos, como não amar os cristãos, mesmo na dor e nos preconceitos de nossas diferenças doutrinais? Alguns adversários do ecumenismo entendem a palavra de modo claramente enganoso: confundem ecumenismo com “indiferentismo” (Deus é um só, religião não salva, todas são igualmente boas), “irenismo” (assumamos aquilo que une, deixemos de lado o que separa), unificação das Igrejas por baixo (para que discutir dogmas ou disciplina eclesiástica se basta a fé?), rejeitando toda a Tradição da Igreja católica e apostólica.

O ecumenismo não é a busca simplificada de uma receita pela qual todos seremos um: a unidade será dom do Espírito Santo e ele não nos revelou como será. Deus é criativo e nos surpreenderá em algum momento da história quando, superando nossos limites e inseguranças, nos daremos o abraço final.

Somente é capaz do diálogo ecumênico quem vive a sua fé na sua Igreja: o diálogo é entre pessoas que crêem com força e não com inseguros e relativistas. O diálogo não é “vem pra cá, que eu estou certo”, e sim, “vamos nos dar as mãos para buscar melhor compreender a Verdade”. Não se pode negar que protestantes achem que o caminho é todos serem protestantes, que católicos achem que todos devem ser católicos. Então, não é preciso diálogo, pois se julga que a unidade se fará num retorno a uma uniformidade que nunca existiu.

O Ecumenismo – uma espiritualidade

O caminho ecumênico pede paciência, pois há feridas provocadas por separações há mais de um milênio. O Ecumenismo pede reconciliação, perdão: humanamente todos erramos, quem nos salvou sempre foi o Espírito. Pede uma forte espiritualidade: reconhecer na outra Igreja valores de santidade, de vivência bíblica, rezar juntos, dar-se as mãos na partilha, comunhão e integração.

Hoje, os cristãos se dão as mãos na causa da justiça, da cidadania, da caridade, unindo forças em nome de Deus Pai pelo bem de todos os irmãos. No ano 2000, João Paulo II falou de um novo ecumenismo: o do martírio pela fé e pela justiça. Em todas as Igrejas cristãs foi e é derramado sangue pela fidelidade a Cristo e ao homem. Nos regimes comunistas, nos totalitarismos nazista e fascista, católicos, ortodoxos e evangélicos partilharam o horror dos campos de concentração, dos gulags soviéticos, trabalhos forçados, câmaras de gás, torturas, fuzilamento. Ninguém foi poupado e a graça da fidelidade ao Senhor foi confirmada pelo martírio.

A Igreja de Cristo é um Jardim

Ao contrário do que se possa pensar, o movimento ecumênico é a grande força da Igreja em meio ao individualismo que faz muitos acharem que cada um pode escolher a Igreja que lhe agrada, as “verdades” que lhe fazem bem ou até inventar uma nova denominação. Faz-nos levar a sério a pertença eclesial. É ecumênico o católico que, com convicção, vive a fé na Igreja Católica; o mesmo se diga do ortodoxo, luterano, calvinista e, com essa convicção dialoga pela oração, partilha e reflexão. Cada um vive solidamente seu modo de crer e conservar a fé cristã, mas deseja conhecer o outro e participar de suas riquezas espirituais e humanas.

Desde seu início, Igreja ou foi ecumênica admitindo as diferenças, ou foi fanática e gerou cismas: temos três evangelhos, os Sinóticos (Mt, Mc, Lc), testemunhando três modos de contemplar e viver o Cristo. O Evangelho de João e suas Cartas, os livros de Tiago, Pedro, Judas retratam comunidades cristãs específicas e originais em sua organização e expressão dogmática. Pedro levou a fé aos judeus, Paulo aos pagãos, cada um com suas tradições. Foi o espírito ecumênico que uniu num único Novo Testamento as Igrejas donde brotaram esses textos divinamente inspirados.

Os grandes Concílios da Igreja antiga – Nicéia, Éfeso, Constantinopla, Calcedônia –  recebem o título de “ecumênicos”, pois simbolizaram o enorme esforço da unidade dogmática. Os Concílios de Pisa (1409) e Florença (1438-1439) foram ecumênicos: buscavam a unidade com os ortodoxos após quatro séculos de ruptura. O Concílio de Trento (1545-1563) foi mais um esforço de unidade após a Reforma de 1517. Infelizmente foi infrutífero e assim cada um se conformou na sua posição, até hoje.

O Vaticano II (1962-1965) reabriu o diálogo cristão, após os evangélicos e anglicanos terem-no feito meio século antes. Hoje, não é mais possível cada um se conformar em sua posição, como se a Igreja fosse um ajuntamento de pessoas diferentes que se desprezam. Fechar-se num gueto católico é insegurança e, pior, soberba. É mais fácil, mas não leva em conta a ação do Espírito em todos aqueles que receberam o Batismo, celebram a Ceia e meditam a Palavra de Deus.

A Igreja de Cristo existe, mesmo nas divisões. A Igreja de Cristo é um imenso Jardim, com cada flor simbolizando uma Igreja, a riqueza e beleza inesgotáveis do mistério cristão. É anular a criatividade de nosso Deus reduzi-la a uma solitária flor.

Pe. José Artulino Besen

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