O LAVA-PÉS – FUNDAMENTO DA COMUNIDADE

O evangelista João, diferentemente dos outros três evangelistas – Mateus, Marcos e Lucas – não narra a Instituição da Ceia eucarística. Em lugar dela, deixou-nos a Instituição do Lava-Pés (Jo 13,1-20), instituição do sacramento do serviço humilde e fraterno: “Se eu, o Senhor e Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros” (v.14). Com o Lava-pés, Jesus inicia sua Hora da Glorificação e deixa muito claro a sua não é a glória do mundo, mas a glória fruto do amor que, do Lava-pés, conduz a seu Trono: a Cruz.

Nós, cristãos, temos a tentação de anunciar um Jesus triunfante e glorioso e, desse modo, também imaginamos uma Igreja gloriosa, numerosa, triunfante. Isso leva a uma série de fugas e facilitações, pois gostaríamos da vitória e não de “gloriar-nos da Cruz de Nosso Senhor” (Gl 6,14). Em Atenas, Paulo buscou falar segundo a sabedoria humana, e logo percebeu que deveria anunciar o Evangelho que é loucura e escândalo. Nada mais estranho e escandaloso do que falar de um Salvador que lava os pés dos outros e morre na cruz. Mas, essa é a novidade cristã: servir e dar a vida.

Ser cristão não é para muita gente, é para quem se decide a seguir os passos de Jesus. Por natureza queremos ser servidos e glorificados. Pela fé, a conversão nos leva à doação.

Jesus lava nossos pés, pois somos pecadores

Lavar os pés, no tempo de Jesus, era trabalho de servo ou escravo, nunca de um homem livre. Também no Brasil, eram os escravos que faziam esse serviço. Pedro tinha razão em não querer que lhe lavasse os pés, pois tinha claro que Jesus era o Senhor. Pedro tinha razão em cortar a orelha de Malco, pois não poderia admitir Jesus feito prisioneiro. Somente depois da Páscoa e do Pentecostes seus olhos se abriram para a compreensão de Jesus e de suas palavras “mais tarde compreenderás” (v.6). Somente assumindo o serviço humilde é que se pode ter fé em Cristo. Acima de tudo, compreendeu que seguir a Jesus era seguir uma pessoa e não uma doutrina, uma teoria religiosa. O Evangelho é uma pessoa: Jesus. Crer na pessoa dele é segui-lo na humildade.

Aqui adquire todo o esplendor e beleza o gesto da mulher pecadora que lava os pés de Jesus com as lágrimas, enxuga-os com seus cabelos e perfuma-os com caríssima essência (cf. Lc 7,36-50). Não foram os rabinos, e nem os apóstolos quem primeiro compreendeu que a conversão é obra da misericórdia: foi uma pecadora após viver a graça do perdão e da acolhida.

A Igreja passa por grandes dificuldades, hoje, e a maior causa é porque ficou insignificante. Facilitou tanto a vida cristã que deixou de ser profecia. Uma Igreja adaptada ao mundo não causa preocupação a ninguém. Preocupados com os números, acabamos por esquecer o difícil parto da conversão que não é fácil, pois requer que sejamos servidores humildes, dispostos a lavar os pés da humanidade. Hoje, os pés são os oprimidos, os migrantes, os doentes, os dependentes químicos, os violentos e violentados, todos os que sofrem e fazem sofrer. O lava-pés e a Igreja não são para os puros, mas para os que necessitam da água da misericórdia.

Necessitamos sempre do Lava-pés

Também necessitamos aceitar que nos lavem os pés, que tratem de nossas feridas. Somos carentes, a doença do egoísmo deixa-nos cobertos de feridas, preferimos o brilho do sucesso de nossas comunidades cristãs e rejeitamos que nós somos os primeiros que devemos gritar por socorro. Preocupamo-nos com os que migram para outras Igrejas, e esquecemos o grupo mais numeroso que nada quer ter com a Igreja, os indiferentes.

Quem nos lavará os pés? Sem dúvida, o mesmo Senhor e Servo que lavou os de Pedro, agora não com a água mas, com o sangue derramado. O Sangue da Palavra de Deus e da Eucaristia. A anemia que nos deixa fracos na fé e na caridade dele recebe cura com a transfusão da graça.

Jesus continua cingido com a toalha e segura o jarro de água, propondo-nos dois caminhos inseparáveis: que deixemos que ele nos lave os pés e que nos lavemos os pés uns aos outros.

Pe. José Artulino Besen

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