NÓS LEMBRAMOS, DEUS ESQUECE.

“Os montes podem mudar de lugar e as colinas podem abalar-se, mas o meu amor por ti não mudará” (Is 54, 10).

Entre os sofrimentos pessoais, muito nos atormenta a dificuldade de esquecer nossos próprios erros, nossos pecados. Reconhecemos a fraqueza, pedimos perdão, somos perdoados, nos emendamos mas… fica a recordação do erro!

Esse sofrimento é acrescido pela certeza de que os outros também não esquecem nossa fraqueza. Perdoam, são testemunhas de nossa recuperação mas… fica neles a recordação do erro! Dificilmente imaginamos o estrago que faz em nosso emocional o repisar faltas passadas: é abrir uma ferida continuamente, obrigando-a a ficar sempre aberta. E a ferida vira tumor, e nossa alegria de viver vira recordação de fracassos.

Como tudo na vida pode ser lido sob diferentes aspectos, também a recordação do passado pode ser transformada em momento de alegria. Nós somos responsáveis por essa leitura positiva de uma recordação que nos faz sofrer. “Errei, é verdade, mas hoje sou diferente, o erro serviu-me de lição. Por isso, sou feliz por ter vencido! Talvez os outros não perceberam ainda, mas me esforçarei cada vez mais para que possam sentir que sou outra pessoa!”

Atitude idêntica devemos ter em relação à fraqueza alheia: “Ele errou, e foi pena. Mas, o que importa é que se reergueu, venceu os próprios limites. Deu-nos uma lição”.

Devemos lamentar o erro no momento em que acontece. Um novo dia não precisa prestar contas ao dia anterior. É inútil repisar velhas feridas, mesmo que isso seja difícil, pois nossa memória tende a prolongar sentimentos.

Se aprendemos a nos perdoar, teremos facilidade de perdoar os outros. E vice-versa: se perdoamos os outros, sabemos nos perdoar.

No fundo, o que está em jogo é nossa capacidade de nos amarmos também em nossa fraqueza. Como que nos dividimos em dois: um que elogia as vitórias e outro, que condena os erros, reabre feridas. Não dá para viver com essa ambigüidade. Nós somos uma única realidade, indivisível, necessitada, em qualquer hipótese, de estímulo, de perdão, de amor. O próximo, também.

Há uma pessoa, insubstituível, responsável pela minha felicidade: eu mesmo! Se ninguém me diz “bom dia“, eu posso me dar “bom dia“. Pouco adianta outros me quererem bem, se eu não me valorizo, não me amo.

Mas, mesmo que eu não esqueça minha fraqueza, se os outros a lembram, há alguém que esquece de verdade: Deus! No seu amor perfeito, ele perdoa e apaga meu erro (Sl 50,4). Com toda ternura possível, recebe-me de novo a cada vez que dele me achego. Se mil vezes a ele retornar, sua ternura será sempre total, porque a vez passada não existe mais em seu coração. Quando me arrependo, Deus apaga da gravação da minha vida o erro e só deixa gravado o que foi bom, estimulante. Deus se compraz em ver seus filhos bem, felizes. Seu amor não permite ter prazer em nos apontar o dedo ameaçador!

Se mereço esse “esquecimento“, por que ficar me martirizando? Se para Deus meu erro foi apagado para sempre, por que somente eu vou ficar me torturando? A compreensão dessa atitude divina sem dúvida reforçará minha estima pessoal, me dará um ânimo novo. A cada momento posso ser uma nova criatura. Não tenho mais nada a ver se errei, se fui infiel, se não correspondi à confiança em mim depositada. Eu me perdôo, mudei de vida. E fui perdoado. Eu sou feliz

Pe. José Artulino Besen

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