EU VIVO – JÁ NÃO SOU EU QUE VIVO

 

Cristo, nossa vida – Antonello de Messina – séc. XV

A verdade fundante de nossa existência, a verdade que necessitamos ouvir para sermos pessoa é uma: “EU VIVO!”. Duas palavras que não se separam: EU e VIVO.

Simone Weil (1909-1943), cuja breve existência conheceu em profundidade desde a negação de Deus até a afirmação de Cristo, escreveu que “além do EU nada possuímos no mundo, porque o acaso, o destino podem tirar-nos tudo, menos o poder de dizer EU. Aquilo que devemos oferecer a Deus é isso. Não existe absolutamente outro ato livre que nos seja permitido, exceto a destruição do EU”.

Somente a declaração EU é realmente minha. Tudo o mais não me pertence, pois é de Deus. Ele me concede o fundamental, o EU que me faz existir com liberdade. Se afirmo outras posses pessoais estou reivindicando o direito à usurpação.

Deus aceita nossas ofertas por bondade – oferecer a Deus é apenas devolver – mas a oferta verdadeira que ele pede é aquela única que posso dar: meu EU. Tudo o mais é ação de graças, louvor ao Criador e Senhor de tudo.

A oferta de meu EU é preciosa porque nada no mundo pode arrebatá-lo sem meu consentimento. O mundo foi-nos entregue para dele cuidarmos, mas o EU foi-nos doado incondicionalmente.

No momento da criação do homem e da mulher, num ato de humildade, Deus, o único EU absoluto, aceitou partilhar com eles o EU divino, para que pudesse amar, estabelecer o diálogo com o outro, criar a alteridade. “Deus formou o ser humano com o pó do solo, soprou-lhe nas narinas o sopro da vida, e ele tornou-se um ser vivente” (Gn 2, 7). O sopro da vida é o EU divino agora partilhado com outro ser, outro EU. Adão e Eva não ficaram satisfeitos com sua única posse legítima – dizer EU – e quiseram arrebatar o EU divino, dizendo EU em lugar de Deus. Com isso se anularam e criaram o egoísmo sem EU. Despersonalizaram-se e ficaram privados da liberdade. Deixaram de ser pessoas e inauguraram o ateísmo (tirar o EU de Deus) e o materialismo (identificar o EU divino com a matéria), para apossar-se do que não lhes pertence: Deus.

O egoísmo, negação da existência do outro, é perigoso porque não tolera que o próximo possa dizer EU e, por isso, quer constrangê-lo a declarar “EU sou TU” e ouvir a resposta “TU és EU”. É a origem de todos os colonialismos políticos, econômicos e religiosos, tanto de pessoas como de governos: querem apossar-se do EU do outro. É a raiz do domínio do homem sobre a mulher, da dominação erótica que tira do outro o EU e o transforma em pura carne para ser devorada. As sociedades materialistas, consumistas e hedonistas vêm nisso progresso, libertação, quando não ultrapassa o nível da alienação.

 

Por amor a Deus, o EU pode ser oferecido

Toda privação do EU é dolorosa e destruidora quando obra de forças exteriores. Mas há uma privação que causa dor e é redentora: aquela oferecida pelo Cristianismo quando se alcança o grau da perfeição por obra da graça. É a ação do Filho de Deus renunciando à sua condição divina (cf. Fl 2,6-11): assumindo a existência de escravo renunciou ao EU divino até o extremo de perder a existência e gritar “Meu Deus, por que me abandonaste?” (Mc 15,34). É a plenitude da cruz, a plenitude do amor que derrota o inimigo ancestral, pois fruto de decisão livre.

Nessa dor de abandono, Deus está presente no mal, e sua falta é sentida porque dele tem falta somente quem o possui. Quem não tem Deus, não experimenta sua ausência. Aqui reside a dor dos que se sentem ateus, mas não são: apenas vivem a dor de sua ausência-presença.

Não devemos cair em equívocos: há os que perdem o EU a partir de atitudes interiores e há os que o perdem a partir de fatores externos, e o perdem por amor. Como a de Jesus, é uma dor expiatória, assumindo o não-EU para que o outro possa retomar a própria existência e novamente poder apresentar sua única posse: EU.

Quem aceita essa dor expiatória passa pela dor quase infernal da noite escura da fé: grita-se pelo TU divino, mas não há resposta, pois houve a privação do EU dialogante.

Paulo fez essa experiência com tal intensidade que pode escrever aos gálatas: “Eu vivo, mas não eu: é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20). A alegria dessa afirmação custou-lhe chibatadas, açoites, prisões, naufrágios, difamações, renúncias e ainda teria o preço da decapitação.

Ele tornou-se anunciador da alegria no Espírito, da paz verdadeira, da comunhão plena: por livre decisão, seu EU era o de Cristo e o EU de Cristo era o de Paulo. Quando o Senhor recebe nosso EU, como gratidão nos entrega o dele. E tornamos ao Paraíso, retomando o diálogo interrompido pela presunção de Adão e Eva de tomarem o lugar de Deus.

Pe. José Artulino Besen

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  1. #1 por Marcos santos em 2 de fevereiro de 2012 - 15:18

    Quantos falsos profetas procuramos por ai,simplesmente alguém para culpar, a roupa cara que EU ouvi falar, o fulano que diz EU vou cuidar de você, que pena como EU erro tanto com EU mesmo! Obrigado por seus post.

  2. #2 por Vera Lucia Chiara em 6 de março de 2012 - 17:54

    Que beleza ver tantas verdades que foram anteriormente amplamente colocadas em livros do ex-padre Huberto Rohden! Ele, sabia bem disso como poucos! Parabéns!

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