NATAL – O ESPÍRITO, O SILÊNCIO E A PALAVRA

Entre tantos meios de comunicação, é útil contemplarmos o modo divino de se comunicar: o silêncio-Espírito-Palavra.

No ciclo do Natal, quando contemplamos a ruptura do isolamento entre o céu e a terra através de Cristo que se encarna, dos anjos que cantam, vale uma breve reflexão sobre a comunicação divina: “O Espírito Santo descerá sobre ti, e o poder do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra” (Lc 1,35), anunciou Gabriel, “e a Palavra de Deus se fez carne e veio morar entre nós” (Jo 1,14) com o sim de Maria. Primeiro o silêncio, depois a ação do Espírito e, em seguida, a Palavra.

Temos a faculdade de entender os silêncios bíblicos quando recebemos a Palavra pelo Espírito: “quem tem ouvidos para ouvir, ouça”, isto é, precisamos de ouvidos dados pelo Espírito para ouvir a Palavra, e não qualquer ouvido. Afirma Basílio de Cesaréia (329-379) que “é um forma de silêncio também a obscuridade que envolve a Escritura e que torna difícil a compreensão das doutrinas, e isso é de utilidade para os que dela se aproximam” (O Espírito Santo, 27,66): nem tudo compreendemos agora, e a contemplação é uma forma superior de compreensão, por ser espiritual.

Deus pouco se nos comunica por palavras, mas, pelo silêncio faz brotar em nós palavras que de outro modo não teriam nenhum sentido, afirma o teólogo russo Vladimir Lossky (1903-1958). Não é silêncio pela ausência da palavra, mas palavra que brota do silêncio. Maria primeiramente recebeu o Espírito, e depois recebeu a Palavra. O Espírito precede à Palavra também no encontro de Maria com Isabel: “…e Isabel ficou repleta do Espírito Santo. Com voz forte, ela exclamou: ‘Bendita és tu entre as mulheres…’ (cf. Lc 1,41-42). O menino João saltou de alegria no seio de Isabel porque o mesmo Espírito silenciosamente lhe revelou Jesus no seio de Maria.

Ao se retirarem os pastores da gruta de Belém, “Maria, porém, guardava todas estas coisas, meditando-as em seu coração” (cf. Lc 2, 15-19). A meditação é conduzida pelo Espírito e progressivamente revela o sentido dos acontecimentos. A noite do Natal é a grande noite da Luz poderosa: qualquer palavra empobreceria a explosão luminosa da natividade.

Silêncio e Palavra (Igor Mitoraj)

Sem voz e sem rosto, assim é o Espírito

O Espírito Santo não fala, porque sua missão é revelar a Palavra e, sem ele, a Palavra é apenas ruído religioso, profecia sem profetismo, sentimento sem fé, cerimônia sem liturgia. No grande silêncio também não nos foi revelado o rosto do Espírito, ao contrário do rosto de Jesus e do Pai (“Filipe, quem me vê, vê o Pai” – Jo 14,9). Mas, é possível contemplar o rosto do Espírito Santo: olhando o rosto dos santos, das pessoas cheias do amor, que revelam o Espírito. Os santos têm o privilégio de revelar a imagem e a semelhança de Deus, donde a luz que irradia de seus rostos. O silêncio do Espírito, de sua voz e face nos é manifestado na sinfonia da comunhão dos santos: afirmou um monge que ”se não existissem os santos, se nós não acreditássemos na comunhão dos santos do céu e da terra, estaríamos encerrados numa solidão desesperada e desesperante”, pois viveríamos num silêncio não comunicativo, revelador de gélida vida solitária.

O Espírito nos abre os ouvidos e o coração para ouvirmos a Palavra e essa não pode ser ouvida sem a renovação de nosso ser através dele. Tira de nós a presunção do conhecimento teórico, abstrato sobre Deus, pois não há relação intelectual com Deus em Cristo, mas sim, renovação do coração e da mente que nos fazem compreender a Palavra que, acolhida, nos mergulha na verdade e na vida.

É pobre o comunicador – a palavra de ordem hoje é comunicar! – que busca explicar tudo. Nossas TVs, rádios, internet estão cheios de explicações religiosas, algumas até contraditórias. Na busca legítima de evangelizar, levar a doutrina a todos os ambientes, corre-se o risco de profanar o Sagrado, espetacularizar o mistério. A comunicação religiosa é contemplação, adoração, revelação. Aqui entra o “pudor”, o recato: as coisas de Deus são misteriosas, profundas, não podem ser lançadas na vala comum do barulho mundano. São mais contempladas do que demonstradas.

Em seus primeiros séculos, a Igreja adotava o catecumenato para os adultos, que participavam da Eucaristia apenas até o final da Liturgia da Palavra. Ainda hoje a Liturgia ortodoxa, nesse momento, ordena: “Catecúmenos, ide embora!”. Após o Batismo (que incluía a Comunhão e a Crisma) era-lhes explicado o que tinha acontecido num sermão “mistagógico”, de introdução ao mistério. Havia segredos que somente nesse momento eram revelados. Hoje nos preocupamos em mostrar tudo, explicar tudo, e destruímos a possibilidade do espanto diante do Mistério, perdemos o pudor do silêncio. E perdemos tudo, pois não ouviremos os anjos cantando e não iremos a Belém.

Pe. José Artulino Besen

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  1. #1 por Edinez Silva Souza em 19 de dezembro de 2011 - 19:12

    A sua Benção Padre.participo de uma comunidade do Caminho Neocatumenal a mais de 15 anos,estou na etapa Tradiço,recebemos o envio do Vigário da nossa PARÓQUIA com a benção do Bispo, para anunciar a Palavra de Deus nos domicilios dos Bairros da Nossa cidade. Estamos também estudando os Artigos do Credo para celebração domiciliar, catequese e celebração na Igreja.

  2. #2 por Pe. José Artulino Besen em 20 de janeiro de 2012 - 14:47

    Edinez,
    é muito importante fazer do Credo uma grande oração. Ele brota em nosso coração por obra dos Espírito Santo, não pela força da inteligência.
    Deus abençoe sua comunidade.

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