A VERDADE SUSCITA PROFETAS, NÃO OS PROFETAS A VERDADE

Com freqüência é despertada na Igreja a idéia de que a autoridade descobre caminhos de expressão da Verdade. Tem-se até a impressão de que o Papa, patriarcas, bispos e teólogos possuem um caráter especial que os faz descobrir verdades e princípios antes ocultos. Quando se considera a Igreja a partir da autoridade confundida com poder, esse tipo de raciocínio tem fundamento histórico, mas não teológico. Mas, se considerarmos a Igreja como obra do Espírito Santo, não é o poder-autoridade que conta, mas a Verdade de Jesus Cristo. E é essa Verdade que suscita a Igreja, a autoridade, o teólogo.

Sempre foi assim foi no campo teológico, espiritual e moral da história cristã. Igualmente foi assim na Antiga Aliança: Deus suscitava profetas, o pecado do povo despertava a profecia.

Quando o Cristianismo se deparou com interpretações perigosas a respeito de Jesus Cristo e do mistério da Encarnação, a Verdade de Cristo suscitou os Pais da Igreja, como Irineu de Lião, e lhes inspirou palavras que garantissem sua integridade.

Quando Ario de Constantinopla (séc. IV) afirmava que Cristo não era Deus de Deus, mas pessoa humana assumida como Filho de Deus, a Verdade despertou os grandes teólogos que, reunidos no Concílio de Nicéia (a.325) e movidos pelo Espírito, definiram Jesus Cristo verdadeiro Deus, da mesma divindade que o Pai. Aconteceu no mesmo século por ocasião da afirmação de Êutiques, de que em Jesus havia uma só natureza, a divina (monofisismo). A Verdade suscitou a Igreja que, movida pelo Espírito em Calcedônia (451) proclama em Jesus uma Pessoa divina e duas Naturezas, divina e humana. Até o final do século V o mistério trinitário despertara a consciência da Igreja, dos Santos Pais e, através de suas vozes, o Espírito clarificava o mistério central do Cristianismo: um Deus – o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

A partir do século VI a grande Igreja assume dois caminhos, mesmo que na afirmação da única Verdade: a Igreja romana vai insistir na organização, no poder visto como autoridade máxima, fruto da centralidade de Cristo homem e Deus: as estruturas vão contar muito, pois a humanidade do Senhor levava à concepção de eclesiologia fundada nos aspectos visíveis, hierárquicos. A Igreja oriental, por sua vez, ingressava em sua grande reflexão pneumatológica, a ação do Espírito Santo que transfigura pela Eucaristia. A missão da autoridade somente tem sentido no Espírito: é serviço à Verdade, nunca poder. O bispo, o sínodo, o patriarcado, os teólogos têm seu sentido na vigilância apostólica, no cuidado da fé e da vida cristã. Se na Igreja latina a salvação da alma é a finalidade da vida cristã, na Igreja ortodoxa a finalidade é a divinização do cristão, obra do Espírito através da Eucaristia.

Espiritualidade e vida cristã

Ao proclamar um Santo “Doutor”, a Igreja reconhece nele um modo original de vida cristã, uma nova faceta suscitada pelo Espírito na riqueza sempre insondável do Evangelho. No século III, frente à teologia intelectualista em moda em Alexandria, homens e mulheres buscaram o deserto e lá aprenderam, no silêncio, oração e trabalho, a “ruminar” a Palavra de Deus, fazendo brotar um jardim de santos, os eremitas e anacoretas. Não foi São Bento que criou a vida comunitária nos mosteiros: foi o Evangelho que despertou em São Bento (+547) a espiritualidade beneditina e sua Regra. Não foram profundas reflexões teológicas que possibilitaram a Teresinha de Lisieux (+1897) a vivência do “Pequeno Caminho” da vida cristã: foi a Verdade que entrou no coração dessa jovem e nela plantou a espiritualidade da confiança filial em Deus.

Na história, Deus mostra sua bondade onde menos esperamos: o oficial francês Charles de Foucauld (+1916) não vai para o deserto do Saara viver o escondimento de Jesus, como em Nazaré, por conta própria. É o Espírito Santo que o arrancou da vaidade e o atirou em meio aos tuaregues. Edith Stein (+1942), judia, filósofa, descrente, tinha claro a negação de Deus: numa noite, porém, lendo o “Vida” de Teresa d’Ávila, a Verdade a despertou ao concluir a leitura e afirmar: “Essa é a Verdade”. A mulher judia, filósofa, descrente, se faz cristã, católica, carmelita e termina o Caminho na câmara de gás de Auschwitz. Ela não procurou a Verdade: a Verdade a encontrou.

Dom Hélder Câmara (+1999) trabalhava como zeloso e competente sacerdote e bispo no Rio de Janeiro, quando o olhar dos pobres plantou nele a decisão de nada mais querer senão ver e amar Jesus em cada pobre. Dom Luciano Mendes de Almeida (+2006), intelectual jesuíta, homem de muitas competências, teve o caminho cristão despertado pelos pobres das ruas de São Paulo e, através dos pobres, viu o rosto do Senhor nos meninos de rua e seu coração explodiu de afeto e compaixão por cada um deles. Os pobres procuraram a beata Dulce dos Pobres, e ela, conduzida pelo Espírito, deixou-se por eles ser encontrada.

Quando a Igreja se concentra em si, na sua competência, vê o Evangelho como desafio de organização e competência, alguns de seus teólogos são profissionais do raciocínio, pesquisadores de fórmulas doutrinais e não santos à escuta do Mestre. Estando aberta ao Espírito, a verdade sobre Deus, o Homem e o Mundo a iluminará evangelicamente e sua força germinará nos lares, hospitais, leitos de dor, conventos, igrejas, locais de trabalho onde cristãos “ruminam” a Palavra.

Não descobrimos o caminho, a verdade e a vida: eles é que nos encontram.

Pe. José Artulino Besen

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