O VALOR MAIOR É NÃO TER PREÇO – O PERDÃO

Itália, 31/03/2005: Papa João Paulo II encontra, na prisão, o homem que tentou assassiná-lo, o turco Mehmet Ali Agca. Foto: Vaticano/Reuters

Místico cristão, filósofo, médico, poeta, jurista, Ângelo Silesius (1624-1667) é autor de comoventes e ternos versos dirigidos à gratuidade de Deus: “A rosa não tem porquê. Floresce porque floresce. Não cuida de si mesma. Nunca se pergunta: Alguém me olha?…“. Se cada flor, individualmente, é um hino à gratuidade divina, somemos todas as obras da criação e teremos uma pálida imagem do amor divino. Nada foi criado de forma igual. Nenhuma flor é igual à outra. Nenhuma pessoa é igual. O amor não repete dons, zela pela originalidade de cada um. E tudo gratuitamente, sem esperar recompensas.

Nós, pelo contrário, somos marcados pelo olhar do preço, da utilidade, do descartável, da comparação. Deus prefere o desperdício da beleza. Ou não é um desperdício um jardim, um bosque, a variedade das aves, frutas? Não bastaria uma rosa para encantar a natureza? Nosso Deus prefere o desperdício do amor, do belo. As flores são colocadas além do útil ou inútil. Elas existem, e isso basta para alegrar uma existência.

Não bastaria o sorriso de uma única criança para encantar nossa existência, rejuvenescer nosso olhar? E são tantas as crianças, tão esplêndidos os olhos de cada uma que nos damos ao luxo de nem percebê-las ao nosso lado, por todo lado.

“Hoje sabemos o preço de tudo e o valor de nada”, escreveu Oscar Wilde. Medimos cada gesto pelo preço e, desse modo, lhe tiramos o valor. A generosidade se caracteriza não pelo preço, mas pelo valor do gesto amoroso, amigo. Até crianças estão perdendo a alegria de receber gestos generosos: elas logo querem definir para que serve o presente. Se não serve, reclamam e jogam fora. São incapazes de sentir o valor afetivo do objeto dado com amor. Como seria importante recuperarmos o olhar da admiração, do deslumbramento, do encanto, o olhar divino! Isso tem consequências em nossa vida de fé: “O olho com que vejo Deus é o mesmo com que ele me vê” (M. Eckhart). Isso, do nosso ponto de vista: se somos desprovidos de sentimentos, julgamos que Deus também o é. Ele, porém, me vê com desperdício de admiração, pois sou obra de suas mãos. “Que maravilha, meu Senhor, sou eu! (cf. Sl 138), seria nossa resposta verdadeira ao nos contemplarmos diante de nosso Criador.

A ciência, de tanto buscar a composição de cada ser em seus núcleos, moléculas, DNA. corre o perigo de perder a capacidade de admirar, de ver o conjunto. Mas, ao poder contemplar a incrível complexidade de um átomo, também exclamará: “Que maravilha!”

 A ingratidão humana e a criação do perdão

Deus não se cansa em ser criativo. Nunca subestimemos a capacidade do Espírito Santo, que inventa os santos, as crianças, os gestos generosos, os mártires, os artistas, as mães e pais. Desde toda a eternidade Deus decidiu nos salvar em seu Filho, fazer-nos à sua semelhança. O mistério da salvação é o mistério do amor pessoal divino por cada um de nós expresso pela vida de Jesus. Ele, em seu testamento, no último dia terreno, escreveu com a escultura do Lava-pés: Deus veio ao mundo para nos lavar os pés.

E continuará lavando nossos pés, mas, a pedido de Pedro, nos lava totalmente pelo perdão. Perdoar é a obra-prima do Deus Uno e Trino: perdoar sempre, pedir licença para perdoar, reconciliar-nos com ele, toma a iniciativa mesmo frente à nossa total indiferença. Ele perdoa o inimigo, sempre, pois o mal e o ódio quebram a harmonia da criação. É além disso: ele não vê inimigos, mas filhos.

O perdão gemido pelo Senhor no alto da Cruz “Pai, perdoai-lhes, não sabem o que fazem” pode não ter sentido a nossos ouvidos, mas é natural na gratuidade divina. O perdão oferecido ao inimigo fica sem explicação, pois se governa pela lógica do gratuito, especialidade de Deus. O perdão ao inimigo tem sentido como per-doar: eu acompanho a palavra “eu perdôo”, eu me dôo a quem me ofendeu com a palavra perdão. É a mais preciosa herança entregue pelo Senhor aos cristãos: perdoar sem dizer por que, perdoar grátis. É a atitude definidora do cristianismo.

Do mesmo modo que tudo em Deus é gratuito, tudo o que oferecemos de reconciliação também seja gratuidade. Libertar o perdão da escravidão do oportunismo é permitir ao homem retornar às profundidades de sua humanidade, reencontrar em plenitude a própria dignidade, que tem origem no Deus amor. A humanidade reconciliada é nossa retribuição ao desperdício da beleza divina semeada na criação, e nosso compromisso frente ao mundo.

Pe. José Artulino Besen

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