COMUNHÃO ESPIRITUAL – DEVOÇÃO E EUCARISTIA

Esperando a Missa de Páscoa em Kiev

Há intuições do devocionário popular que, confrontadas com a Liturgia, podem ganhar um significado profundo e serem símbolos de uma verdade maior. É o caso da “comunhão espiritual”: era e é recomendada para quem não pode participar da Missa, ou por não haver a Celebração pela ausência do padre ou por impedimento de consciência, como viver situação irregular. Na piedade popular mais estimulada nos seminários, conventos e associações religiosas era a “oração do desejo de comungar”, donde comunhão espiritual, não real, como se o espiritual pudesse ser não real. Por ocasião de aniversários, tempos fortes, se estimulavam os “ramalhetes espirituais” nos quais a comunhão espiritual ganhava destaque e tinha o peso medido pela quantia de vezes.

Os atos devocionais podem ter origem tanto na ausência/desconhecimento da Palavra de Deus e da Liturgia quanto num conhecimento menos eclesial da Palavra, ou então são a cristianização de ritos de outras religiões.

Não se quer negar o mérito ou a qualidade das devoções, apenas dizer que podemos extrair desse poço valores teológicos para elas.

Encontramos no Profeta Malaquias (480/460AC), o último na lista dos profetas bíblicos, uma profecia messiânica que nos insere no caminho da Comunhão espiritual: “De onde nasce o sol até onde ele se põe, o meu nome é glorificado entre as nações, e em todo lugar se oferece a meu nome um sacrifício puro, porque meu nome é glorificado entre as nações – diz o Senhor (Ml 1, 11). Malaquias fala de um sacrifício puro de louvor celebrado ininterruptamente em todas as nações. Não há momento ou lugarem que Deus não esteja recebendo esse sacrifício verdadeiro.

A Liturgia católica, na Oração eucarística III, após o canto do Santo, nos insere nessa profecia messiânica ao iniciar e epíclese: “Na verdade, vós sois santo, ó Deus do universo, e tudo o que criastes proclama o vosso louvor, porque, por Jesus Cristo, vosso Filho e Senhor nosso, e pela força do Espírito Santo, dais vida e santidade a todas as coisas e não cessais de reunir o vosso povo, para que vos ofereça em toda parte, do nascer ao pôr-do-sol, um sacrifício perfeito”.

A cada momento e em todo lugar, por Cristo, na força do Espírito, o Pai nos reúne para um sacrifício perfeito celebrado ininterruptamente, do nascer ao por do sol. Não podemos imaginar que em algum instante não se esteja unido ao Deus Uno e Trino com o sacrifício eucarístico. A Eucaristia é a celebração da Cruz e Ressurreição do Senhor, celebração do mistério em que, pela força gerada no Amor crucificado, nossos pecados são perdoados.

O drama da redenção pela Cruz é situado historicamente: em Jerusalém, numa sexta-feira da primavera do ano 32. Com isso podemos dizer que nessa data há um antes e um depois da Cruz, mas, no momento da Morte (tempo)-Ressurreição (eternidade) se revela a divindade do Senhor e a Eucaristia sai do tempo histórico e penetra na eternidade divina. Por quê? Deus é eterno, sem passado ou futuro e a Liturgia se realiza fora do tempo. Nossa vida humana transcorre nos fragmentos do tempo histórico, é verdade, mas nossa redenção se situa no eterno de Deus.

Assim, a Liturgia revelada no Apocalipse, em que o Cordeiro imolado desde a fundação do mundo assume o trono donde jorra a água redentora para o perdão dos pecados, permanece até o final da história (cf. Apc 21, 22-25): Cristo, o Cordeiro, é o templo onde se realiza a história. Cristo continua crucificado e ressuscitado, pois disse: “Se não crerdes que EU SOU, morrereis nos vossos pecados”; “Quando tiverdes elevado o Filho do Homem, então sabereis que EU SOU” (cf. Jo 8, 24.28). EU SOU é o nome de Deus, é a afirmação da divindade de Jesus o Cristo. Seguindo a palavra de João, Deus está crucificado e é na Cruz que se revela o Filho eterno. Desse modo o sacrifício redentor – a Eucaristia – se estende a todos os tempos e lugares, do nascer ao pôr-do-sol.

Se crermos no Crucificado, temos continuamente o perdão de nossos pecados, continuamente Cristo se oferece ao Pai por nós, na força do Espírito Santo. Esse gesto redentor não comporta datas e tempos, porque é obra divina, eterna. Cada comunidade eucarística intercede por toda a criação.

A Comunhão espiritual eucarística

Não há instante ou lugar em que não seja oferecido o sacrifício perfeito anunciado por Malaquias e proclamado na Liturgia. Isso nos dá uma grande alegria: espiritualmente participarmos da Eucaristia, hino de ação de graças e remissão dos pecados. Todo o cosmos é transformado e santificado pela Eucaristia, pois o Messias crucificado e ressuscitado a tudo consagra, e sempre, e em todo lugar.

Deste modo, a Comunhão espiritual pode ir muito além de um piedoso desejo de receber a Comunhão, de ser ato individual de alguém privado da Missa. A Comunhão espiritual é eucarística, é redentora, pois é participação real do mistério do Cordeiro imolado, cujo fruto é a remissão de nossos pecados. Ao invés de pensarmos numa igreja onde a Eucaristia é celebrada, creiamos que estamos mergulhados na Eucaristia cósmica, participando do sacrifício permanente e perfeito. Os pecados de todos os que crêem entram em contato e perfeitamente em comunhão com aquele que os perdoa. A cada comunhão espiritual eucarística somos o filho pródigo sendo recebido pelo Pai e recriado pela sua misericórdia.

São Francisco de Assis pediu que seus frades, quando passassem diante de uma igreja ou dum crucifixo, ou mesmo avistando de longe uma torre, se ajoelhassem e recitassem a pequena oração: “Nós vos adoramos e bendizemos, Senhor Jesus Cristo, presente aqui e em todas as igrejas do mundo”. Na Comunhão espiritual podemos e devemos rezar: “Nós vos louvamos e glorificamos, Senhor nosso Pai, e estamos unidos à Eucaristia que vossos filhos celebram nesse momento em todos os lugares do mundo”.

Pe. José Artulino Besen


Anúncios

, ,

%d blogueiros gostam disto: