NOSSO DEUS – PAI, FILHO E ESPÍRITO SANTO

Deus Uno e Trino – Ícone da Armênia

Para alguns pregadores, a Festa da Santíssima Trindade é um drama homilético: “Hoje celebramos a Santíssima Trindade. É um assunto muito complicado, mas comecemos com a historinha de Santo Agostinho”. Pronto: Deus deixou de ser amor e foi transformado em teorema. Trilhemoso caminho de Jesus.

“Desde o nascimento da Igreja, é ele (o Espírito Santo) quem dá a todos os povos o conhecimento do verdadeiro Deus” (Prefácio de Pentecostes). Nosso Deus não é o Deus do Antigo Testamento, não é o Alá dos muçulmanos, não é Brahman, não é Buda. Nosso Deus é o Pai, Filho e Espírito Santo. Três pessoas pelo amor unidas num único Deus. E, após a Encarnação, nosso Deus é Pai, Filho divino e humano e Espírito Santo. Em Cristo, a humanidade participa da vida trinitária.

Por que podemos falar assim, quase com soberba, com tanta segurança? Porque Deus nos revelou através de seu Filho que esteve entre nós. Mistério tão fascinante que se procura “humanizar”, tornar palatável à inteligência através também de uma teologia avessa à contemplação. Vale a frase de Chesterton: os tempos modernos estão infestados de “virtudes cristãs tornadas loucas”. Nosso Deus é conhecido por comunhão de amor, por contemplação maravilhada e não por discussões ou pela inteligência. Assim como Deus, também nós somos conhecidos somente se nos revelamos.

Contemplemos nosso Deus, concretamente, agindo em nossas vidas pelo amor sem medida, fiel, misericordioso, excessivo. É escândalo para judeus, muçulmanos, religiosos de todas as nações, intelectuais, ouvir que nosso Deus morreu na cruz por amor, que ele é frágil, sofre da mais bela das doenças: a doença do amor.

Nosso Deus é a Tri-Unidade, Deus uno e três vezes santo, comunhão de amor entre o Pai, Filho e Espírito Santo, comunhão não fechada em si, mas, que se abre a nós, chamados a acolher e a responder a tal amor. Como sempre, no Cristianismo, a meditação sobre Deus parte do homem Jesus Cristo, “o Filho unigênito que narrou Deus” (cf. Jo 1,18). Jesus não traz uma “mensagem”, mas sim sua própria pessoa divina e humana.

O Deus Trindade não é intimista, solidão: é voltado para fora, comunica-se ao homem, seu amor é para o mundo, é “Deus por nós”. O dogma trinitário é o esforço obstinado de aprofundar a afirmação do apóstolo João de que “Deus é amor” (1Jo 4,8 – Rémi Brague). “Deus é amor” é o nome de nosso Deus. O nome “Deus é amor” revela nosso Deus compassivo e misericordioso, capaz de graça e de perdão. Desce para alcançar o homem na escravidão e no pecado (Êxodo).

Deus ama a tal ponto o mundo, a humanidade, que lhe dá seu Filho para a salvação do mundo. Um filho único é toda a vida de um pai, é o que ele mais ama: o Deus que doa o Filho único, Jesus, é o Deus movido por um amor louco. Há um excesso no amar divino e esse excesso é o Filho Jesus Cristo. Jesus, o Filho, consumiu sua vida inteira até à morte na liberdade e por amor de nós e, com o seu passar entre nós fazendo o bem na potência do Espírito Santo (cf. At 10,38), narrou-nos que “Deus é amor” (1Jo 4, 8.16). “Deus tanto amou o mundo que lhe deu seu Filho unigênito, para que quem nele crer não morra, mas tenha a vida eterna”. Com seu estilo de vida e com sua auto-doação, Jesus revelou o amor louco de Deus pelos homens. Renascido do alto, Paulo procura fazer da comunidade de Corinto uma morada do “Deus do amor e da paz” (2Cor 13,11). O homem é chamado à semelhança divina.

“Deste modo se manifestou o amor de Deus por nós: Deus enviou seu Filho ao mundo para que nós vivêssemos por meio dele. Assim é o amor de Deus: não fomos nós que amamos Deus, mas é ele que nos amou e enviou seu Filho como vítima de expiação por nossos pecados. Desse modo conhecemos que permanecemos em Deus e Deus em nós: pelo Espírito que ele nos deu como prêmio. E nós contemplamos e testemunhamos que o Pai enviou o Filho como Salvador do mundo (cf. 1Jo 4, 9-14). E, pela potência de Deus, o Espírito Santo, podemos renascer de verdade, do alto.

Assim nos ama Deus

A ação do Deus Uno-Trindade é perdão, amor, comunhão e somente pode ser experimentado através da .

O modo com que Deus nos ama é antes de tudo fidelidade. Mas, é uma fidelidade ao homem infiel, incapaz de querer corresponder a esse amor: a fidelidade e o amor de Deus tornam-se sua responsabilidade pelos homens pecadores. Deus se preocupa conosco, sente-se responsável por cada um de nós. E é assim que seu amor, unilateral e incondicionado, não condena, mas salva.

E como Deus provou seu amor? Na cruz, assumindo a forma do escândalo, do excesso que quebra todos os parâmetros humanos de reciprocidade, correspondência e retribuição do amor. O dom superabundante demonstrado na cruz é o perdão de Deus, o amor que Deus já predispõe para aquele que peca ou pecará. Nossos pecados já foram contemplados pelo Filho na cruz: o perdão já foi ofertado.

O Deus que ama é também o Deus que sofre se não aceitarmos seu amor, se rejeitarmos a graça que vem do Filho e da comunhão no Espírito. Sofre se encetamos uma viagem que o torna sempre mais distante do horizonte de nossa vida. O Deus Trindade é o Deus que não vive sem o homem. E o homem, pela fé situando-se em Cristo e deixando-se guiar pelo Espírito, passa a morar no ágape, no amor, e desse modo, conhece a comunhão com Deus, com o Deus que é amor. O ágape, amor em plenitude, gratuito, é o coração da vida trinitária.

Nossa resposta ao nosso Deus: acolhendo tal amor somos capazes de exercitá-lo, amando-nos uns aos outros. O Filho nos redime, o Espírito cria a unidade, o Pai acolhe sem condições e passamos a profetizar. Deste modo o amor de Deus pode difundir-se e manifestar-se na história. E com o universo cantaremos o hino: “Onde o amor é verdadeiro, aí Deus está!”.

Pe. José Artulino Besen

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