COMPANHEIRO – O QUE COME PÃO CONOSCO

Comunhão – antiqüíssimo afresco em mosteiro copta no Egito.

A essência do pecado consiste no impedimento de olhar o rosto de Deus e, por conseqüência, o rosto do outro. É a não-comunicação, a não-comunhão. Macário o Grande, Pai do Deserto, demonstra isso com a representação de pessoas de mãos dadas, lado a lado, mas que não podem se olhar no rosto. Estão unidas pelas mãos, mas separadas pela não-comunicação, pois sem contemplar o rosto do outro não temos possibilidade de vida comunitária.

Temos muitas ilusões de comunicação: o telefone celular, o MSN, o Orkut. São comunicações eletrônicas, úteis e também símbolos de nossa artificialidade de relações e solidão. Há pessoas que, estando em casa, ligam para vizinhos e amigos para fugir da solidão; mas, estando na rua, ligam para casa, também para vencer a solidão. Falta-lhes contemplar o rosto do outro, do amigo, daquele que reside com ele.

Vivemos uma dolorosa ausência de esperanças comunitárias, pois renunciamos às utopias, aos sonhos e, assim, nossa vida é precária: pequenas alegrias, pequenas dores, pequenos entusiasmos, pequenos desânimos. Apagou-se o fogo que iluminava a vida comunitária e, em seu lugar, é-nos oferecida uma cultura individualista. São imensos nosso esforço e nossos gastos para sermos diferentes, para nos convertermos em estátuas de curiosidade pública: olhados, admirados, criticados, mas sem comunhão.

Mesmo amontoados nos shoppings, estamos justapostos, não em conjunto. Nos condomínios nem sempre as pessoas se conhecem e acham isso melhor, pois não surgem compromissos com a dor ou a alegria dos vizinhos.

Os muitos compromissos nos impedem de olhar ao lado, criar  relações, condição necessária para se ter o sentido da vida.

Mesa posta – vida repartida

Enzo Bianchi, prior do Mosteiro de Bose, afirma que “no dia em que o homem inventou a mesa – talvez uma pedra – iniciou a cultura, a civilização”. A civilização não é um projeto individual: surge no decorrer do tempo com iniciativas originais e que se prestavam à vida comunitária. Gera a linguagem, a solidariedade, a convivência, a arte. Quando deixa a mesa, porém, gera a Babel, Caim, a competição destrutiva, as guerras. Então se entra no campo da barbárie, da selvageria, retornando-se ao tempo em que não havia civilização.

O pão é o melhor símbolo da civilização: ele é repartido, cada um se serve preocupado que não falte ao outro um pedaço. A selvageria confisca o pão, a civilização o distribui.

O pão é repartido numa mesa, seja ela uma pedra, um tapete, uma tábua, uma placa de granito. Mas, o pão pode estar na mesa, e os comensais não. Cada um dele se serve no momento que lhe apraz e se perde o sentido familiar. Nada mais representativo da existência da família do que pais, filhos e amigos em torno da mesa. Nada mais expressivo da solidão do que uma mesa coberta de iguarias, mas sem comensais. Cada um se serve sozinho e retorna a seus afazeres, a seu individualismo.

Tudo na mesa é sinfônico: a toalha, as cadeiras bem postas, iguarias, um arranjo de flores. A mesa posta é uma sinfonia: os sabores formam um acorde, combinam entre si. Quando a cozinheira prepara a refeição tem em mente essa harmonia de sabores, cores, perfumes. Mesmo nos dias de semana, a mais trivial e humilde refeição é harmônica e quem dela participa sente o carinho dispendido: é pobre, mas feita com amor, comenta-se.

A orquestra, porém, a sinfonia da mesa somente se revelará na sinfonia das pessoas que dela participam. A orquestra da mesa supõe as iguarias e a unidade dos comensais para que a alegria seja completa.

Jesus decidiu que seu memorial na história fosse uma mesa, uma Ceia, a Eucaristia. Ele presidiu a ceia, preparou os comensais lavando-lhes os pés, para que todos se sentissem amados. E, naquela hora decisiva da história humana, comeu com seus amigos e deu-lhes como alimento de vida fraterna seu Corpo e seu Sangue: a harmonia do Pão e do Vinho trouxe-nos a harmonia da comunidade cristã, onde todos são servidores e repartem o pão.

Somos companheiros. Companheiro não escolhe ocasião para ser fiel. É companheiro. A origem dessa bela palavra é o pão: companheiro, com-pão, cum-pane. Companheiro é o que come pão comigo, é aquele que me convida para comer o pão com ele. Quando alguém definiu Catedral como uma construção que guarda um altar, estava afirmando que o centro da catedral é a Mesa da Comunhão, do cum-pane, do com-pão, onde, a partir do memorial do gesto do Senhor, nos fortalecemos na fraternidade, na amizade, escrevendo a partitura da sinfonia universal. É o Cristianismo.

Pe. José Artulino Besen

Anúncios

, , , , ,

  1. #1 por Marcos Antônio Silveira em 10 de junho de 2011 - 11:25

    Bom dia,

    Quero agradecer esta matéria maravilhosa sobre o Professor Huberto Hodhen. Gostaria de saber o nome do cemitério que o Huberto esta sepultado, pois desejo visitá-lo.
    Muito obrigado!

  2. #2 por Gilda Aguiar da Conceição em 10 de junho de 2011 - 12:38

    Boa tarde! Fiquei muito feliz de encontrar o senhor aqui.Gilda

  3. #3 por Murilo José da Silva em 19 de junho de 2011 - 09:14

    No próximo dia 3 de julho, o Padre José completará 35 anos de vida sacerdotal. Que Deus continue a lhe proporcionar longos anos, pois há muito a fazer, e o povo está precisando muito. Neste dia completo tambem 35 anos de casamento, Padre josé, neste dia estarei juntamente com minha esposa rezando pelo Senhor. Espero poder receber sua bênção.

  4. #4 por Murilo José da Silva em 19 de junho de 2011 - 09:35

    Estou procurando um antigo companheiro da cidade de Rio Negrinho, e que estudou no Seminário São José. Seu nome é Arcelo Rockembarch, jogou futebol comigo na Sociedade Esportiva Ipiranga. Meu email – murilo.pai@bol.com.br

%d blogueiros gostam disto: