FRATERNIDADE E VIDA NO PLANETA (CF.-2011)

O homem, sacerdote da Criação – Vera Sabino

A CRIAÇÃO GEME EM DORES DE PARTO

“O Senhor Deus plantou um jardim no Éden e nele colocou o homem que havia formado. O Senhor Deus o estabeleceu no jardim do Éden para cultivar o solo e o guardar” (cf. Gn 2, 8.15). A narração bíblica é plena de carinho da parte de Deus: planta um jardim, planta fruteiras, flores, tudo com uma finalidade definida: fazer o homem sentir-se bem e, desde já, preparar o chão onde pisaria seu Filho. Milênios depois, quando Jesus contempla as colinas da Galiléia, o lago de Tiberíades, a Judéia, o mar Mediterrâneo, o deserto, lembrará a obra de seu Pai, feita para ele e para todos aqueles que receberam o sopro divino.

O homem e a mulher não detêm a exclusividade do jardim de Deus: tudo e todos, animados e inanimados fazem parte dele. Infelizmente, o pecado inverteu a ordem divina: o mundo foi entregue ao homem e à mulher para que cultivassem o solo e o guardassem. Um jardim tem de ser renovado com carinho, necessita de novas plantas e flores: cultivar e guardar. A inversão operada pelo pecado trouxe a noção de “dominar”, – mas agora em sentido negativo: sou dono, me pertence, faço o que quero e cada um que se arranje, e não a de proteger, conservar..

A criação, porém, continua a gerar a vida: a transformação de seus elementos forma o corpo humano, o faz crescer e o nutre. Se algum de nós quisesse se isolar da criação morreria de inanição, pois estaria privado da vida. Somos terra/pó, à terra/pó retornamos. Sem desespero, mas na alegria de nossos restos poderem gerar novas vidas.

Ao contemplar sua obra, Deus a julgou bela-e-boa (tov), muito bela (Gn 1,31), de uma beleza-e-bondade extensiva a toda a sua obra.

O mundo, de alguma forma, encanta, fascina também a Deus. No gesto perfeito do amor paterno, dá seu Filho ao mundo e o mundo a seu Filho. Quando o Verbo se faz Carne, a carne se faz Verbo. O mundo ofereceu os elementos naturais para a formação do corpo de Jesus e garantiu-lhe o sustento e crescimento. Na encarnação há a renovação da unidade original, da harmonia querida pelo Pai. O mesmo Filho que contemplou a obra da criação agora nela vive e a contempla bela, sim, mas prejudicada pelo pecado: as posses excluidoras, as faces sofridas de tantos marcados pela fome, doença, vítimas da injustiça. E seu olhar de Filho é tomado pela misericórdia, donde nada é excluído: uma imensa compaixão pelos seres humanos, pelos pecadores, pelos vegetais, animais, seres animados e inanimados.

O Senhor sabe que tudo lhe pertence, mas tudo partilha. Ele vem para que tudo tenha vida, recupere a beleza original. Somente os corações misericordiosos geram beleza, porque em tudo sentem a beleza. Quando Francisco de Assis com carinho depositava uma brasa no chão, para que não se ferisse, era movido pela misericórdia. Os animais também sentiam essa misericórdia e por tudo Francisco entoa o Canto das Criaturas: tudo é de Deus, tudo canta sua glória.

Misericórdia que regenera

A misericórdia de Jesus, expressa de modo perfeito e definitivo na Cruz e na Ressurreição, atinge toda obra divina e assim “a criação inteira geme ainda agora nas dores do parto. E não só ela: também nós, que possuímos as primícias do Espírito, gememos interiormente, esperando a adoção, a libertação para o nosso corpo” (Rm 8,22-23).

O gemer da criação abrange o doloroso estado atual e a espera de um futuro estado glorioso. O mundo material e inanimado será associado à glorificação do corpo do homem no Cristo ressuscitado (TEB). Toda a obra divina geme, penetrada pelo Espírito, ao sentir a misericórdia do Filho. Como poderia resistir indiferente ao ver suas lágrimas penetrarem no solo, seu sangue fecundar o chão do Calvário?

É motivo de lamento a pouca importância que damos ao Jardim onde estamos colocados, vendo nele apenas instrumento de posse, exploração, consumo, desperdício. O mundo, porém, não é tão sem importância, inútil, ilusório: Cristo veio para morrer aqui. Aqui esteve para salvar a obra divina. Aqui derramou o Espírito de vida e santidade. Não somente o homem tem a vocação de ser novo: a ressurreição e a transfiguração visam novos céus, nova terra, nova Jerusalém (cf. Ap 21,1-2).

O trabalho e a técnica são o grande modo de nossa colaboração com Deus na transformação do mundo. Infelizmente, o Ocidente, na revolução técnico-industrial, nada tinha em seu patrimônio espiritual que lhe permitisse fecundar com a luz tabórica o lance das ciências e das técnicas. Esse lance coincidiu com um verdadeiro exílio de Deus no céu. A insistência do resgate pelos méritos de Cristo e não pela divinização, no Deus feito homem, de toda a carne da terra, a escolástica substancialista que tornava quase impossível a percepção das energias divinas que realmente penetram o universo, contribuíram para amputar, no Ocidente, o alcance cósmico da redenção. A Reforma e a Contra Reforma tornaram-se a religião da alma, na linha de “Deus e minha alma” agostiniana, e tornou-se moral ativa, conquistadora (época das conquistas, das destruições), sem capacidade de metamorfose ontológica.

Não esquecer: o cristão é chamado a ser um homem litúrgico. Não existem fronteiras à irradiação da liturgia.

À medida que lavamos nossos olhos com as lágrimas do Senhor, também somos tomados pela misericórdia e tudo gemerá sentindo nosso coração misericordioso. Nosso coração não poderá ouvir ou ver qualquer sofrimento mesmo na menor criatura, pois nossa misericórdia será à imagem da misericórdia divina.

Pe. José Artulino Besen

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  1. #1 por Ebrael Shaddai em 8 de março de 2011 - 13:27

    Pe. Fernando Cardoso dizia ontem na Reflexão sobre o Sermão da Montanha, mencionando a Misericórdia, que “uma das coisas que se nos torna difícil a manifestação da misericórdia consoante a de Deus é a dificuldade que temos de separar a visão do pecado das pessoas, para perdoá-las, absolvê-las. Assim é com o Mundo: o homem não consegue desvincular a função original da Natureza do sentimento pecaminoso de fruição infinita e desmedida.

    Por isso, destrói-se o Mundo: por acreditarmos que tudo no mundo deve servir ao nosso prazer imediato. Por isso, a carne é vista pelos fanáticos como pecaminosa e fonte do Pecado, e pelos hedonistas como fonte inesgotável de suas obsessões.

    Sim, o Mundo e a Natureza gemem em dores de parto, como dizia São Paulo, e assim o é desde Adão.

    Abçs e a Paz de Cristo!

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