O DEUS DO TEMOR E O DEUS DO AMOR

O pelicano, pássaro que tornou-se um símbolo da Paixão de Cristo e da Eucaristia.

E Deus teve pena de seu povo
e não executou o mal com que os tinha ameaçado
(Jn 3,1-10).

Nínive, capital da Babilônia, foi uma das maiores cidades da antiguidade. Também foi grande na corrupção, na violência, na devassidão. Para lá se dirigiu o profeta Jonas. Vendo tanto pecado, percorreu a cidade e ameaçou: Daqui a 40 dias, Nínive será destruída! (Jn 3, 4). Apavorada, a população fez penitência, cobriu-se de cinza, jejuou. E a cidade foi poupada.

Jonas ameaçou, o povo se intimidou, e Deus sentiu-se desagravado. Era o espírito da religião antiga, que apresentava Deus na forma de um senhor que era obedecido com temor e desagravado pela penitência.

A fé cristã, revelada pelo Filho de Deus, ultrapassa esse espírito. É uma fé que nasce e se desenvolve no amor, onde não tem lugar o temor (cf. 1Jo 4,18).

O caminho trilhado por Jesus foi o do convite amigo: Sigam-me (Mc 1,17). Primeiro o contato pessoal. Depois o convite. Não fazia uma investigação sobre o passado, para saber se a pessoa prestava ou não. A pessoa se sentia amada. E fascinada: essa atitude de Jesus produzia uma atração irresistível. A mulher pecadora o seguiu, Zaqueu o recebeu em sua casa, Tiago e João deixaram o pai, os irmãos, as redes. Jesus queria discípulos e não seguidores amedrontados. Queria pessoas felizes e não crentes entristecidos por ameaças de inferno, de fim de mundo.

Os ninivitas fizeram penitência e mudaram de vida, mas apenas pelo tempo em que durou o medo. Passado o perigo, voltaram à antiga vida. Os discípulos de Jesus mudaram de vida, mas para sempre. Sua atitude foi fruto do amor.

O Cristianismo não é conseqüência de uma idéia, de uma filosofia religiosa, de um código de comportamento. É fruto do encontro pessoal com Jesus Cristo, encontro de amor que gera uma vida nova. Após esse encontro, que nos Apóstolos foi físico, e para nós é na fé, somos capazes de tudo para dizer: “Senhor, eu te amo!”

Infelizmente temos uma tendência a apresentar Cristo como aquele que ameaça, que nos promete o inferno se não mudarmos de vida. Gostamos de repetir a pregação do profeta Jonas. Fazemos isso, quem sabe, por frustração: “Já que não querem por bem, que seja pelo medo…”. Inventamos sinais no céu, calamidades que se anunciam para amanhã e conseguimos arrebanhar alguns, que irão continuar no mesmo anúncio do apocalipse final.

Isso é religião para se morrer e não para se viver em plenitude. Acabamos espantando os jovens, os que gostam da vida. O mundo precisa do Cristo que venceu a morte, ressuscitou, e não do Cristo na sepultura. Quer uma mensagem que transforme pela força do amor, e não ameaças de sofrimentos no meio de tanta dor já existente.

Na melhor das intenções, alguns pais vivem a repetir para o filho desobediente: “Deus vai te castigar!” Semeiam no coração da criança o medo de Deus. Mais tarde, livre do medo, nada mais quer saber de Deus…

O medo escraviza, o amor liberta. Jesus quer discípulos, e não escravos.

Nunca esqueça: quando Deus nos contempla, o faz com olhos de ternura de um pai. Ele nos vê como filhos, nunca como pecadores.

Pe. José Artulino Besen


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