O PECADO, NEGAÇÃO DE SER O QUE SOMOS

Adão (Francesco Messina – 1929)

Assim definia Thomas Merton: “O pecado é negação de ser o que somos, isto é, rejeição de nossa realidade misteriosa”. Somos humanos e é-nos exigido que sejamos divinos. E nos é exigido que sejamos divinos para que possamos ser humanos. O pecado nos faz retornar à primeira página da Escritura, à nossa criação à imagem e semelhança divina. Após a queda, Deus colocou em nós a nostalgia dele e nele há a nostalgia de nós. Jesus Cristo, com sua encarnação, tornou possível a superação dessa nostalgia com a unidade entre nós e Deus através do amor.

Se devemos dizer que é pela fé que somos justificados (cf. Rom 1,17), também é verdade que a fé é meio caminho, pois, à medida que ela cresce em nós pelo Espírito, toma lugar em nós o amor, que dela é a realização final. Quando o amor faz morada em nós, se intensifica o diálogo divino-humano: continuamente Deus nos chama a sermos como ele e, quanto mais alcançamos a semelhança divina, mais somos a ela atraídos pela força  irrefreável do amor.

A graça batismal, que nos concedeu a filiação divina, é continuamente ameaçada pelo pecado: negar a filiação e acharmos que ser humano equivale a sermos autônomos. Isso divide o ser humano: afasta-o de Deus e volta-o para si. Não há autonomia quando se trilha o caminho do amor. Existe a liberdade, sim, pois está em nós a possibilidade trágica de interromper o caminho da humanização-divinização. E então seremos pecado, pois destruímos em nós a existência feita de mistério, de procura do divino. Nessa hora Deus retoma a iniciativa e desperta em nosso coração a saudade dele. E reinicia a aventura do encontro, da felicidade.

Henry Newman, inglês convertido do anglicanismo ao catolicismo, há pouco beatificado por Bento XVI, ensinava: “Assim como a semente tem a árvore dentro de si, assim os homens têm os anjos dentro de si. Aqui está a importância que a Escritura dá ao crescimento da graça. As sementes devem tornar-se árvores. Nós somos regenerados para sermos transformados, dia após dia, segundo a imagem daquele que nos gerou” (Par. Serm.,V,351).

Os anjos que nos habitam são responsáveis pelas chamadas divinas que continuamente ouvimos através da consciência. Estimulam-nos a avançar no caminho da santidade, da semelhança divina. Tiram de nós a paz dos injustos para substituí-la pelo combate do justo, a santidade. Isso equivale a trocar a morte pela vida, pois crescer é a única prova de que estamos vivos.

Mudar e crescer – caminho de fé

Todos os que aceitaram a aventura da santidade se queixavam de que não tinham paz, de que nunca tinham feito o suficiente: Deus é o “nunca-bastante”, sempre quer mais. É o caminho da vida: viver é mudar para crescer.

Há determinados tipos de religiosidade que se conformam na repetição monótona de devoções, orações, rituais. São adeptos de uma religião pobre, onde não há vontade de mudar, coragem de sofrer, suportar o Deus da vida, poderoso e paterno, que nos quer transformar sempre mais. Jesus não veio nos trazer a acomodação, mas o fogo que devora, que purifica (cf. Lc 12,49). O cristão acomodado tem medo de mudar de vida, de crescer no amor, por um motivo simples: não quer ser cristão, deseja apenas viver uma religiosidade de consumo, que lhe entorpece o impulso da perfeição, da santidade.

Temos medo de mudar e crescer na fé porque preferimos o caminho largo onde tudo é possível, desde que haja de Deus uma pálida lembrança e não a busca do encontro pessoal.

Nas Igrejas estabelecidas essa escolha é visível quando se busca salvar estruturas e hierarquias, preservar tradições numa ingênua motivação de que isso é importante para servir ao Senhor. Sim, e o que significa servir ao Senhor senão mudança de vida, ingressar nas estradas divinas que permitem o encontro? Nossa mais profunda aspiração, semeada em nós pelo Espírito, não é contemplar o Senhor face a face no céu? E isso é possível sem a luta pela santidade?

Apresentaria aqui uma parábola: quem busca o Senhor de coração sincero, no combate pela transformação da vida, ao encontrar o Senhor no céu terá a alegria de entrar na glória dos filhos de Deus. Quem viveu uma vida religiosa sem combate, sem buscar a santidade, ao encontrar o Senhor no céu sentirá um desejo imenso de retornar à vida para de verdade procurá-lo, sofrerá contemplando o tesouro que deixou escapar-lhe da mão. A realidade de sua vida não se apresenta como amor realizado, beleza. Diante da glória sua vida não o convence de outra coisa do que ter perdido a chance de buscar a felicidade.

Resumindo: a situação do cristão é paradoxal: é homem e dele é exigido ser Deus. Foi criado limpo, e está sujo, mas deve apenas voltar ao que foi predestinado a ser. Dito de outro modo, tem de lutar para vir a ser o que é” (Nicu Steinhardt, Diário da Felicidade, p.150).

Pe. José Artulino Besen

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  1. #1 por Ebrael Shaddai em 10 de fevereiro de 2011 - 22:56

    Padre José, muitas vezes o homem se acostuma a não ser o que não é, a viver longe de si mesmo e de sua natureza (divina, do Reino de Deus dentro de nós). É por isso que a maioria das pessoas não sabe responder por que está aqui, porque existem, de onde vêm e para onde vão… Buscam respostas, as mesmas que estão dentro delas, como um tesouro escondido, como uma pérolas das parábolas de Jesus. “Onde estiver teu Coração, aí estará teu tesouro”.
    As pessoas confundem Coração (sede do Amor, fornalha de Caridade) com Sede de Todos os Desejos, desejos nos mais das vezes compatíveis com caprichos e vaidades, a maioria intempestivos e passageiros.
    Pecado é ser o que não se é, é perder tempo “dando murro em ponta de faca”…

    Paz e bem!

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