NO NATAL O DIVINO PENETRA TODA A CRIAÇÃO

Natividade (Correggio)

«Glória a Deus no mais alto dos céus
e na terra paz aos homens!»
(Lc 2,14).

Pela primeira vez na história, o céu vem à terra para trazer uma notícia humana e divina. São os anjos que vêm anunciar aos pastores que, na manjedoura, jazia um menino, o Cristo Senhor. Os repórteres celestes fazem reportagem na terra! Tem início uma comunhão misteriosa, cuja finalidade é reiniciar o diálogo entre o céu e a terra, entre Deus e o homem, interrompido pelo pecado. Não apenas o diálogo de Deus com os Patriarcas e Profetas, mas com a humanidade, toda a criação. Antes, Deus falava em partes, na pedagogia da salvação: “agora nos revelou no todo, dando-nos o Tudo, que é seu Filho” (São João da Cruz: A subida do Monte Carmelo). A revelação é total.

O ser humano tem agora a possibilidade real de superar o limite do tempo e do espaço e entrar na vida divina, onde nada tem fim, onde tudo é participação-comunhão no eterno. Agora o céu é o templo dos homens e a terra, o templo de Deus.

Quando os primeiros pais quiseram ser como Deus, subtraindo Deus de sua vida, caíram na ilusão: já participavam da vida divina e com a negação de Deus ingressaram numa vida cujo desfecho é a morte. Quiseram suprimir a imagem e semelhança, e desembocaram numa estrada onde nem humanos conseguiam ser. Estava rompida a comunhão que faz o homem e a mulher serem humanos. Deus estabelece comunhão, o diabo fabrica interesses.

Nosso Deus aceita ser desafiado, o que faz parte da comunhão, mas não aceita ser derrotado no que lhe é a essência: o amor. Desde toda a eternidade se propôs reconciliar-nos consigo através de seu Filho, mas reconciliação fruto da liberdade. Podemos querer o isolamento, sermos desumanos.

Então “a Palavra se fez carne e habitou entre nós, e nós vimos a sua glória” (Jo 1,1-14).

O mistério do Natal envolve toda a criação num novo processo: a instauração do reino de Deus, toda a riqueza da criação sendo penetrada pelo divino. A encarnação do Filho concretiza uma nova Aliança, a Igreja, da qual ele é a Cabeça: é a história da salvação cristã, salvação cósmica, pois dela nada nem ninguém é excluído.

Em momentos de dúvida podemos ser vítimas do pessimismo: Cristo veio há dois mil anos, estamos no terceiro milênio, tanto já se trabalhou, tantos mártires e santos, e o reino não caminha! O mundo antigo parece vencer a batalha. É a tentação do sucesso medido e triunfal. E de Deus, porém, a palavra verdadeira e final. Cristo é e será o vencedor. Cada vez que uma pessoa o aceita como Senhor de sua vida, ele inicia o reinado, como o iniciou na Cruz ao pedido do Bom Ladrão.

O Natal se prolonga na História

Um dos nossos problemas é achar que o arco da história está se completando, que os tempos estão terminando. Um clima de milenarismo de gente espantada com as crises e se torna profeta da derrota, protegida com a couraça do derrotismo. É bom citar aqui João XXIII, o Papa Bom (1958-1963): “Quem conhece a história sabe que lentamente, lentamente a nossa Igreja se purificou. Daremos outros passos. Temos ainda muitos séculos diante de nós”. E em outras palavras, a Igreja ainda é uma criança. Sabe bastante e acaba achando que já sabe o suficiente. Mas precisa aprender a viver, a testemunhar a presença do Espírito.

Dois mil anos é apenas o começo. Criamos estruturas para exaltar o triunfo de Cristo, e agora estamos justamente preocupados em alterá-las/suprimi-las, para que resplandeça a glória do Senhor no ser vivo. Construímos majestosas catedrais para abrigar multidões e agora estamos procurando Deus para que não se esqueça de nelas habitar. A resposta divina se revela nos pequenos grupos que vivem a Palavra de Deus e maravilhados descobrem que cada ser humano é uma catedral majestosa, com ornamentos suficientes para abrigar Deus.

Os cristãos sabem que o amor é o centro da mensagem do Menino: mas jogam bombas para destruir o Afeganistão. Sabemos que a criação é divina: caprichamos em destruí-la. Países católicos, como o Brasil, sentem a dor da perda de 30-40 milhões de católicos, mas não sentem dor equivalente com 30 milhões que diariamente passam fome. Todos somos irmãos: na prática, muito pouco. Estamos aprendendo.

Num mundo de morte, somente a Igreja tem uma palavra de vida definitiva: precisa centrar-se nessa missão. É tempo de esperança, de alegria. Temos muito a fazer com o Menino que cresceu, morreu, ressuscitou e teve a bondade de enviar-nos o Espírito Santo que é a alma do mundo, da Igreja.

Devemos ser modestos em nossa arte pastoral. Afinal, o Espírito paira sobre o universo e inspira a criatividade trinitária. É cheio de novidades. Deus é Mãe: as mães são fecundas por definição e vivem preparando surpresas para seus filhos. Estejamos atentos a essas surpresas divinas. A evangelização apenas começou. A criatividade divina nos prepara surpresas inimagináveis. Tão grandes e belas com o Menino Deus nascendo numa manjedoura.

Pe. José Artulino Besen

 

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