MISSÃO – ANUNCIAR A CRUZ DO SENHOR

Santo Hilário de Poitiers (315-368) foi batizado aos 30 anos e, oito anos depois, em 353, foi eleito bispo de Poitiers, atual França. Ali se deparou com o sucesso da heresia dos arianos, que afirmavam que Jesus foi um homem que Deus escolheu para ser seu Filho, deste modo não sendo eterno. Uma heresia agradável, pois não incluía a eternidade de Cristo e sua encarnação. Agradável, mas destruía o fundamento da fé cristã pela qual cremos que o Filho eterno entrou na história assumindo a natureza humana no seio virginal de Maria. O ensinamento de Ario foi condenado no Concílio de Nicéia (325), mas dividiu a Igreja.

O imperador Constâncio II queria tudo, menos uma Igreja dividida que mexeria com a paz no Império. Pendeu para o arianismo, condenando a verdadeira doutrina. Afinal, com seu pai Constantino a Igreja ganhara liberdade e deveria ser reconhecida e obediente, pensava.

Entra em campo o Bispo Hilário, que receberá o título de “martelo dos arianos”. Escreve ao imperador lamentando o fim da perseguição que trouxe a falta de liberdade de crer na verdade. Suas palavras são contundentes: (O Imperador) “é traiçoeiro e bajulador, não nos açoita as costas, mas nos acaricia o ventre; não nos confisca os bens (assim dando-nos a vida), mas nos enriquece para dar-nos a morte; nos impele não para a liberdade aprisionando-nos, mas para a escravidão convidando-nos e honrando-nos no palácio; não açoita nosso corpo, mas se apodera de nosso coração; não corta nossa cabeça com a espada, mas mata nossa alma com o dinheiro “ (Liber contra Constantium 5).

Para o santo bispo, não vale a pensa a liberdade se priva o cristão da verdade. Continua sua defesa intransigente do mistério da Encarnação. Em 364 foi exilado por outro imperador, Valentiniano I, defensor da heresia e que gostava de atirar o corpo dos adversários como comida para suas duas ursas favoritas, Migalha de Ouro e Inocência.

A exemplo de Hilário, nós também conhecemos a terrível e sedutora tentação de facilitar a fé e a vida cristãs. Assim como havia teólogos em Constantinopla dando razão ao Imperador, teólogos em Coimbra e Salamanca que justificavam a escravidão negra, não nos faltam teólogos envolvidos no heróico esforço de tornar o mistério cristão palatável aos humores atuais.

Pregadores transformam as exigências cristãs em esforço de mudança sujeita às desculpas psicológicas (a lei é assim, mas sou uma exceção, pois tenho minhas carências). Quantos de nós, cristãos, apreciamos o circo dos milagres que reduzem o Senhor a um curandeiro, esquecendo-nos o quanto Jesus repudiava ser procurado por causa de milagres: querem meus milagres, mas não querem minha pessoa!, afirmava. Há um pregador televisivo, autodenominado “apóstolo”, afirmando que não inicia uma pregação sem ao menos dez milagres. É dono de algum deus…

Sendo constitutivamente missionária, a Igreja não pode ingressar no mercado competitivo das facilidades. Não assim nos ensinaram os Apóstolos, os Mártires, não assim nos ensinam os missionários que se embrenham pelas selvas humanas do mundo das culturas. Servem-se de recursos que possibilitem a inculturação mas, no momento principal, gritarão: “O Senhor que vos anunciamos é o Filho de Deus, o Cristo crucificado! Ele ressuscitou!”. Não faltará serem acusados de loucura, escândalo, fraqueza. Não há, porém, outro caminho. Na sua viagem à Inglaterra (17/09/2010), Bento XVI afirmou que hoje “o preço a ser pago pelo Evangelho não é sermos enforcados, afogados ou esquartejados, mas, sermos ridicularizados”.

A medida do Deus amor é a cruz. Deus sofre e morre na carne para vencer a morte. Toda a conversão se orienta para o combate que leva da morte à ressurreição. A glória do cristianismo é a Cruz, árvore da vida. A árvore do Paraíso trouxe a morte, a árvore da Cruz traz a vida, pois o Senhor da Vida dela é inseparável. A facilitada negação do pecado esconde a negação da cruz: seguir o Senhor, renunciar, tomar a cruz.

No dia do batismo através dos pais e padrinhos, no dia da Crisma em nome pessoal, na Vigília pascal com a comunidade, somos convidados a proferir três vezes o “Renuncio!” ao pecado, à injustiça, às seduções satânicas. Não há “Renuncio” sem amor à cruz, à luta constante pela fidelidade ao Senhor e aos irmãos. E sem o “Renuncio” autêntico, consciente não há vida pascal, nem alegria pascal.

O conhecimento de Deus se dá pela adoração que leva ao amor, pelos joelhos dobrados que expressam humildade frente ao mistério, pelo fascínio diante da beleza oferecida a quem testemunha a beleza da Cruz por uma vida de combate em busca da transfiguração pascal.

Pe. José Artulino Besen

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  1. #1 por maria do carmo wigg perfeto em 6 de outubro de 2010 - 13:30

    Como gostei desta (e outras) reflexão! Há uma tendência muito grande de querer facilitar as coisas e, por isso, se perdem muitos valores. Quando Jesus disse que Sua carne seria alimento, muitos discipulos foram embora e Ele não foi atras dizendo que não era bem assim; ainda perguntou aos apóstolos se também queriam ir. Buscamos o Deus que se revelou, mas queremos a nossa vontade na nossa capacidade de entender. Meu pai era professor de português, inglês, espanhol e matemática e, quando comentava que em suas aulas sempre aproveitava tempo para falar em Deus, as pessoas o indagavam: nas aulas de português, inglês ou espanhol é muito fácil; mas na de matemática, como o senhor faz? Ao que ele respondia: estão enganados; na matemática é muito mais fácil. A matemática é ou não é; não existe meio termo. Nas coisas de Deus se dá o mesmo: “sede quentes ou frios; os mornos Eu vomito – disse Jesus” (Ap. 3:16)
    Outro dia, ouvi um sacerdote comentar que: a única coisa que podemos oferecer a Deus é nossa dor (quando não têm solução), tudo o mais vem Dele. Falta-nos exercitar a humildade (e obediência); o que o senhor colocou tão bem em seu último parágrafo.

    • #2 por CRISTINA em 12 de março de 2011 - 19:15

      Concordo com Maria do Carmo e faço minhas as suas palavras.

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