DEUS ENVIOU A PALAVRA E O HOMEM CRIOU O PALAVRÓRIO

A Palavra traspassa a Virgem que acolhe a Palavra – Centro Aletti

Há um complô contra o silêncio: ruas, casas, lojas, clínicas estão povoadas por sistemas de som com música, anúncios, vantagens. O lar está tomado pelo barulho da TV, do rádio, celular, telefone, aparelho de som. Há barulhos nas imagens, anúncios nas estradas e vias públicas, sites de internet que também rompem o silêncio, às vezes com efeitos mais desastrosos ainda.

Por que temos tanta dificuldade em parar, fechar os olhos, permanecer silenciosos ou, silenciosamente, contemplar as pessoas que nos cercam, a paisagem oferecida gratuitamente? É o medo de nós. Medo da vida que levamos e fingimos que não levamos.

Fugimos da palavra verdadeira, autêntica, que nasce do silêncio e por ele é guardada. O silêncio é a embalagem mais preciosa para a palavra legítima que nos orienta. Uma embalagem frágil, diga-se, e se prefere esmagá-la quando nos fala palavras que nos machucam por dizerem a verdade.

Mas, vida sólida não combina com barulho, pois, sem o silêncio, não é possível uma vida de combate à dispersão, à ânsia, à distração, ao vazio interior.

A solidão, o silêncio e a ascese permitem olhar face a face os pensamentos-tentações que nos afligem: não crer em Deus nem em nada, a conclusão de que tudo se acaba em nada, o peso dos pecados que leva a duvidar do perdão, a capacidade de ver o bem no ser humano. O silêncio e a solidão nos obrigam a dar uma resposta a esses verdadeiros problemas, tão ocultos na vida social, mas tão exigentes para que possamos existir com sentido.

Ouvir o silêncio que fala, ouvir a Palavra de Deus exige que se calem as outras palavras, que se escute o outro, o irmão e a irmã que batem à nossa porta a fim de escutarmos seus problemas, sofrimentos, a palavra de sua vida. Foi no silêncio eterno que a criação ainda informe e vazia ouviu a primeira Palavra do Criador: “Faça-se a luz!” (Gn 1,3). Essa Palavra continua a ecoar pela história daqueles que decidem tornar suas existências luminosas mas, somente é ouvida no silêncio. E, sem a luz, a palavra não discerne o belo e o mau.

O barulho nos faz escutar o nada, leva-nos ao esvaziamento das profundezas de nosso coração, chegando a impedir-nos o grande grito silencioso e necessário “Das profundezas, Senhor, a vós eu clamo!” (Sl 129,1).

Silêncio – a Palavra veio morar entre nós

O silêncio é um caminho que se percorre no exercício perseverante e até árduo do encontro conosco. Às vezes o silêncio espanta e vem a tentação de retornar ao barulho, ao palavrório vazio. Prefere-se o sonambulismo espiritual, o não se conhecer em profundidade e se cai na alienação.

Numa espiritualidade movida a vácuo multiplicamos a ação, nos embebedamos para gritar falsas alegrias, transformamos o louvor em algazarra, o ato penitencial em gemido narcisista, a Liturgia em espetáculo, gritamos para Deus a fim de que ele não possa ser ouvido. Permaneceremos como semente lançada em chão sem profundidade.

E a Palavra se fez carne, e veio morar entre nós” (Jo 1,14). O Filho eterno do Pai não veio ao mundo com palavras, mas como Palavra feito carne, vida, encontro, misericórdia. Não Palavra de ensino, legalista, mas Palavra encarnada que nos narra o Pai, possibilitando-nos o confronto com aquele que, único, pode dizer: “Faça-se a luz!”.

Cristo-Palavra é o Filho estampado no rosto humano e permite decifrar Deus em cada rosto de homem, onde o Deus pessoal o trata como um “tu” e com ele estabelece diálogo. Então o homem mergulha no Absoluto e recupera sua imagem dialogal – somente se é pessoa diante de um tu – e emerge indo ao encontro do mistério do próximo, dando um significado infinito ao rosto do outro.

Na Palavra que se manifesta na Bíblia o homem se descobre vivendo o barulho angustiado, tomado pelo nihilismo, “eu não existo, não sou nada” para, em seguida, alimentado pelo silêncio, descobrir que existe, que necessita de salvação e que o Senhor é essa salvação.

A Bíblia é uma Palavra, a Palavra é Cristo, Deus é uma Palavra: Amor.

Para fugir do Amor criamos palavrórios sedutores envolvidos em embalagens de teologias prolixas, criamos igrejas movidas a milagres, competições denominacionais, proferimos conferências e sermões gritantes, colocamos o demônio em todos os problemas, transformamos o Cristianismo em terapia.

Não é necessário tanto palavrório. Servem apenas para fugir da verdade que é mais simples: é Palavra-amor no qual Cristo nos revela quem é Deus e, ao mesmo tempo, quem é o homem.

Pe. José Artulino Besen

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